Para tecer algumas considerações e fazer uma análise mais ajustada e equilibrada sobre a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Beijing, aguardei pelo desenrolar das provas iniciais para poder fundamentar algumas da minhas reflexões aqui deixadas.
As “olimpíadas”, nome dado ao certame, são originárias da clássica cidade grega de Olímpia, local onde se realizaram os primeiros jogos. A proveniência do nome continua actual mas, olhando ao que se passou (ou não!) nestes jogos, no seio da representação nacional, até que nem ficava nada mal se o rebaptizassem de “Olim Piadas”.
Os atletas tiveram tudo a seus pés: sempre envoltos em grande alarido; as boas vindas da Presidência da República; um chefe de governo desejoso em se alistar na prova da maratona (não fosse o lançamento de mais 1500 postos de trabalho) e um país inteiro a torcer por aquelas almas, trajadas com um rigor desmesurado e, logo ali, endeusadas num fantasioso Olimpo.
Era o cenário perfeito para uma participação sem paralelo na história das olimpíadas nacionais. Sobretudo porque, depois de seguir atentamente campeões a sério, com raça, com garra e com uma inesgotável vontade de vencer, provenientes de países como o Vietname, Eritreia, Etiópia ou Quénia, onde a subnutrição se evidencia e a cor dos ténis nem sempre condiz com a cor do pé do lado, esperava uma atitude lusitana muito além.
Afinal, os nossos “campeõezinhos” preferiram correr de “saltos altos”. Estava-se mesmo a ver que aquele “calçado” não era o mais adequado para o evento em que se propunham participar. Perdedores, lá se iam justificando com a habitual e enfadada “falta de condições”! Imagine-se o que diriam então aquelas criaturas com ar sub nutrido que atrás mencionei!
Para além de perderem, foi duplamente vergonhoso não saberem perder e a forma como o justificaram. Verdadeiros momentos hilariantes, muitos deles, candidatos a piada do século. Sim, porque vitórias… nem vê-las!
Para não soar a falso, refiro-me e transcrevo apenas algumas das desculpas dadas: Arnaldo Abrantes, que nos presenteou com o 52º lugar nos 200m, justifica-se dizendo que “entrar neste estádio cheio, bloqueou-me um pouco” e que “só tinha entrado num estádio assim para ir ao futebol”. Isto de férias pagas e ainda por cima, com o bónus acrescido de um espectáculo futebolístico ao vivo e a cores, tem que se lhe diga! É caso para dizer, “leve dois e não pague nenhum”!
Marco Fortes, justifica a sua deplorável prestação no lançamento do peso com o prematuro acordar cedo. Para ele, “de manhã só é bom é para estar na caminha, pelo menos para mim”. Este esqueceu-se que é a terra que gira à volta do sol e, como tal, há fusos horários! Ah, e horários!...
O cavaleiro Miguel Ralão Duarte foi forçado a desistir porque a sua égua “entrou em histeria, assustando-se ao ver os ecrãs electrónicos”. Juro que não sei ao certo quem terá entrado em histeria ou então, qual dos dois era o quadrúpede?
A judoca Telma Monteiro, após ter apanhado de quase toda a gente, desculpou-se, queixando-se do árbitro e das adversárias “que parece que só andaram a estudar para lhe ganhar”. Deve ter sido o cabelo ou o penteado os causadores e que não a deixaram ver mais além! Além disso, a Telma devia saber que estudar eleva a inteligência de qualquer um e… a educação também!...
Ainda no judo, Pedro Dias, para além do “brilhante” 9º lugar, conseguiu uma outra proeza: resolveu uma questão passional. Foi-se às trombas do seu opositor brasileiro “que, em tempos lhe havia roubado a namorada”. Podia ter resolvido o problema mais perto, em Portugal, por exemplo! Não fosse a coisa correr mal e sempre teria os amigos por perto!
No lançamento do martelo, Vânia Silva ficou em 46º, entre meia centena de concorrentes, desculpando-se com um “não sou muito dada a este tipo de competições!”. Oh meu Deus, podia antes ter concorrido a cozinheira ou intérprete da comitiva nacional. Como diria o “velho” José Cid, “quem te manda a ti sapateiro [Vânia Silva], tocar o meu rabecão”!...
Já agora, o canal público de televisão escusava de ter esbanjado tanto dinheiro com resmas de gente e meios. Coisa desmesurada! Para cada competição, seu repórter. E depois, onde estavam os telespectadores, se as provas decorriam de madrugada? Ai o “Serviço Público”!
Acho também que o bom jornalismo, capaz e imparcial, deveria ter marcado presença. Se uma atleta (Telma Monteiro), quando representa as cores nacionais perde e o repórter a apresenta dizendo que ela é do Benfica, então, dever-se-ia seguir a mesma lógica quando fala de alguém que acaba de ganhar uma medalha (Vanessa Fernandes) e é do mesmo clube! Ficava bem senhor Hugo Gilberto (RTP)!... É nos detalhes que se vê o bom e o mau jornalismo.
Mas, como nem só de piadas vive o homem, nota de destaque para a nobreza e para a humildade sentidas nas palavras de Francis Obikwelo, depois do seu afastamento da final dos 100m e do consequente abandono da alta competição. Sem grande alarido, pois era já esperada, nota de relevo para a medalha de prata da sempre esforçada e exigente Vanessa Fernandes. Esta não engana!
O dinheiro investido para levar muita desta gentinha até Beijing, dava para alimentar resmas de promissores atletas africanos, oriundos daqueles países onde não há bolsas, onde as fisionomias e rostos evidenciam um crescimento envolto em dificuldades e onde, para além de treinarem sem grandes condições e sozinhos, as “bestas” não se amedrontam com os ecrãs electrónicos porque os desconhecem! Ah, com um “se não”: estes esforçam-se e sentem orgulho na sua pátria e, como consequência, ganham medalhas!
Afinal, depois destas “Olim Piadas”, perdão, “Olimpíadas, alguém me saberá dizer o que é o espírito olímpico? Continuo que, o Homem sempre gostou mais de obras do que de palavras!...