quarta-feira, novembro 30, 2005

A "profanação" da História

Nos últimos dias, a propósito da invasão indonésia de Timor, ocorrida em 1975, veio a lume na Comunicação Social portuguesa, a polémica provocada pelo acesso e abertura das cartas trocadas entre os altos representantes do regime indonésio, dos congéneres norte-americanos e dos representantes do Estado português.
De então para cá, muita tinta “passeou” de mão em mão, muitas ideias foram debatidas e muitas teorias defendidas. A propósito ou não, foi até condecorado com o Prémio Nobel da Paz, o senhor Henry Kissinger que, nessa altura, era Secretário de Estado americano.
Existem diversas teorias e documentos que provam aquilo que há muito se sabe. Este senhor, considerado por muitos um “estadista inigualável”, cometeu algumas atrocidades, estando mesmo por detrás do derrube e do suicídio do eleito presidente chileno – Salvadore Allende.
Como se esta monstruosidade não bastasse, sobretudo pelo jogo de interesses geo-estratégicos que esta medida envolvia, também as cartas abertas acabaram por mostrar que este americano esteve envolvido na maquinação da invasão indonésia sobre Timor.
Por isto se vê que é sempre possível fazer e escrever a História com toda a veracidade, desde que os documentos sejam preservados, inalterados e passíveis de acesso público aos vários interessados. Foi através do acesso às diversas fontes que foi possível obter estes elementos, possibilitando a reconstrução de um emaranhado e labiríntico puzzle.
Há dias, numa notícia veiculada pela mesma Comunicação Social, fazia-se eco de que iam ser vendidos em hasta pública, em Lisboa, um conjunto de cartas, documentos, fotografias, livros com dedicatórias, projectos pertencentes a importantes personalidades políticas do Estado Novo, alguns com a classificação de “confidencial”; documentos escritos por Oliveira Salazar, Marcello Caetano e Américo Tomás.
Podemos não gostar do senhor Kissinger, do senhor Shuarto, ou dos ideólogos e mentores do Estado Novo. Uma coisa que não podemos nunca é virar as costas à nossa História, qualquer que ela seja.
A meu ver, é através de documentos escritos pelas mãos de Guttemberg, Galilleu, Newton, Rousseau, Napoleão, Hitler, Einstein, Salazar, Gorbatchov, Clinton ou de Karol Wojtyla que a História se faz. Eles fazem parte da vida de uma qualquer sociedade, Nação ou Estado, independentemente das invenções ou ideologias que cada um difundiu e da sua importância perante a humanidade.
O que se passou com a recente venda pública deste importante espólio nacional é uma atitude vergonhosa e “terceiromundista”. E falávamos nós tão mal acerca da destruição dos “budas” levada a cabo no Afeganistão!...

segunda-feira, novembro 28, 2005

A "cruzada" do laicismo

Desde o fim-de-semana passado que as crianças da minha aldeia vivem numa enorme euforia. Logo após terem tido conhecimento da medida governamental que a senhora Ministra da Educação se apronta fazer, retirando os crucifixos das escolas, que elas não conseguem dormir, não escondendo a imensa felicidade que as invade.
Dizem elas que, com esta importante e estrutural medida, finalmente alguém se lembra delas, de lhes proporcionar um ensino melhor e de lhes oferecer uma escola digna e de qualidade. Estas crianças estão convictas de que, com a “queda” dos crucifixos, finalmente os buracos das escolas poderão ser tapados, o frio e a chuva não mais invadirão as salas de aula, haverá professores a tempo e a horas, serão distribuídas igualitariamente refeições pela totalidade dos alunos… enfim, tudo isso. Que bom a saída do “Cristo”, dizem elas!
Há um outro grupo de adolescentes que vivem um momento igualmente feliz. Dizem eles que, com esta medida governamental, já não vão ter a necessidade de estudar aquela “chatice” dos "Sermões" e do discurso retórico do Padre António Vieira. Afinal não estamos num Estado laico?
Por outro lado, também amigos meus que pertencem às Forças Armadas mostram igualmente o seu contentamento. Isto porque, se a medida atrás referida for igualmente aplicada no Ministério da Defesa, eles deixam de ter de “bater continência” e de aturar os discursos do senhor “Padre Capelão”.
Posto a pensar em tudo isto fiquei eu! Ora, se vivemos num Estado laico, porque terei eu de ouvir frequentemente, em enfadonhos discursos de algumas cerimónias públicas, a frase por que todos os oradores começam: “Excelentíssimo Senhor, Arcebispo Primaz (de Braga), Excelência Reverendíssima”? Se vivemos nesse tal Estado, porque terei eu de ouvir diariamente o repicar dos sinos das igrejas em plena rua? Já agora, porque não obrigar os enormes Seminários a pagarem a Contribuição Autárquica, tal como eu faço, pela minha própria habitação? Pela área que ocupam, o tal Estado laico sempre aí irá arrecadar verdadeiras fortunas! E o “deficit”, está-se mesmo a ver!...
Já agora, para que a medida seja convenientemente explicada, poderá o governo, em vez da transmissão dominical da Missa, quer na Antena 1, quer na RTP1, canais do tal Estado laico, aproveitar este tempo para difundir as suas medidas! Sempre teria um “tempo de antena” mais alargado e assim, as medidas poderiam ser melhor compreendidas!
Pois é, agora quem não dorme descansado sou eu. Isto porque o estado de euforia vivido por mim, pelos meus amigos das Forças Armadas e pelas tais crianças e adolescentes da minha aldeia, transformou-se num estado deprimente. Então não é que, pensando bem, com esta medida, eu vou ter de mudar de rua? É que eu moro na Rua Padre Manuel da Nóbrega e, como em espaços públicos os símbolos religiosos não podem ser exibidos...

sexta-feira, novembro 25, 2005

O "choque" de forma "chique"!

