segunda-feira, outubro 31, 2005

"Conversas da treta"

Dizia há dias o candidato presidencial Mário Soares que “comigo em Belém, os portugueses podem dormir tranquilos”!
Pois é. Uma boa forma de gratidão que esses mesmos portugueses poderiam ter para com ele era oferecerem-lhe o seu voto, permitindo ao candidato Mário Soares a ascensão à tão desejada cadeira presidencial, onde poderia, finalmente, dormir as suas tão desejadas sestinhas, bem refastelado e descansadinho durante os próximos cinco anos. Afinal, como em muitas outras sociedades, a uma dádiva retribui-se com uma contra dádiva!
Acabavam-se assim as conferências de imprensa enfadonhas entre o meio-dia e as cinco da tarde; a agenda do Presidente passava a ser mais selectiva, com aparições públicas apenas quando este as desejasse e não quando o seu “ofício” assim o impusesse. As horas de ponta teriam de se adequar à nova realidade: as filas de trânsito desapareciam, deixava de se ouvir falar nos congestionamentos do IC19, da Calçada de Carriche ou da Ponte 25 de Abril e, com toda a certeza que a adesão popular seria maciça. Isto seria o ponto de partida da tal “coesão nacional” de que tanto se vem falando!
As outrora “presidências abertas” dariam agora lugar às inovadoras “presidências fechadas”, onde em vez de Sua Excelência ir ao encontro das várias populações, como no passado, seriam agora as populações a deslocarem-se ao leito do Senhor Presidente, não fosse ele perder aquele maravilhoso momento, ou quem sabe, cair da tal cadeira!
E, já agora, um “dois em um”, juntando um homem do passado com um programa igualmente do passado – as “conversas em família”. Porque não as dinamizar e renovar, visto estarmos na presença de um conversador nato! Que coesão nacional seria assim conseguida!
Em vez de políticas justas, de ideias necessárias, de decisões acertadas, teríamos agora o povo enfartado de “conversas da treta”. O que vale é que, conversas leva-as o vento!... E ainda bem!

A "trilogia presidenciável"

Em pleno ambiente de pré-campanha eleitoral para as presidenciais, ouve-se frequentemente dizer, pela boca de alguns políticos que, para ocupar a cadeira presidencial é necessário possuir, entre outras coisas, experiência, ter sido combatente anti-fascista e, já agora, como convém a alguns, ter sido antigo combatente em África. A trilogia perfeita! Ora que ideias mais pacóvias e presunçosas!
As pessoas que proferem semelhantes palavras não querem saber, com certeza, o que tudo isto significa. Vejamos: que experiência presidencial possuíam Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio aquando da sua escolha para o mais alto cargo da Nação em 1976, 1986 e 1996 respectivamente?
Por outro lado, pelo que se encontra escrito na Constituição Portuguesa, qualquer cidadão português, com mais de 35 anos e que consiga reunir pelo menos sete mil e quinhentas assinaturas, poderá ser candidato presidencial. Se assim é, porque é que tem de ser um anti-fascista? Pelo que me parece, há muita gente a confundir anti-fascismo com alguns bons momentos vividos em alguns países do centro da Europa, inseridos num ambiente de “bon vivant” onde o protagonismo, a ânsia e o desejo do poder eram, na altura, já bem evidenciados.
Depois, é a quase obrigatoriedade de se ter participado na guerra colonial em África. Eu já vi tanta gente a enaltecer a deserção e a fuga de alguns portugueses a essa mesma guerra; inclusive a maltratar a bandeira portuguesa em pleno centro de Paris e esses… bem, esses é que foram considerados os verdadeiros heróis, imagine-se! Afinal, em que ficamos?
A alguma distância devo concluir que, qualquer dia alguém se irá lembrar, conforme a sua conveniência que, para ser um bom candidato presidencial devia ter participado, conjuntamente com Vasco da Gama, na expedição à Índia, ou ter participado, em comunhão com Richelieu, nas conspirações para levar por diante os ideais da Revolução Francesa ou, quem sabe mais recentemente, ter sido um dos combatentes no desembarque da Normandia, a fim de libertar os Países Aliados da opressão Nazi.
A ser assim e com pensamentos destes, daqui por uns trinta anos, arriscamo-nos a não ter candidatos presidenciais. Isto, porque nenhum terá experiência; nenhum terá sido anti-fascista e, embora a esperança média de vida esteja a ser cada vez mais elevada, nenhum terá participado na guerra colonial! Que chatice! E depois?

