quarta-feira, maio 31, 2006

Esta Maria de Lurdes...

Em Portugal, de repente, tudo parece ter mudado. Num ápice, os governantes, em todos os sectores públicos, instauraram um verdadeiro “estado classificativo”, ou seja, a actividade de cada funcionário da administração pública obedece a objectivos pré definidos, pouco esclarecidos, omissos e muitas vezes de complicada aplicação.
Sei de casos em que a classificação de serviço de alguns destes agentes é definida através de respostas a inquéritos duvidosos distribuídos à generalidade da comunidade sem que estes tenham conhecimento em que consiste a actividade de cada um em particular. Isto tem uma tradução: “atirar com areia para os olhos”!
Se a minha actividade profissional se desenrola, por exemplo, na área das Ciências Sociais, será impensável haver inquiridos nas áreas da Matemática, da Geometria Descritiva ou da Biologia Molecular a responderem, avaliando assim o meu desempenho! Esta atitude faz-me lembrar aqueles actos pidescos de outros tempos em que um qualquer poderia opinar sobre qualquer outro, sem que para isso fosse necessário qualquer conhecimento específico.
Isto vem a propósito de umas declarações infelizes que a senhora ministra da Educação proferiu por estes dias, num fórum realizado na Maia, onde ela acusa os professores de “responsáveis pelo insucesso escolar” que grassa no nosso país. No ar ficou a ideia de que os professores deviam ser classificados pelos pais dos alunos. Dito assim, soa-me a uma profunda injustiça, até porque sei da existência de muitos professores muito capazes e muito mais competentes no seu trabalho que esta senhora. Eu conheço-os! Logo, a generalização terá sido irresponsável e infeliz.
Usando desta analogia, a senhora ministra deveria saber que numa qualquer ceara haverá sempre o joio a estorvar o crescimento de muitas culturas! Há anos que a classe política e o ministério nos quais esta ministra se enquadra se implementam reformas e mais reformas e qual o resultado? Nada! Isto é a negação da negação! É a fuga às verdadeiras responsabilidades políticas! Dou-lhe um conselho, senhora ministra: não coloquem os professores pelas notas obtidas! Coloquem-nos pelas capacidades que cada evidencia. Como em tudo na vida, há pessoas que têm muita apetência para o ensino e gostam e há outras que têm muita apetência para ganhar dinheiro e conseguem! A tal classificação reside aqui! Se há pré requisitos para tudo, porque não existem no acesso à formação docente?
O mais caricato foi a governante ter dito que os professores deveriam ser classificados pelos pais dos alunos. Esta é mesmo para rir! Esta senhora ficou mesmo muito marcada por uma hipotética leitura que terá feito sobre a “Utopia” de Thomas More! Pensará ela que neste país tudo será assim tão igual e tudo funcionará assim de forma tão perfeita?
Já alguém imaginou um professor de uma qualquer escola da Damaia, em Lisboa, do Bairro do Viso, em Setúbal, ou do Bairro do Aleixo, no Porto, ou de muitos outros bairros igualmente problemáticos, espalhados por todo o território nacional, serem avaliados pelos pais desses mesmos alunos? Que instrução ou capacidade avaliativa muitos deles terão para poderem ajudar a traçar um verdadeiro diagnóstico? Só não me rio com esta medida porque ela é mesmo muito triste e infeliz! E pensar que somos governados por gente que assim pensa!
Desde os meus tempos de aluno que me incutiam a ideia de que um verdadeiro Estado só existe se nele coexistir a ideia de autoridade. É esta mesma autoridade que deve reinar nas escolas. Obviamente que autoridade não rima com castigos severos ou com o molestar da integridade física do aluno. Nada disso! Autoridade envolve dois factores essenciais: o papel do que ensina, do pedagogo, do mestre e o papel do aprendiz, daquele que assume a vontade na aprendizagem, papeis que desde a Antiguidade Clássica se vêm mostrando válidos e eficazes.
Depois do encerramento de algumas escolas primárias e das ideias agora veiculadas, se eu fosse o “general sem medo” e me questionassem sobre o que fazer com esta senhora, a resposta só poderia ser uma: “obviamente, demita-se!”.