Desde há uns meses, quando o Dr. António Vitorino elaborou o actual programa de governo, que ouço falar do “choque tecnológico”. Inicialmente, até achei uma media extremamente válida e muito a preceito, relativamente à realidade e às necessidades do país. Ao mesmo tempo, o actual primeiro-ministro usava e abusava, com a promessa que ia fazendo aos portugueses, acenando-lhes com a criação de centenas de milhar de novos postos de trabalho. Ora, com a proficuidade e uma boa aplicação do tão badalado “choque”, o combate ao desemprego tornar-se-ia, a meu ver, uma realidade! A esse respeito, muita campanha se fez, muitas linhas se escreveram e, até hoje, o que se fez? Ou ando mal informado, ou então, apetece-me responder: para além do grande mediatismo de ontem, nada!
Para cúmulo de tudo isto, o lançamento para a Comunicação Social do tal “choque” feito pelo governo, surge uns dias após a renúncia ao cargo do seu responsável. Eu questiono, como poderão ser implementadas medidas se o mentor dessas mesmas medidas já não lidera o projecto?
Depois, eu pensava que o “choque”, entre outras coisas, iria promover o emprego, por exemplo, com a adopção de medidas de suavização de impostos, junto das empresas criadoras de emprego; com a implementação de técnicas e de tecnologias inovadoras na generalidade da produção nacional; que se iriam criar estágios profissionais, não para ocupar os “tempos livres” dos desempregados mas sim, proporcionar a quem procura emprego, o tão desejado trabalho, agora com argumentos mais valiosos.
Afinal, o que foi que o senhor primeiro-ministro disse ontem? Que o “choque tecnológico” consistiria, essencialmente, no “aumento do número de licenciados”. Não senhor primeiro-ministro! Nós não estamos nos anos sessenta, onde o país tinha apenas cerca de trinta mil licenciados e todos empregados. Nós hoje, temos mais de cinquenta mil licenciados, em diversas áreas do saber mas, com uma grande diferença: estão todos no desemprego, todos! Por isso, é urgente e prioritário dar uma ocupação a quem já tem essa mesma graduação.
Mas ontem, penso que o mais importante, tal como tinha acontecido dias antes com o projecto da Ota, foi o “show off” com que a medida foi apresentada à Comunicação Social. O cuidado no convite endereçado aos diversos media, objectivando uma cobertura e divulgação exaustivas; o “palanque” minuciosamente montado a preceito, com o habitual “teleponto”, não fosse o senhor primeiro-ministro esquecer-se das habituais banalidades e o que restou? Pouco ou nada.
Por outro lado, pela evolução partidária e social que a História nos mostra, evolução verificada sobretudo nos últimos dois séculos, é justo pensar que os governos ideologicamente posicionados à esquerda se encontram mais próximos e mais sensíveis aos problemas sociais. Isto é um facto. Todavia, pelo seu habitual comportamento, este primeiro-ministro preocupa-se mais com o visual (também rima com social), do que na aplicação efectiva das verdadeiras medidas. Afinal, quem disse que uma imagem sempre vale mais que mil palavras?

quarta-feira, novembro 23, 2005

Koeman - o "Inventor"

Como simpatizante do Benfica e, sobretudo, do bom futebol, ontem, no final do jogo Lille – Benfica, apeteceu-me mandar o senhor Ronald Koeman às… não, isso não, mandá-lo antes às tulipas. Não o fiz porque acho estas belíssimas flores, além de caras, bonitas demais para serem vulgarizadas por alguém que coloca uma equipa de futebol (eu escrevi uma equipa de futebol?) disposta e a jogar daquela maneira!
Se o Benfica fosse um reino e o senhor Koeman o seu monarca, eu já teria um cognome para ele: Koeman - o “Inventor”! Inventor porque numa equipa onde actuaram onze elementos, apenas quatro atletas ocuparam os seus postos habituais. Já tinha ouvido falar na táctica dos dois ou três centrais. Agora com mais esta invenção do holandês, passou a haver a dos quatro, pasme-se! Para uma equipa tão modesta quanto a do Lille, não era necessário, a meu ver, um “autocarro” tão grande!
Às vezes, vejo por aí uns teóricos do futebol explicando “linhas de passe”, movimentações, marcações, “pressão alta”; dando grande ênfase à táctica de jogo. O técnico encarnado prova que tudo isso é desnecessário. Ontem, a sua equipa mais parecia aquele conjunto de compadres e de amigos que se juntaram num qualquer café lá da terra, onde cada um jogava para si, a seu belo prazer. Confesso que não me lembro de ver um jogo tão mau, mesmo vendo poucos!
Não gostava, neste momento, de fazer referência a qualquer jogador, mas não consigo! Tenho que dizer que é lindo ver o Beto a jogar, lindo! Como diria o saudoso Jorge Prestrelo, “é disto que o meu povo (não) gosta”! Meu Deus, como é possível? É confrangedor ver jogadores a arrastarem a sua vulgaridade em campo!
Um espectáculo é um espectáculo, como poderia muito bem dizer o senhor La Pallisse; onde se envolvem emoções, brilhantismo, alegria e “suspense”. No tal espectáculo do senhor Koeman, eu não vi nada disto!
Na antiguidade grega, os grandes teatros proporcionavam grandes espectáculos de representações. Contudo, quando numa qualquer peça os actores não davam o seu melhor, o resultado manifestava-se através de insultos e de apedrejamentos aos próprios. Pois é, obviamente que aos dias de hoje, tal medida apresentava-se completamente anacrónica e contraproducente. Simplesmente, os “actores” de hoje deveriam ter mais respeito pelo público, sobretudo pelos seus adeptos. Não basta a Koeman invocar no final que “los jugadores han tigo un gran carácter”. E digo eu: “no es verdad señor Koeman”.
A língua de Cervantes tem significações diferentes da de Camões e, a ser assim, talvez o técnico holandês tenha também de repensar, no futuro, os termos a utilizar para adjectivar uma qualquer actuação desastrosa da sua equipa; caso contrário, até aqui a sua invenção continuará!