quinta-feira, outubro 27, 2005

Os "políticos animais"

Ontem, ouvi num discurso um candidato presidencial a fazer um apelo aos jovens, aos licenciados desempregados, aos desprotegidos, apelando para que estes olhem o futuro com confiança a seu lado, piscando-lhes o olho para uma adesão. Há uns tempos, este “recandidato político” (pois já esteve no poder), afirmou, alto e bom som que, “basta de política activa. Política activa nunca mais”! Ontem, no seu discurso lá desabafou e foi dizendo que “isto não é demagogia nenhuma!”, referindo-se aos destinatários do seu repto.
Pois é, até parece aquele futebolista que, após dar uma valente “cacetada” no adversário prostrando-o por terra, levanta as mãos para o árbitro dizendo nada ter feito! Com quem alguns políticos se comparam! Em que porto atracámos!
Às vezes não chega termos Nobre no próprio nome. A nobreza vê-se pela forma como estamos e encaramos a vida e, sobretudo, como respeitamos a fraqueza, a honestidade, a sinceridade e os valores dos outros.
Quando assim não agem, os tais “animais políticos” não passam de simples “políticos animais”.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Praxe aos praxantes!

Em determinadas etapas da nossa vida, é comum, quando acabamos de chegar a um determinado lugar (profissional ou outro), passarmos por aquele ritual da praxe, cujo objectivo, é o da melhor inserção e introdução no meio onde acabamos de chegar.
Estes rituais são visíveis nos mais variados quadrantes, desde a entrada nos primeiros estudos, nas universidades, na tropa, nos mais variados locais de trabalho, enfim, num número incontável de situações e de casos.
Fiz a tropa em Santa Margarida e ainda hoje recordo com um sorriso nos lábios alguns momentos de praxe aí vividos. Como se tratava de um Campo Militar, onde os carros blindados faziam parte do nosso dia a dia, lembro-me, quando aí cheguei, de me terem levado dentro de um desses carros, completamente fechado, para um lugar bem longe do quartel. Pararam a marcha num descampado, deram-me um pedaço do rodado da viatura (vulgarmente conhecido por lagarta), dizendo-me que era uma bússola e que esta iria servir-me de orientação no meu regresso ao quartel.
Embora na altura tivesse ficado algo atrapalhado, pois nada conhecia do terreno, hoje, à distância, vejo aí um bom momento de praxe, sobretudo se atendermos ao enquadramento no mundo para onde eu acabava de entrar.
Como me lembro, quando a noite já ia “alta” de, frequentemente, ser posto a marchar na “parada”, vestindo como indumentária uma t’shirt, calções e as botas altas da tropa (imagine-se!), utilizando ao ombro a escova de dentes, em vez da célebre arma (G3)!
Dois momentos bem exemplificativos do quotidiano militar.
Como, por imperativos profissionais me encontro inserido num ambiente académico, há algumas semanas que me venho deparando com as ocorrências inerentes à praxe aqui vivida.
Por norma, como estamos inseridos num espaço onde se buscam o conhecimento, a sabedoria, a capacidade de melhor pensar e agir, a praxe académica deveria transbordar de criatividade, de elevação, de educação e, sobretudo, de uma aceitação dos valores de cada um. Ora, tudo isto, pelos vistos, anda completamente arredado neste “maravilhoso mundo” da academia. As “mais belas” letras das músicas do Quim Barreiros e os “slogans” das claques do futebol são quem mais ordena e repetidos vezes sem conta; o barulho ensurdecedor, a asneira e o palavrão são incutidos à força nas mentes dos caloiros. Que grande inserção! Quão ilustres são estes praxantes! E tem tudo a ver com a academia!
Não será fácil pois que, a reprodução em dose dupla ou tripla sejam o resultado futuro, ou seja, as gargantas que hoje se encontram caladas e envergonhadas, anseiem avidamente pela inversão dos papéis, desejando ardentemente, no futuro, pelo seu momento de glória. Que assim seja. Afinal, se a semente já não é boa, algum dia poderá dar bom fruto? Onde é que eu já vi isto!

sexta-feira, outubro 21, 2005

Eu pago, tu pagas, ele não paga!...