terça-feira, maio 23, 2006

A "montra" vianense

Por vezes, convivemos à nossa volta com verdadeiros exemplares da nossa vasta cultura que, em muitas ocasiões, nem lhes dedicamos muito apreço. É usual, sobretudo no período anual das férias, visitar-mos este ou aquele país; este ou aquele monumento. Normalmente são-nos apresentados como os “ex libris” desses locais, a quem se tecem rasgados elogios; quer associados a grandes factos ou feitos históricos, quer mesmo ligados a grandes simbolismos culturais geracionais.
Quantos de nós já terão passado pelo gigantesco monumento de Alhambra, situado em Granada – Espanha e desconhece o emblemático e majestoso mosteiro cisterciense de Alcobaça? Quantas pessoas terão visitado a catedral de Compostela e nunca visitaram o secular interior da Sé de Braga? Muitas, com certeza!
Pois é, por vezes passa-se este fenómeno, onde a proximidade acaba por provocar o efeito inverso, ou seja, a ausência de curiosidade na sua visita, ou mesmo, alguma falta de interesse.
No passado fim-de-semana apercebi-me de algo parecido. Já me desloquei à bonita cidade de Viana do Castelo por diversas vezes. Normalmente em passeio domingueiro ou mesmo, para desfrutar de algum sol junto às praias da sua envolvente.
Viana do Lima, nome pelo qual um grande amigo meu tem por hábito chamar-lhe, tem um património cultural vasto, não estivéssemos nós no coração do Alto Minho! Todavia, muito poucos saberão que nesta cidade se situa uma das maiores e mais bem sucedidas indústrias da construção naval – os famosos “Estaleiros Navais de Viana”, nome pelo qual esta indústria náutica é conhecida.
Foi daqui que saíram grandes embarcações. Aqui se edificam e consertam muitos cruzadores transatlânticos, com destinos muito diversificados, quer em aplicações militares, quer mesmo na indústria piscatória do “fiel amigo” bacalhau.
Numa hábil e fantástica forma de homenagear esta indústria naval, os vianenses atiraram “mãos à obra” e, a uma embarcação emblemática abandonada como o “Gil Eannes” transformaram-na num autêntico museu naval ao ar livre! Este gigante dos mares, cansado de tantas vagas ter recortado, precisava agora de mostrar ao mundo toda a sua imponência, beleza e encanto que o envolvem.
A restauração e a possibilidade de visitas públicas foi a melhor forma de o apresentar ao mundo. No seu interior não faltam os quartos e beliches; as cozinhas e padarias; as enfermarias e as casas de máquinas. Tudo foi pensado. Até a máquina do “Raio X” por lá marca presença! Admiráveis as comunicações da época e as cartas marítimas! O pormenor da ementa do dia não passa igualmente despercebido. Que organização aquela!
Assim, aproveitando algo já desactivado, aqui está uma boa forma de promoção, exposta neste verdadeiro exemplar, transformado numa autêntica “montra” daquilo que de bom se produz por aquelas terras de Viana do Lima! Às vezes não é importante apenas ter ideias. É igualmente significativo colocá-las disponíveis e em prática! Parabéns pela brilhante ideia, vianenses!

sexta-feira, maio 19, 2006

Os "abrunhos" do Abrunhosa!