terça-feira, novembro 22, 2005

"A ver navios"

A forte industrialização, ocorrida na Europa no início do século XIX, trouxe consigo, para além dos muitos inventos, novas necessidades para satisfação de uma renovada sociedade. As tarefas, até aqui produzidas directamente pela mão do Homem, são agora substituídas pelo frenesim da maquinaria. Homens e máquinas “lutam” arduamente, lado a lado, nas longas linhas de produção. Quem não se lembra do filme “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin, bem elucidativo destas ocorrências? É nesta época que germina um fenómeno importante: a “manufactura” dá lugar à “maquinofactura” no fabrico dos diversos produtos.
Mas, para que fossem postos em marcha todos estes enormes engenhos, foi necessário a procura de energia, capaz de movimentar toda esta engrenagem. Inicialmente, é o carvão e a sua indústria que respondem a esta necessidade. Esta energia é produzida em grande escala, levando à transformação de vastas paisagens e regiões. Como se tornava demasiado dispendiosa, sobretudo pelo seu transporte, o Homem socorreu-se de uma outra alternativa – o petróleo.
Esta energia, confinada a zonas muito específicas do planeta, sobretudo em países constituintes da antiga Mesopotâmia e da região do Crescente Fértil, tornou-se vital para as sociedades de hoje. Há mesmo países cuja economia depende da produção desta energia e, outros há, que fazem depender grande parte do seu tecido produtivo dessa mesma energia. Um exemplo paradigmático é Portugal.
Nos anos cinquenta do século XX, o Dr. Oliveira Salazar ainda tentou minimizar esta dependência, construindo diversas barragens hidroeléctricas, aproveitando os caudais dos principais rios. As barragens de Castelo de Bode, no rio Zêzere, junto a Tomar; de Bagaúste, no rio Douro, na Régua e outros projectos montados em plena serra do Gerês, nos rios Homem e Cávado, são disso verdadeiros exemplos. Todavia, com o avolumar da procura e a diversificação das necessidades, esta tentativa mostrou-se ineficaz e hoje, continuamos a ser um país altamente dependente, em termos energéticos.
Já muito ouvi falar de parques eólicos mas, até ao momento, esta energia pouco ou nada se reflecte na nossa economia. Como é possível que, um país como o nosso, com tantas serras, com um clima, em várias regiões bastante ventoso e agreste, não tem capacidade para um aproveitamento devido desta “dádiva”? O que faltará para uma maior incrementação desta indústria?
Por outro lado, é igualmente difícil encontrar um país, com a dimensão do nosso, que possua uma extensão de costa marítima como Portugal. Há muito que ouço falar na ideia da utilização da energia obtida através das ondas do mar. Temos uma vasta costa, capaz de satisfazer essa procura. Porque não se desenvolvem estudos aprofundados sobre este assunto a fim de provar e aprovar a viabilidade desta alternativa?
Mas, não nos podemos esquecer e alhear da ideia de que o petróleo e os impostos que ele gera são o maior “mealheiro” do Estado e, como está bom de ver, os sucessivos governos não quererão abrir mão deste chorudo fundo.
Afinal, pelo que me apercebo, neste país, o difícil não é ter ideias, o mais complicado, ao que parece, é aplicá-las! Em vez do “choque tecnológico” ou a par dele, o país precisa urgentemente de um “choque energético” para que não nos mantenhamos, impávida e serenamente “a ver passar os navios”!