Ultimamente, tenho ouvido por aí uns “fazedores de opinião”, com algumas responsabilidades, a lançarem um conjunto de atoardas e de críticas, dirigidas à generalidade dos funcionários públicos, acusando-os de serem uns malandros, uns despesistas e os grandes responsáveis pelo elevado “deficit” que grassa no nosso país. Ora, ideias mais levianas, despropositadas e denotando uma elevada irresponsabilidade não podiam ser mais evidentes.
Primeiro, gostaria de deixar bem vincado que numa extensa seara, há que saber distinguir muito bem por que cereais ela é composta e, posteriormente, saber separar cada um deles, das ervas daninhas, que é como quem diz, separar o trigo do joio e não enveredar, como vem sendo prática comum, por uma generalização saloia e primária relativamente a esses funcionários.
Obviamente que, como em tudo na vida, haverá os bons, os menos bons e os maus, é certo! Mas, convém não esquecer que, muitos destes funcionários, no exercício da sua actividade diária, a ela dedicam todo o seu empenho e toda a sua capacidade. Dir-me-ão que são pagos para isso, obviamente! Mas também é certo que se deve reconhecer a perigosidade destas generalizações e da sua banalização.
Quantos destes “opinadores”, à semelhança dos funcionários públicos, pagarão mensalmente a totalidade, eu repito, a totalidade dos seus impostos, muito antes de o mês em curso ter terminado? Será que muitas dessas pessoas se manterão de “cara lavada” perante o fisco, gozando de um estatuto de não devedores? Será que, ganhando o vencimento que a generalidade dos funcionários públicos ganha seria possível passearem-se em carros topo de gama, construir grandes mansões e possuírem chorudas contas em alguns “paraísos fiscais”?
Pois é, utilizando uma linguagem de cariz marxista, a mim, na qualidade de funcionário público, o Estado paga-me um vencimento que representa a “compra” do meu esforço diário, esforço esse em que dedico todo o meu profissionalismo e todo o meu “savoir faire” adquirido para as tarefas que me são pedidas e confiadas.
Acho que se enveredou por uma crítica cega em vez de relevarem o que efectivamente está mal. Se para uma qualquer transacção fosse obrigatório a obtenção de uma factura que, por sua vez, seria dedutível no IRS, tal como acontece com a generalidade dos produtos farmacêuticos, certamente que os prevaricadores, os tais que não pagam impostos teriam de arrepiar caminho exercendo finalmente, aquele nobre dever de cidadania – o da não fuga ao fisco! Nesse dia, todos nós opinávamos!

quinta-feira, outubro 20, 2005

O "Livro da minha vida"

É comum, entre dois dedos de conversa com amigos, por vezes questionarmo-nos sobre qual terá sido o livro mais marcante das nossas vidas? Eu, por mim, confesso-me confuso quando convidado para tamanha reflexão.
Entre o “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” e os “Esteiros”; entre a “Utopia” e o “Príncipe”; entre o “Amor em tempos de cólera” e a “Insustentável leveza do ser”; entre “Sidartha” e “Capitães da areia”; entre “Barranco de cegos” e “Por quem os sinos dobram”, o meu coração vacila e palpita.
A leitura de um livro é um momento e, cada um acaba por expressar um estado de espírito em situações diferentes da nossa vida. Por isso, todos eles terão ocupado o seu espaço e importância próprios, sem retirar a qualquer um deles a beleza e o encanto que cada um em particular transmitiu.
Todavia, há um que foi o pilar e o grande responsável por estas e por outras leituras. Refiro-me ao “Livro da Primeira Classe”. Foi este o meu primeiro livro e, igualmente, o livro da minha vida.
Fiz os meus estudos primários ainda sob a governação de um regime político fascista, onde os manuais escolares passavam de mão em mão sem haver a necessidade de proceder a grandes alterações, quer nos livros, quer na pedagogia de ensino utilizada.
Ora, foi graças a este “emblemático” livro que eu aprendi, entre outras letras o “i” de Igreja; o “d” de Deus; o “p” de Pai e de Pátria; o “m” de Mãe; o “t” de Trabalho, enfim, muitas outras coisas que ajudaram no enriquecimento lexical e na formação do meu pensamento.
É certo que o livro, visto à distância, não passava de um importante veículo de propaganda dos valores defendidos pelo “Estado Novo”, onde a célebre trilogia salazarista – Deus, Pátria e Família eram por demais evidentes.
Mas, foi este livro que “formatou” as ideias de muitas crianças que, tal como eu, procurávamos dar os primeiros passos num mundo onde a ruralidade, tão querida do regime político, imperava.
Era evidente neste livro três grandes objectivos: ler, escrever e contar, bem ao jeito da “Cartilha maternal” de João de Deus. Como este “empreendimento”, para um principiante como eu, se me afigurava tão complicado e de tão difícil acesso!
Com todas as vicissitudes; com todas as artimanhas do regime político nele veiculadas; com toda a pedagogia alicerçada num conjunto de ícones orquestrados sempre na mesma direcção – a da satisfação de objectivos políticos - este livro foi, sem quaisquer sombra de dúvidas, o livro da minha vida, possibilitando até, um dia, quem sabe, colocar mesmo a minha vida em livro!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A "gripe das aves"