No passado fim-de-semana, inserido nas festas académicas da queima das fitas, que por estas bandas se designa por “Enterro da gata”, tive a oportunidade de assistir a um dos vários concertos do programa festivo. Nessa noite, sábado, a “ementa” oferecia-me um espectáculo, cujo cabeça de cartaz se chamava Pedro Abrunhosa.
Este músico de inegáveis capacidades e recursos quis converter-se, em determinados momentos, num cantor de intervenção, usando e abusando de um palavreado muito pouco apropriado e nada aconselhado para aquele lugar, sobretudo porque o espectáculo era dirigido aos “homens do amanhã” como ele próprio apelidou muitas vezes junto da plateia que o seguia.
Já assisti a concertos com grandes cantores de intervenção assumidos, como Sérgio Godinho, Fausto ou o saudoso Zeca Afonso. Nunca estes arautos da nossa música de intervenção se terão socorrido de tamanhas banalidades ou mesmo ordinarices para atingirem os seus intentos como o fez naquela noite Abrunhosa! Mas conseguiram! Esta é a prova de que nem sempre o ridículo é valorizado, graças a Deus!
Interroguemo-nos então, como terá acontecido a assunção vertiginosa do cantor Pedro Abrunhosa? Como ela foi possível? Por um lado, graças à montagem de um incisivo plano de marketing, usando e abusando do culto imagético de um vulgar cantor, envolto em artefactos e gestos inusuais ao comum dos cidadãos. Quem não se lembra do seu estiloso chapéu “bizantino” e das suas vestes arábicas? Isto para já não falar da sua “cegueira” permanente, combatendo-a com os inseparáveis óculos escuros!
Este contestatário cantor emerge em 1994, no seio de uma sociedade portuguesa cansada da governação política existente, onde a contestação social engrossava, culminando no famoso bloqueio ocorrido na Ponte 25 de Abril em Lisboa, onde a ele se lhe associou.
E o que fez ele, daí para cá, em favor da ponte e dos seus utentes? Que eu saiba, nada, embora os aumentos das portagens se tenham alterado vezes sem conta. Pois é, só que agora a sua contestação já não lhe dá visibilidade. Então socorre-se de outros artefactos e de outros públicos-alvo. E quem são os mais manipuláveis e permissivos? Os jovens; aqueles que olham o futuro com algum descrédito e receio.
Em dado momento do concerto, tive a consciência plena de que não fazia parte daquele numeroso grupo. Em uníssono Abrunhosa vociferava a palavra “cãos”, numa alusão clara aos ministros que governam o país, pasme-se! Por momentos ainda pensei que ele não soubesse formular o plural de cães mas, percebi de imediato o seu propósito!
Depois, voltou-se contra o imperialismo americano e apelou de novo à plateia a repetir “caos na América, caos na América, caos na América”, pondo-a em delírio! Pensei para mim, mas afinal, onde estou eu? Por momentos senti-me deslocado e envergonhado, abanando a cabeça em sinal de discórdia!
Não sou pró ou anti americano. Nunca fui. Agora sou abertamente anti qualquer tipo de caos: na América, em Africa, na Ásia, na Europa ou mesmo na cabeça do senhor Abrunhosa! Ah, sou com certeza anti populismos saloios!
Há pessoas que, pelo seu mediatismo e pela importância que determinados grupos lhes dedicam, deviam ter mais respeito por alguns valores ou então, deviam procurar utilizar uma pedagogia mais atenta e acertada quando se dirigem às massas. É que a enxurrada do “tudo vale” começa a estar demasiado gasta!

quarta-feira, maio 10, 2006

"L'état c'est moi"!...