segunda-feira, novembro 21, 2005

O comboio que sobe o Douro

Ontem, em ambiente de pré-campanha eleitoral para as eleições presidenciais, ouvi o Dr. Mário Soares defender, em Foz Côa, a reabertura da linha de caminho de ferro, entre o Pocinho e Barca D’Alva, percurso esse que se encontra encerrado e atirado ao abandono há já alguns anos.
Dizia ele que foi no tempo dos governos do Professor Cavaco Silva que essa linha foi encerrada, levando ao isolamento das pessoas e ao impedimento na utilização desse incomparável meio de transporte, tão do agrado das populações locais e mesmo dos muitos turistas que costumam aportar a essa apetecida região.
Pois é, embora o candidato Soares se tenha esquecido de dizer que, nessa mesma altura era ele próprio o “Presidente de todos os Portugueses”, a ideia parece-me muito justa e muito a propósito, a avaliar pelo abandono frequente e por alguma falta ideias e de iniciativas que impossibilitam a promoção e o desenvolvimento desta região, “Património da Humanidade”.
Quero aqui dizer o quão benéfico será a reabertura da totalidade da Linha do Douro, entre o Porto e Barca D’Alva, reparando uma decisão política, outrora tomada de forma errada e leviana.
Embora já por diversas vezes tenha tido o privilégio de viajar entre o Porto e a bonita e pacata vila do Pinhão, há algum tempo, tive a oportunidade de prolongar um pouco mais o meu percurso e decidi viajar até ao “terminus” da actual linha - o Pocinho.
Como é lindo o Douro e a sua envolvente! Como são belos os socalcos e as videiras neles pendurados! Como são dourados os cachos que se “bronzeiam” naquelas íngremes encostas! Ali, até as águas esperam pacatamente por alguém que lhes dê utilidade, onde são bem visíveis autênticas obras de arte esculpidas com o reflexo que a paisagem nelas provoca!
Para a “pintura” ficar completa, torna-se necessário fazer menção ao serpentear da linha-férrea que, por entre vales e túneis, faz ziguezaguear o comboio, transportando passageiros comuns e turistas; alegrias e tristezas; leva e traz pessoas, num rodopio infatigável, bem característico da modernidade dos dias de hoje.
É igualmente este comboio que permite levar este “postal ilustrado” até aos mais variados lugares, espalhados pelos diversos continentes, sempre ajudado pelo olhar frenético dos turistas, de binóculos e máquinas fotográficas em punho. Os flashes e os sons típicos da língua de Shakespeare confundem-se: “Beautiful, this is nice!”; “Marvellous!” são algumas das frases mais frequentes, atiradas pelos turistas, envolvidos e cobertos por uma áurea de espanto e de incredulidade.
Mesmo que estas imagens, para além de outras condicionantes, sejam sempre a visão do próprio autor, com toda a subjectividade a elas inerentes, qualquer olhar, qualquer enquadramento ou qualquer tomada de vista conseguida durante este percurso, terá sempre como resultado um fascinante e maravilhoso quadro, de um requintado naturalismo vivo, bem ao gosto e estilo de um Gauguin ou de um Vincent Van Gogh.

quarta-feira, novembro 16, 2005

A "família Scolari"

Durante alguns anos, a propósito de um projecto de estudo em que me encontrava envolvido, procurei aprofundar alguns conhecimentos em diversas áreas, no âmbito da História Universal. Ao longo desse trabalho de investigação tomei conhecimento e “contacto” com a existência de diversas famílias valorosas e proeminentes: quer no seu tempo, quer nos vários propósitos ou domínios das suas acções.
Lembro-me frequentemente dos italianos “Médici”, nobre família florentina de mercadores e banqueiros; dos russos “Romanov”, poderosa família de imperadores e dos “Gandhi”, destemida e valorosa família indiana. Todas estas famílias estarão, com certeza, associadas a um rol infinito de muitas outras que terão tido igualmente a sua importância nos mais variados quadrantes.
Uma da qual não tinha qualquer conhecimento nem estudo sobre a sua existência, era a "família Scolari”. E em que domínio se destaca então este “agregado”? No domínio do futebol! Ela é um grupo muito “sui generis”. Não possui um núcleo como as anteriores e é encabeçada por Scolari, seleccionador nacional de futebol.
Este devia ter como objectivo, após analisar um conjunto de jogos, proceder à escolha dos melhores atletas. Pois é, só que, o propósito previsto vem sendo deturpado há já algum tempo. O senhor Scolari, a coberto de uns quantos, convoca quem muito bem lhe apetece, debaixo da capa da escolha pessoal. Depois, vem pedir apoio do público à tal equipa que ele apelida de “todos nós” quando ela é apenas e só engendrada por ele.
O seleccionador nacional atinge o caricato quando diz que há um “lobby” contra este ou aquele atleta. Como será possível que, num estádio quase cheio, apenas o “sargentão” não veja aquilo que a todos parece obvio? Ora, se quase toda a assistência assobia constantemente este ou aquele atleta é porque a sua contestação lá terá o seu fundamento! Comparo esta “miopia” àquele soldado que, em plena parada militar, vai com o passo trocado, no meio de várias centenas. Afinal, quem terá de mudar o passo e tomar o rumo certo? É que assim, até fico meio confuso!...
Voltando às minhas “famílias”, é por demais evidente que este brasileiro desenvolveu um trabalho meritório à frente da selecção nacional. Inquestionável! Todavia, o espírito familiar com que convoca determinados atletas deixa muito a desejar e a explicar. Porque se convocam atletas para actuar fora das suas posições habituais? Porque se convocam jogadores que são suplentes nos seus clubes ou são de equipas “B”? Porque se deixou de convocar jogadores com um vasto “curriculum” e que outrora eram elementos assíduos nas convocações?
O conceito de selecção, como a própria palavra significa, pressupõe a nobre tarefa da escolha dos melhores, para com eles formar uma verdadeira equipa e não uma qualquer agremiação familiar. Enquanto assim não for atropelam-se os interesses nacionais e, já estou mesmo a ver a “família Scolari” a ser assobiada num qualquer palco por terras bávaras. Se assim for, que assim não seja!...

terça-feira, novembro 15, 2005

"Errare humanum est"