Em qualquer país do mundo, sobretudo nos países considerados mais desenvolvidos, quando surgem indícios de epidemias ou de outras quaisquer doenças, costumam fazer-se inicialmente diversos rastreios e adoptar algumas normas de prevenção no combate a esses mesmos vírus, para além das vacinas que usualmente são ministradas.
Há uns dias a esta parte que a generalidade da Comunicação Social vem chamando à atenção para o alastrar da chamada “gripe das aves” e, a meu ver, quer as entidades governativas, quer mesmo as entidades responsáveis pela saúde e pela prevenção, nada dizem sobre as medidas a tomar pela generalidade da população, face ao aproximar desta iminente catástrofe.
Limitam-se a dizer que, as vacinas mais eficazes para o seu combate estão esgotadas; ou que a sua produção é escassa ou ainda, que não existe uma vacina capaz de dar uma resposta satisfatória no combate efectivo desta epidemia.
Como há já alguns dias que este tema tem sido tão aflorado, acho que estava já na altura das entidades com responsabilidades pelas áreas da prevenção e da saúde, virem a público fornecer algumas pistas sobre as medidas que acham essenciais a serem tomadas pelas populações.
Sem alarmismos, seria bom traçar um plano, com medidas e prevenções a tomar. Se já conseguem perspectivar um número previsto de mortos, como não serão capazes de, igualmente, elucidarem as pessoas sobre os cuidados a ter com tamanho alastramento??

terça-feira, outubro 18, 2005

Um dia diferente!...

Mesmo que hoje não seja o dia em que o rei faz anos; mesmo que não haja arraial nem foguetes no ar; mesmo que o vinho corra à farta e a fanfarra não pare de tocar, hoje é um dia muito especial para mim. É o dia do meu aniversário!
Lá estarão algumas pessoas amigas a pensar: “lá vem ele agora pedir uma prenda”! Não, descansem! Não vou pedir qualquer prenda. A melhor prenda que poderei ter é continuar a poder contar com a amizade dos meus amigos; o seu carinho, a sua compreensão, a sua ajuda e a sua fiel presença, sempre que desejada.
Mas…, pensando bem, até queria ter uma prendinha sim! Queria que o meu pequeno grande mundo de amizades, composto pelo Joao Paulo, a Claudia, o Magalhães, o Carlos Daniel, o Alcides, a Lúcia, a Ângela, a Maria João, o João Isaac, o Francisco, o Arnaldo, a Alexandra, o Carlos Alberto, o Fernando, a Carla, o Leonel, a Helena, o Luís, a Paula, a Sandra, a Márcia, a Ironi, a Lurdes, a minha família, entre algumas outras pessoas que porventura não me recordo, estivessem ao meu lado a confraternizar neste dia. Não importa aqui o posicionamento ou a ordem que ocupam na minha lista. Compete a cada um escolher e colocarem-se no lugar onde se sintam bem.
Pois é, eu sei o quanto é impossível a presença física de cada um. Isto porque, uns já não estão presentes, infelizmente (o meu pai, a minha irmã, a Carla); outros estão longe, outros não podem… mas outros estarão, com certeza; nem que seja em pensamento, ou mesmo fazendo parte do meu imaginário! Aqui deixo um abraço e um beijinho a todos/as!

segunda-feira, outubro 17, 2005

São lenços Senhor, são lenços!...