Há dias, através de um relatório emitido por entidades competentes e especializadas, o governo português tomou conhecimento do perigo público que algumas maternidades espalhadas pelo território nacional apresentam, onde o seu funcionamento não se afigura como o mais aconselhável.
Perante isto, a medida mais consensual e adequada a adoptar seria a de serem tomadas medidas capazes de dotar estes espaços com as condições necessárias e ideais para o exercício das funções que lhes estão determinadas.
Mas, Portugal tem no seio do seu governo, um ministro da saúde que pensa precisamente o inverso. Pensa ele que, se uma maternidade não oferece condições de segurança aos seus utentes, a solução imediata é o seu encerramento! Brilhante esta ideia!
Fazendo uso dos mesmos argumentos daquele “iluminado” governante, sou livre de pensar que, se determinado ministério não responde às exigências que lhe são pedidas, encerra-se esse mesmo ministério!
Não, senhor ministro! É precisamente o inverso. Se as maternidades não oferecem condições, criem-se essas mesmas condições! O que está em causa e é importante não é o lucro que estes espaços geram. O que é realmente fundamental é a adequada resposta às necessidades actuais! Há serviços que existem, não para serem lucrativos, antes sim para prestarem serviços gratuitos à comunidade.
O caricato que toda esta situação despoletou aconteceu em pleno Alentejo, com a maternidade de Elvas. O governante em causa, acabou mesmo por celebrar um protocolo com uma instituição espanhola, situada em Badajoz, para que aqui fossem feitos os partos que até aqui eram realizados na cidade raiana portuguesa.
Que diabo! Então eu não sou português e aqui pago os meus impostos, dirão os elvenses? Se estas pessoas cumprem com o dever a que as exigências de cidadania os obrigam, porque não têm então direito ao usufruto dessa mesma cidadania? Porque têm assim que se deslocar ao estrangeiro para aí terem os seus filhos?
Já alguém terá imaginado o autarca de Elvas celebrar um protocolo com o governo espanhol cedendo-lhe terrenos da autarquia a troco de algumas benesses de vária ordem, provenientes de um qualquer ministério espanhol?
É certo que vivemos num espaço global e, em muitos casos, supranacional. No entanto, que eu saiba, as fronteiras político-administrativas continuam a existir e devemos respeitá-las. E uma forma de as respeitar é tratar a todos com a equidade exigida nestas circunstâncias.
Se optarmos pela premissa da proximidade e da rentabilização dos meios, como o senhor ministro pretende, qualquer dia, Portugal apenas tem escolas, linhas-férreas, hospitais e outros organismos de interesse público junto ao litoral. Porque no interior a existência destas instituições não gera lucro, dada a escassez populacional. Talvez, com a instalação das futuras centrais nucleares nesses locais, como muita gente pretende, se possam “exterminar” de vez os poucos “teimosos” que por lá se “vão da lei e da morte libertando”!
Se o senhor ministro pretende encerrar todos os organismos que dêem prejuízo ao erário público, bem poderia começar pelo afastamento dos assessores que o acompanham e pelo consequente encerramento do seu ministério. Além de dar o exemplo, sempre evitava males maiores!...

terça-feira, maio 09, 2006

"O ovo de Colombo"!...

A desertificação sentida em muitas regiões do interior de Portugal é uma realidade. Foram vários os factores que aceleraram e evidenciaram este fenómeno, nomeadamente, a emigração sentida na segunda metade do século XX, quer em direcção a África (antigas colónias), quer mais tarde, em direcção ao centro da Europa, rica, desenvolvida e próspera.
Esta desertificação traz isolamentos, que acarretam muitas vezes prejuízos incalculáveis. A reprodução populacional é nula; a taxa de natalidade é reduzida, o que provoca ao mesmo tempo o fenómeno de envelhecimento das populações que aí habitam.
Este é um mal que assola o interior do território nacional, de norte a sul. De Miranda do Douro a Alcoutim, a franja populacional dominante é a dos idosos. Para tentar combater este fenómeno, as autarquias e os autarcas desempenham aqui um papel muito importante.
Mértola, situada nas “profundezas” do Alentejo é um desses exemplos. Para além da autarquia ser um dos maiores empregadores do concelho, tenta, desta forma, criar condições para que as pessoas não se afastem dos seus “habitats naturais”, dinamizando o município com iniciativas como a promoção do turismo e da cultura.
Em outra latitude nacional, há dias, a autarca de Vila de Rei, numa tentativa de repovoar o seu concelho, usou de uma medida completamente insólita e inédita: através de um protocolo estabelecido entre a sua autarquia e a da cidade brasileira de Maringá, a edil vilaregense, com a oferta de alguns incentivos criados, conseguiu trazer algumas dezenas de cidadãos brasileiros, numa tentativa de dinamizar o seu concelho, oferecendo-lhes, entre outras coisas, habitação, contrato de trabalho e o acesso a bens e serviços como outro qualquer cidadão nacional. Obviamente que esta permanência obedece a um conjunto de condições e regras!
Quem tem a experiência de viver no interior nota bem o seu esquecimento e sabe das dificuldades que existem para aí fixar as populações. Para combater este flagelo, muitos autarcas socorrem-se de autênticos milagres, embora os resultados nem sempre surjam no imediato, como o pretendido!
Nas entrelinhas, senti nesta medida da autarca de Vila de Rei uma grande repulsa por parte de algumas mentes talvez menos preparadas para aceitarem a ideia de que vivemos hoje num mundo plural e global. No entender de alguns, a autarca vilaregense não tinha a necessidade de recrutar pessoas no estrangeiro para o repovoamento do seu concelho.
Pelas condições oferecidas, não faltariam em Portugal famílias interessadas em se fixarem lá, dizem os contestatários! Isto faz-me lembrar aquela história do “ovo de Colombo”, em que ninguém o mantinha de pé e, quando o navegante habilmente o colocou sobre o prato, todos diziam que qualquer um o teria conseguido!
Esquecem-se os críticos que Vila de Rei tem três parques industriais, totalmente equipados com as infra-estruturas necessárias e que a Câmara vende esses mesmos terrenos a um cêntimo o metro quadrado! E sabem quantos industriais a edilidade conseguiu lá fixar? Talvez tantos quantas as famílias de portugueses lá se fixaram, antes do despoletar desta situação!
Por vezes não é só criticar. Devemos saber sim, porque e como criticamos! Não faltarão certamente quem queira usufruir das condições oferecidas. No entanto, para que tal aconteça é preciso ir para lá e lá fazer a sua vida. Não basta apenas a intenção! De intenções está o mundo cheio!