Cada vez que me desloco ao estrangeiro, normalmente em férias ou algo similar, quando lá permaneço um tempo superior aquele que o meu “relógio biológico” está programado, começo a sentir saudades. São saudades das pessoas, da minha casa mas, sobretudo do meu país, com todas as virtudes que a ele se associam e, igualmente, com todas as vicissitudes que ele comporta.
Já ouvi muita gente dizer que gostaria de ter outra nacionalidade, que o nosso país deveria ser parte de Espanha, que devíamos pensar como os americanos, que isto, que aquilo…! Em relação a isso, eu não concordo. Acho o meu país lindíssimo e não o trocava, para viver em outro qualquer lugar.
Mas, acontece que, apesar da minha irredutibilidade, reconheço que a “máquina” nem sempre se encontra bem oleada, para que tudo funcione na plenitude.
Vivo num país onde a justiça está, a cada dia que passa, a tornar-se invariavelmente mais injusta. Com a adopção da divisão tripartida dos poderes levada a cabo pelos ideais da Revolução Francesa, já lá vão mais de dois séculos, pensava-se que tomaria o caminho da isenção e da igualdade.
A acreditar naquilo que vem chegando aos olhos de cada um, leva-me a crer que aqueles ideais se vêm adulterando e entrando por caminhos enviusados.
No meu país acusam-se pessoas, constituem-se arguidos, colocam-se em cativeiro, às vezes por períodos longos até três anos e, no final, soltam-se sem nada se saber. Outros há que, embora o cativeiro lhes seja decretado, a aplicabilidade do mesmo nunca chega a ser real, porque entretanto, o arguido foge para o estrangeiro, avisado que foi por elementos do próprio tribunal! O mais caricato é que, esses mesmos “foragidos” quando regressam são recebidos como autênticos heróis nacionais, facultando-lhes a própria lei a possibilidade de se candidatarem a lugares públicos de elevada responsabilidade.
Outros há ainda que, depois de cometerem sessenta infracções, conduzindo por exemplo sem carta de condução, fazem abaixo-assinados para serem ilibados, o que acabam por conseguir, junto do juiz responsável. E se uma destas infracções tivesse provocado a morte de um qualquer cidadão? E se esse cidadão fosse familiar do juiz?
Há ainda aqueles “Xicos Espertos”, como chamava a atenção o Presidente da República que, valendo-se do contributo de advogados que de deontologia profissional nada entendem, ou se calhar entendem demasiado, conseguem prolongar “cine dia” as sessões dos julgamentos com um único objectivo – o de ganhar tempo.
Será que vale a pena ganhar esse tempo, perdendo a credibilidade e a honestidade, ofuscando e colocando em causa e excelência e a nobreza de quem desempenha tais profissões?
Mesmo que prevaleça a velhinha máxima onde “errare humanum est”, torna-se imperioso que a justiça em Portugal seja isenta, se alheie verdadeira e definitivamente de interesses instalados. Só assim conseguirá responder dignamente aos preceitos traçados e honrar os propósitos alcançados na longínqua e histórica Revolução Francesa.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Paz à liberdade

Passa hoje o trigésimo aniversário da independência de Angola. Muitos foram os angolanos que, nesse longuínquo dia, tanta esperança depositaram num futuro que julgavam auspicioso.
Os acordos de Alvor assinados em 1975, entre uma delegação portuguesa e uma “troika” angolana composta por elementos dos partidos MPLA, FNLA e UNITA, auguravam então um futuro promissor para aquele imenso e rico país africano.
Todavia, as lutas fratricidas pelo poder, a falta de respeito pelos direitos e valores de cada um, provocaram, ao longo dos anos, uma forte instabilidade social, tornando os meios de produção incapazes na resposta às necessidades das populações. A fome, a miséria e a falta de capacidade produtiva vieram para ficar!
A coesão interna, em momento algum terá sido sentida e a guerra civil foi o passo seguinte. As lutas partidárias foram intensas e o “vale tudo” imperou num misto de desordem, de caos e de anarquia.
A forte pressão externa, com o inevitável jogo de interesses, foi outro pólo de rebelião. Países vizinhos como a África do Sul e outros como os Estados Unidos e a União Soviética, tinham como objectivo o domínio de diversas explorações como é o caso dos diamantes, ou mesmo o domínio político estratégico, levado a cabo sobretudo pelas duas grandes potencias.
Fazendo uma curta viagem histórica, será bom de ver que o MPLA não terá tido “engenho nem arte” para dar ao povo angolano aquilo pelo qual este tanto havia lutado: a liberdade e a igualdade nas oportunidades que Agostinho Neto tanto defendeu!
Este partido, fortemente ajudado pela URSS de Leonid Brejnev e por Cuba de Fidel Castro, impediu o caminho do país rumo à implantação de uma verdadeira democracia. O mais caricato de tudo isto é que, “El Comandante” enviou mesmo um forte contingente de tropas para aí maquinar e “desenvolver” um país, com um único objectivo: a implantação de um regime político de cariz marxista-leninista, o que veio a suceder.
Por outro lado, a África do Sul, posicionada mesmo ali ao lado interessava-se pelos diamantes da Jamba. E como obtê-los? Financiando a UNITA de Jonas Savimbi. Os americanos, atrás dos interesses estratégicos, não poderiam ficar aquém dos anseios da URSS e, vai daí, lançam igualmente uma forte ajuda à UNITA. Como é bom de ver, o puzzle estava mais uma vez montado rumo a uma “guerra-fria” entre americanos e soviéticos mas fora dos seus respectivos países, como havia sucedido em outras paragens.
A todas estas convulsões não terá sido também alheio a falta de ideias e de soluções adequadas à situação vivida, por parte da delegação portuguesa que participou nos acordos para a independência. Esta delegação não terá previsto, projectado e pensado o melhor para aquele país. Liberdade sim mas em paz!
Com erros e falhanços, com interesses e vontades, com riqueza e pobreza, com corrupção e lealdade, coabitam hoje os milhões de angolanos num renovado clima de esperança, tal como há trinta anos. Afinal, é com paz que a liberdade se consolida e ela estava ali tão perto!...

quarta-feira, novembro 09, 2005

Todos diferentes, mas todos iguais!