Fantástico e sem contestação! Esta é a adjectivação que me ocorre para descrever o maravilhoso jogo de futebol, disputado no Estádio do Dragão no passado sábado, entre o Porto e o Benfica. Não só pelo jogo, foi também pelo resultado que o Benfica obteve, sobretudo, porque há muito não conseguia aí um resultado vitorioso.
Como foi bonita aquela exibição; como foi lindo ver aquelas escassas “manchas” vermelhas a darem um “look” diferente ao espectáculo através do seu apoio!
Preferia aqui falar apenas desta exibição maravilhosa mas, infelizmente, outras incidências merecem igualmente destaque. Mais uma vez, em pleno século XXI, alguém denota não saber perder no momento de felicitar o adversário. Eu sei que não são todos uns “santinhos” mas aquela história dos petardos no hotel, a ameaça de bomba, o lançamento de cal hidráulica!... Imagine-se, lançar cal hidráulica para uma casa, filial do Benfica, só porque os adeptos deste clube se encontravam a festejar uma vitória!
A avaliar por tudo isto, qualquer dia, quando me encontrar a festejar o meu aniversário ou qualquer outro acontecimento relevante em minha casa, terei de pensar duas vezes, não vão os meus vizinhos, com dor de cotovelo dos meus festejos, provocar algum rebentamento no interior do meu apartamento! Afinal, em que país vivemos?
Sempre ouvi dizer que, para bem falarmos, bem devemos saber ouvir. Agora apetece-me dizer que, para bem podermos ganhar, importa, acima de tudo, bem saber perder e, pelo que vi, não me parece que tal tenha acontecido.
Mas, voltando à estrondosa vitória, quando vi o senhor Co Adrianse na conferência de imprensa a falar, lembrei-me daquilo que um antigo presidente encarnado disse há alguns anos. Dizia ele que, a “nação benfiquista” era composta por cerca de seis milhões de portugueses! Muito se conjecturou, muito se questionou e escreveu sobre a veracidade ou não destes números. Mas, a avaliar pelas palavras proferidas pelo técnico portista, dizendo que os lenços brancos eram de adeptos benfiquistas, então estes não serão apenas seis milhões de portugueses, serão certamente mais alguns milhares, a fazer fé na quantidade de lenços acenados no Dragão!
Olhe que eram lenços, senhor Adrianse... eram lenços… e para si!

sexta-feira, outubro 14, 2005

No Marão, multam os que lá vão!

Desde meados da década de oitenta que sou um utilizador assíduo do Itinerário Principal 4 (IP4), estrada que une as cidades de Amarante a Bragança.
Numa fase inicial da minha utilização, os percursos eram feitos através dos diversos transportes públicos oferecidos entre as cidades de Vila Real e a do Porto, cidade que adoptei para exercer a minha actividade profissional e, consequentemente, para viver.
À medida que os tempos foram avançando rumo a nova década, coisas houve que foram sofrendo algumas alterações: a construção faseada do IP4 foi-se concluindo, o automóvel particular passou a ser o meu meio de transporte utilizado e a minha cidade adoptiva passou a ser Braga, igualmente por imperativos profissionais. Como as coisas foram mudando!…
Com o avançar dos tempos, muitos automóveis se cruzaram nesta artéria, muitos quilómetros foram percorridos e, infelizmente, muitas pessoas aí perderam as suas vidas!
Já muito se falou sobre esse elevado número de mortos, já muito se escreveu também mas, pelo que continuo a ver, acho que continuamos sem nada fazer. Apenas meras modificações de cosmética que nada reflectem na inversão dos trágicos acontecimentos que atrás referi.
É um itinerário que conheço muito bem pelos laços que me unem a essa região (Vila Real). E é por este conhecimento que julgo ter que, quando ouço ou leio pessoas a dizerem que esta estrada é perigosa, eu discordo desta apreciação. É-o, em condições climatéricas adversas como quando há neve, nevoeiro, muita chuva, como acontece com outra qualquer via.
A meu ver, existem dois grandes causadores desses acidentes: por um lado, a impreparação e a irresponsabilidade de algumas pessoas que aí circulam, não respeitando os sinais de trânsito aí existentes, sobretudo linhas contínuas e sinais condicionadores de velocidade. Isto é gritante e é prática comum!
O outro causador tem a ver com a pedagogia utilizada pelas forças de segurança. Imaginavam estes responsáveis que, mudando alguma coisa no Código da Estrada, leia-se aumento das multas, o problema seria imediatamente resolvido! Que ideia franciscana esta! Deparo-me, muitas vezes, com patrulhas da Brigada de Trânsito, escondidas, a controlar a velocidade de cada um, com o objectivo único de, uns quilómetros mais à frente, saindo no seu encalço bem ao jeito daquela figura mítica do “Zé do Telhado”, extorquir o dinheiro correspondente à infracção cometida!
Ora a leitura lógica que daqui retiro é que, o objectivo primeiro é conseguir o dinheiro junto dos infractores. Não seria mais lógico e válido, nas zonas mais propícias a acidentes, instalarem sofisticados radares ou, caso optem por outra solução, colocar patrulhas a percorrer as tais zonas mais críticas, com alguma assiduidade e a uma velocidade constante, de forma a não haver exageros por parte dos infractores?
Pois é, só que, a ser assim, os cofres ficariam mais magros e os acidentes diminuiriam e, pelo que vejo, não será essa a solução ideal. Para alguns, claro!...