quinta-feira, maio 04, 2006

O "Abramovich lusitano"

Há dias, quando me preparava para descansar em mais uma recatada noite de sono, liguei a rádio e detive-me, por momentos, com as primeiras notícias do dia, ouvindo o bloco informativo da meia-noite. A primeira notícia que constava do seu alinhamento dizia respeito à energia nuclear e à possibilidade da sua exploração no nosso país.
Nesta notícia, tornou-se notório o posicionamento de um conjunto muito restrito de vozes, encabeçado pelo magnata da indústria petrolífera portuguesa, Patrick Monteiro de Barros, manifestando-se favoravelmente à construção e instalação no nosso país de centrais nucleares, como forma de responder às crescentes exigências energéticas em que a sociedade contemporânea portuguesa se sente cada vez mais carenciada.
Para este tipo de “negócio da China”, torna-se muito fácil aos seus promotores acenar com as vantagens do costume para esta perigosa indústria. À cabeça vem logo a bandeira dos postos de trabalho que se vão gerar.
Por outro lado, para legitimar tudo aquilo que estes magnatas anseiam, são pomposamente criadas as tão célebres “comissões científicas”, que nunca se sabe muito bem de onde vêm nem para onde vão. O vento encarrega-se de lhes dar um rumo, bem ao jeito da “navegação à bolina” usada há muito pelos navegadores portugueses.
Para calar as populações envolvidas, as “armas” costumam ser quase sempre as mesmas: este tipo de indústrias é seguro; não causa quaisquer danos ao Homem; é um tipo de indústria amiga do ambiente, enfim, este tipo de “tretas” há muito gastas mas que, ciclicamente são revitalizadas.
Se é assim tudo tão bom senhor Patrick, instale lá essa maravilhosa indústria no interior da sua mansão ou na periferia da sua quinta! Assim, sempre poupava alguns cobres em deslocações e não aterrorizava a vida às pessoas que nada têm a ver com a sua megalomania!
Não deixou de me causar perplexidade, ouvir da boca do dito investidor, que veria com bons olhos a instalação de centrais nucleares no nosso país e, sem pestanejar, este (ir)responsável apontou logo o interior norte do país como o local ideal para tamanho “empreendimento”.
Se o interior norte português é constantemente esquecido e abandonado; sem médicos especialistas; onde não querem que haja escolas primárias; as linhas-férreas parece que por mais que se prolonguem nunca se vão encontrar, porquê então esta ideia?
Se para a instalação de grandes industrias é necessário um forte incremento de redes viárias, onde é que elas estão afinal? As estradas não chegam e se chegam é a conta gotas e já não respondem às actuais solicitações. Como pode a tutela dar ouvidos à colocação de verdadeiros baris de pólvora à porta destas pessoas indefesas e há muito atiradas ao ostracismo?
Onde estava este “Abramovich lusitano”, quando há cerca de vinte anos despoletou em Chernobyl, aquela gigantesca catástrofe nuclear, em pleno coração da indústria ucraniana e que tantas vidas ceifou? Será que daí retirou algumas ilações?
Terá ele assistido a uma reportagem passada pela estação de televisão SIC sobre as consequências da catástrofe nuclear ucraniana? Com certeza que não! Apetece-me então dizer, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!... Nem o que dizem!...