Muito se tem escrito e discutido sobre a Administração Pública e a sua organização mas, valendo-me daquilo que vem sendo dito e feito pelos dirigentes que nela se inserem, para além de quase nada ser e ter sido feito, o pouco que se faz, afigura-se completamente contraproducente, descabido de oportunidade e de interesse pela causa pública.
Façamos uma pequena viagem. De quatro em quatro anos, os portugueses são chamados às urnas para elegerem os seus representantes na Assembleia da República e, à sombra do sistema semi-presidencialista que nos rege, o resultado destas eleições reflecte-se na escolha que o Presidente da República faz, relativamente ao chefe do governo a empossar. Por seu lado, este escolhe os seus ministros e estes os secretários de estado. Até aqui, nada me oferece quaisquer dúvidas.
Acontece que, com a queda ou alteração verificada nos diversos governos, por uma qualquer causa, provocando por vezes mudanças na “cor política” dos mesmos, foi-se instituindo que os Directores Gerais, os gestores das empresas públicas ou de outras cujo capital público é maioritário, são usualmente alvos de substituição. A explicação dada é sempre a mesma, independentemente da cor política que a profere – a da confiança política ou da falta dela.
E eu que pensava que as pessoas iam para cargos desta natureza a coberto da sua invulgar capacidade, da sua extraordinária organização e métodos de trabalho onde o seu “curriculum vitae” coarctaria uma qualquer suspeição. Puro engano! A politização destes cargos é completamente nefasta e inimiga de um desenvolvimento de base, sustentado e de qualidade que se pretende ver implementado.
Até aqui, todos os governos dos mais diversos quadrantes e cores têm vindo a ter comportamentos muito semelhantes. Ainda há dias, o porta-voz do actual governo explicava o inexplicável, relativamente à substituição do dirigente do Instituto Nacional de Estatística.
Face a isto e como será bom de ver, o “deficit” e o desemprego no futuro vão baixar, a empregabilidade sobe e todo um conjunto de dados irão ser “pintados”, não conforme a realidade existente, antes sim, conforme a cor política que predomina!
Afinal, numa coisa eu vejo finalmente coerência em todos os governos: nos tais “jobs for the boys”! Todos diferentes, mas todos iguais!
Os vários responsáveis políticos têm um fortíssimo exemplo, com provas dadas de bem servir e de bem gerir, personificado no Director Executivo da TAP – Fernando Pinto, que tem vindo a resistir aos sucessivos governos e interesses. E se os vários governantes e dirigentes lhe seguissem o caminho?

terça-feira, novembro 08, 2005

Os "meninos" da rádio

Quem como eu, que não teve o privilégio de nascer, crescer e “formatar” as suas ideias à sombra de programas televisivos do tipo “Rua Sésamo” ou outro, adequados à sua idade e à sua época, sentiu a necessidade de procurar, junto de outros meios de comunicação, a satisfação dessa lacuna.
Face a uma escassa e ineficaz cobertura televisiva nacional, nos anos setenta, a rádio constituía-se como um meio de comunicação por excelência, tornando-se mais vulgar, mais acessível e mais difundido junto da generalidade das populações.
Foi desta forma que, desde muito jovem, aprendi a “dialogar” com algo que não perpassava o meu imaginário e, através do qual, me distraía e me divertia com alguns dos programas então oferecidos. Já aí, a interactividade “povoava” o meu pensamento, embora de uma forma inconsciente.
Programas como os “Parodiantes de Lisboa”, “Bola Branca”, “Alvo Desportivo”, “Oceano Pacifico” e “Lugar ao Sul” ajudaram-me em muito a crescer, a construir ideias e pensamentos, a imaginar formas e conteúdos, a criar ambientes e personagens, enfim, um sem número de conceitos que acabariam por moldar o meu pensamento.
Gostaria de destacar o programa “Lugar ao Sul” que ainda hoje vai para o ar, na Antena 1, entre a meia-noite e a uma da madrugada. É um espaço radiofónico onde o seu autor, Rafael Correia, dedica e difunde um “pouco de tudo” relativo à cultura dos locais por onde passa, que é como quem diz, retrata o Alentejo “profundo” e outros lugares espalhados pelo Algarve, lugares esses que não constam de um qualquer roteiro turístico.
Este programa é composto por um misto de música típica e popular, por sons vários, por entrevistas recortadas a pessoas simples que, ao longo da sua vida, se habituaram a “carregar” a sua experiência e o seu pragmatismo. São pessoas comuns, que vivem escondidas atrás de silêncios, longe da azáfama da modernidade, dispostas a partilhar connosco a sua mestria, a sua arte do cultivo e do amanho da terra; a “engenhosa” forma como passam de “mão em mão” as ancestrais práticas e técnicas, proporcionando ao espectador uma deliciosa viagem bem ao coração da ruralidade portuguesa. A estes, à rádio e ao Rafael Correia o meu “muito obrigado”!

segunda-feira, novembro 07, 2005

"À grande e à francesa"

Há já alguns dias que a generalidade da comunicação social faz eco dos acontecimentos que vêm ocorrendo nos subúrbios da capital francesa, Paris.
É com estupefacção e com um ar de incredulidade que assisto a todos estes motins, organizados por gente despida de princípios e valores, ávida de atenção por parte das autoridades que comandam o país.
A incredulidade que sinto não é propriamente pela violência que os ataques perpetrados por estas pessoas descontentes causa. Se atentarmos bem, o descontentamento gera, em qualquer parte do mundo, essa mesma revolta. A minha estupefacção advém de estes actos se praticarem no “país aberto e plural” que é a França, a quem a civilização europeia tanto deve e onde tanto foi buscar.
Num país onde coabitam franceses e outros europeus de quase todas as proveniências; magrebinos; africanos oriundos das suas antigas colonias; das Antilhas e de outras paragens; um país que convive diariamente com movimentos nacionalistas, com democratas, com homossexuais na “prefeitura” de uma qualquer cidade; pensava eu que este país era um território mais despido de preconceitos, mais tolerante e onde a igualdade social fosse mais nivelada por cima.
Afinal não, puro engano meu! As imagens que passam sugerem-me um país igual a tantos outros, com problemas raciais, de desemprego, de exclusão, de assimetrias sociais, enfim, um “déjà vu” como em outro qualquer lugar do mundo.
Não terá sido para isto que Carlos Magno, Voltaire, Descartes, Rousseau, Napoleão, De Gaulle, Miterrand, entre muitas outras marcantes e ilustres personagens francesas, tanto empenho terão dedicado à sua pátria!
Baseando-me nas imagens que vão sendo transmitidas, afinal a França é apenas mais um país. A “facilidade” e a forma com que os ideais da Revolução Francesa que aí foram “semeados” e que ajudaram a redigir alguns dos paradigmas políticos da contemporaneidade, são os mesmos com que hoje se debatem os múltiplos habitantes dos bairros pobres e dos “dormitórios” da periferia de Paris. Ontem como hoje: o descontentamento, as desigualdades geradas no seio de uma sociedade constituem-se como o grande causador das rebeliões.
Todavia, a liberdade pela qual tanto sangue foi vertido, tantas lutas foram travadas e tanto diálogo foi tentado não pode, em momento algum, ser subvertida à vontade de uns quantos que, (des)governados pela capa da exclusão, atropelam e colocam em pânico a generalidade das populações.

sexta-feira, novembro 04, 2005

O sol quando nasce é para todos!

Num artigo publicado há já alguns anos pelo sociólogo António Barreto, a propósito da mudança social ocorrida no nosso país, entre as décadas de sessenta e de noventa do século XX, este sociólogo aí fazia menção e deixava bem vincado o crescente e devastador fluxo migratório de pessoas para aglomerados populacionais de grandes dimensões, posicionados junto ao litoral português.
Aquilo que inicialmente terá sido um sintoma de modernidade e de mais valia, uma vez que as populações buscavam aí melhores condições de vida; visto aos dias de hoje, tal movimento migratório desenfreado acabou por provocar um nefasto e desastroso resultado no seio das regiões interiores.
A dicotomia entre o interior e o litoral tornou-se cada vez mais disforme e assimétrica. Assistimos assim ao germinar de um Portugal a dois tempos: o do interior e o do litoral.
E o que se tem feito para inverter esta situação? Nada ou quase nada. Apenas meras operações de cosmética. As grandes construções ou eventos nacionais decorrem praticamente, ou na capital, ou nas tais cidades situadas junto ao litoral. O Centro Cultural de Belém, a Expo 98, o Euro 2004, o Metro e a Casa da Música no Porto são os exemplos mais evidentes.
Como pode a classe dirigente de um país apelar à adesão de um povo, relativamente ao apoio no Euro 2004 se este evento apenas ficou sedeado em zonas litorais do país?
Porque não se construiu um qualquer estádio de futebol numa qualquer cidade interior? Nunca defendi que fosse em Bragança, Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora ou Beja. Qualquer uma delas o poderia fazer. Apenas defendi que essas populações também tinham esse direito uma vez que, para além de comungarem da mesma identidade, são igualmente contribuintes e pautam-se também pelos mesmos deveres de cidadania!
Tive conversas com amigos onde, à altura esgrimi as minhas ideias. Muitos diziam: “e depois o que fazemos aos estádios que ficarão vazios e sem ocupação?”. Argumento nada mais vazio e oco pois, o estádio do Algarve, em dois anos, apenas recebeu dois jogos: um como “casa emprestada” do Estoril e outro da selecção nacional. E, pelo que sei, também os estádios de Aveiro e de Leiria estão constantemente “às moscas”, para não falar de outros!
Embora tenhamos cometido erros no passado, era imperioso precaver e inverter o futuro. Mas o que se está a preparar para o imediato? A construção do Aeroporto da Ota e do TGV. Resumindo, mais do mesmo!
Não podemos lembrar-nos do interior apenas de quatro em quatro anos, em época de eleições; não podemos lembra-nos do interior apenas para falar das “SCUT’s”. O interior é muito mais que isso e não pode servir de joguete de interesses políticos ou quaisquer outros. É urgente que se definam objectivos claros capazes de inverter esta “litoralização” desenfreada.
Afinal, quando Deus criou e distribuiu o sol, fê-lo de forma harmoniosa e para todos, embora em momentos diferentes! Mas fê-lo!...

quinta-feira, novembro 03, 2005

"Pela boca morre o peixe!"