terça-feira, maio 02, 2006

"O que é nacional (ainda) é bom"?

Quem vive em Portugal habitualmente, e costuma fazer as suas compras diárias nos inúmeros supermercados espalhados pelo país, sabe das dificuldades com que cada um se defronta, para adquirir determinados produtos, sobretudo aqueles que nos são mais apetecidos ou então, aqueles a que habitualmente apelidamos de bens de primeira necessidade.
As pessoas melhor informadas sabem que, dependendo do tipo ou do carácter do produto a adquirir, o Estado aplica em cada um deles uma determinada taxa sobre o seu valor, taxa vulgarmente conhecida por Imposto sobre o Valor Acrescentado - IVA. Com uma infinidade de produtos tão grande e diversa e com a necessidade de os taxar, a tutela definiu alguns critérios para essa tributação.
Assim, os chamados bens de primeira necessidade, como forma de os tornar disponíveis à generalidade da população, o Estado aplica-lhes 5% de IVA, de maneira a torná-los acessíveis às carteiras mais carenciadas e vazias. Outros produtos há, cuja taxa é de 12% e, finalmente, os bens supérfluos ou que não se encontram posicionados nas primeiras necessidades, são taxados a 21% de IVA. Tudo isto é apresentado assim de uma forma muito simplificada. Na prática, a linearidade nestas aplicações não é assim tão vertical.
Vejamos: a Coca-Cola que se vem provando e comprovando que é uma bebida composta por um conjunto de produtos de elevado teor calórico e muito amiga da obesidade junto dos seus consumidores, é taxada a 5%, posicionando-se em paralelo com os bens de primeira necessidade.
Não se trata de uma qualquer aversão primária a esta bebida tão popular na terra do “tio Sam”, antes sim, por questões de coerência. Se esta bebida goza de uma taxa tão suave, porque será que os vinhos produzidos em Portugal, muitos deles, de superior qualidade e reconhecidos mundialmente, não gozam do mesmo estatuto? Sempre podíamos, com uma medida proteccionista, defender a “nossa dama” em vez de olharmos simpaticamente para a do outro!
Não quero com isto dizer que devemos taxar o vinho que produzimos como se se tratasse de um bem de primeira necessidade, nada disso! Entendo sim que, se o tal “famoso néctar” americano goza dessa prerrogativa, porque não lhe igualar alguns dos nossos próprios produtos?
Muitas vezes me vem à memória aquele “spot publicitário”, encomendado pela Associação Portuguesa de Produtores de Cortiça, em que, um dos maiores ícones portugueses da actualidade – José Mourinho, dava inteligentemente a sua cara, na promoção da cortiça e das rolhas nacionais. Por paradoxal que nos pareça, dias depois, um grande produtor de vinhos do Douro chamou a Comunicação Social e a todos disse que, a partir de então, passaria a utilizar rolhas de plástico em substituição das de cortiça, argumentando que, aquele material respondia mais eficazmente às suas necessidades. Que mente tão brilhante!
Pelo que atrás se viu, quer na aplicação das taxas, quer no exemplo dado com as rolhas de cortiça, será que agora o que é nacional já não é útil e bom? Sem ostentar quaisquer sentimentos chauvinistas, gostaria que os referidos produtos fossem olhados e taxados de forma igual, não por questões de nacionalismos mas sim por imperiosas questões de justiça e equidade.