Há muito que a Dra. Edite Estrela, exímia comunicadora e profunda conhecedora da arte de bem escrever, fazia a sua aparição pública no “pequeno ecrã” mostrando e demonstrando aos telespectadores a forma correcta de passar para o papel algumas palavras, sobretudo aquelas que mais dúvidas suscitavam a quem falava e escrevia a língua de Camões. A meu ver, esta era uma pedagogia acertada e coberta de oportunidade!
Passados anos, alguma classe política precisaria de fazer um “rewind”, agora não para aprender a escrever, isso pelos vistos muitos já sabem pois… pelo que eles dizem, são variadíssimas as publicações feitas, antes sim, para aprender a interpretar e a preocuparem-se mais com a utilização correcta de algumas palavras ou, quem sabe, a não mentir ou ocultar, como está muito em voga.
Com a azáfama das presidenciais à porta, pelo que se me apraz ouvir e ler, tudo é possível. Alguns candidatos até dizem que, se forem eleitos, está garantida a “coesão nacional”.
Num misto de felicidade e de aflição, não fosse eu interpretar mal, decidi consultar o dicionário da “Língua Portuguesa”, publicado pela Porto Editora, manual insuspeito e de renome, acerca do significado da palavra “coesão”. Ora esta palavra, entre outras designações, significa “solidariedade entre elementos de um todo” ou “união”.
Que pasmado eu fiquei ao certificar-me daquilo que já sabia! Como pode um candidato presidencial dizer que a sua eleição garantirá a “coesão nacional”, leia-se “união”, se não a conseguiu dentro do seu próprio partido? Como pode um candidato fazer tal afirmação se à esquerda a coesão rima sim mas com desunião, personificada nos vários candidatos concorrentes?
Ora, se não obteve essa união no seio dos seus partidários e muito menos no que concerne à sua ala política (esquerda); jamais o conseguirá junto de outros quadrantes – do centro ou da direita.
A avaliar por tudo isto, ou há ignorância e mentira pela parte de quem profere estas palavras ou então, leva-me a crer que estamos perante mais um daqueles discursos redondos que, de novo nada trazem e nada dizem, como já vem sendo hábito, a não ser o "piscar de olho" ao voto de cada um!
Agora eu percebo porque é que para ser Presidente da República não é necessário “perceber de finanças, nem ter biblioteca”. Pelos vistos, até podemos ignorar tudo, o que não podemos, a meu ver, é ignorar a verdade!

quarta-feira, novembro 02, 2005

A arte de bem conduzir!

Sou um utilizador frequente das auto-estradas portuguesas e deparo-me assiduamente com algumas infracções cometidas por um grande número de automobilistas. Entre aquelas já frequentes e que são do conhecimento comum, há duas que eu não vejo serem muito debatidas na opinião pública.
É sabido que, em muitas zonas destas vias, conforme a configuração do terreno, existem três faixas de rodagem no mesmo sentido. Aquilo a que eu assisto muito frequentemente é que, são muito poucos os condutores que circulam na faixa de rodagem da direita, mesmo que não se encontrem a proceder a qualquer ultrapassagem a outro veículo. Alguns, pasme-se, até dizem que a tal faixa é destinada apenas e só à circulação de camiões! Estamos perante uma invulgar manifestação de ignorância!
Ora, segundo “reza” o Código da Estrada, desde que não estejamos a proceder a uma qualquer manobra, devemos circular sempre na faixa da direita, desde que a situação o permita. E quem o faz? Muito poucos e, os que o fazem, quando pretendem ultrapassar alguém que vai a cometer a tal infracção e em velocidade inferior, vêem-se na iminência de terem de se deslocar desde a direita até à esquerda.
Tudo isto porque não é permitido ultrapassar pela direita. Será que estes infractores não terão aprendido as regras todas? Será que têm o conhecimento dessa obrigatoriedade ou será por mera preguiça? É que as três faixas são semelhantes em dimensão e o piso é igualmente bom! Então porque será?
Outra infracção prende-se com a frequência com que os faróis de nevoeiro são ligados. Há muitos automobilistas que à noite, com nevoeiro ou sem ele e para sua comodidade, mantêm os ditos faróis acesos. Como é sabido também, esta prática não é permitida, exceptuando em situações onde o tal nevoeiro marca a sua presença.
Esta ocorrência parece um pouco irrelevante mas às vezes, para além de causar graves encandeamentos entre viaturas, provoca igualmente um mal-estar a quem se cruza com estes infractores.
Afinal, muito mais barato que as já gastas campanhas contra o alcoól, contra a utilização do telemóvel ou a favor do cinto de segurança, deviam também proceder à sensibilização dos vários automobilistas, no que concerne à simples utilização e ocupação das faixas de rodagem disponíveis, conforme a intensidade de trânsito e a velocidade pretendida e, ao mesmo tempo, sensibilizar para a utilização adequada dos tais faróis de nevoeiro que, como o próprio nome indica, deveriam ser apenas e só para essas mesmas situações.