quinta-feira, outubro 13, 2005

O "autocarro" da lusofonia

Na passada semana assisti a uma conferência internacional intitulada “Comunicação e Lusofonia”, onde se debateram, nos diversos painéis existentes, a lusofonia e as políticas da língua e da identidade.
Neste encontro, para além das entidades organizadoras nacionais, havia também representações de diversos países como Angola, Brasil, Moçambique e Timor-Lorosae.
Ora, tal conferência não poderia ter sido mais oportuna. No dia seguinte, sábado, as selecções nacionais de futebol de Portugal e de Angola conseguiram, nos respectivos grupos, o acesso à fase final do Campeonato do Mundo de Futebol, a disputar em meados de 2006, na Alemanha. A selecção brasileira, uma “habituée” nestas lides, há muito que tinha conseguido o seu apuramento.
Pois é, como é bonito ver que, num certame realizado a nível mundial, quase 10% dos países participantes são parte integrante do tal “mundo lusófono”!
Mas voltando à minha conferência, como é tão contrastante algumas coisas que aí ouvi, relativamente à realidade sócio-cultural da tal “lusofonia” que nos une a alguns dos países aí representados!
Entre diversas intervenções, aquela que mais me chamou à atenção, foi a do representante de Moçambique, um alto responsável na área da Comunicação de uma conceituada universidade moçambicana. Dizia ele que, somente 10% dos moçambicanos falava o português! Eu repito, 10% num universo de cerca de 16 milhões de habitantes, pasme-se!
Depois de há já alguns anos, pomposamente, terem sido criadas a comunidade de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e, posteriormente, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), nomenclaturas tão sugestivas para a difusão, o ensino e a aprendizagem da essência da “lusofonia” – a língua de Camões – como é possível que nos dias que correm, apenas uma ínfima percentagem de moçambicanos a falem?
Obviamente, sem me questionar sobre os dados lançados e sobre a veracidade das palavras deste alto responsável africano, pergunto como isto é possível? Será que há um verdadeiro e efectivo empenho dos responsáveis locais? Será que não haverá uma sobreposição relativamente a outros interesses instalados?
É certo e sabido que Moçambique viveu um longo período de conturbação social, com guerras internas e com uma forte ingerência externa sobre as suas políticas. Todavia, o dever dos seus responsáveis políticos é o de dar argumentos às populações para inverterem esta situação e, a avaliar pelos números atrás mencionados, tal não terá sido feito!
Valendo-me desta analogia, afinal, a lusofonia é como um autocarro que apanhamos para um determinado destino. Cabe a cada “passageiro” sentar-se nele como muito bem desejar! É por tudo isto que, para mim, a lusofonia tem uma visibilidade maior se entendida não como um espaço sócio-cultural, antes sim, como um espaço geográfico que congrega no seu seio interesses vários e de oportunidade!

quarta-feira, outubro 12, 2005

Vá para fora, mas cá dentro!

Embora as férias deste ano façam já parte do passado e as do próximo sejam apenas uma miragem, hoje, enquanto passeava o meu olhar por algumas das fotos conseguidas no último Verão, decidi reflectir sobre os locais que normalmente escolhemos para visitar nessa época.
À semelhança de muitos portugueses, após um árduo e cansativo ano de trabalho, lá partimos nós para um merecido período de férias. Usualmente, o mês de Agosto é o escolhido pela maioria, embora pessoalmente, nem sempre pactue com esse “timing”.
O primeiro objectivo, por norma, é partir rumo a um lugar aprazível, onde possamos encontrar um pouco de tudo: praia, campo e alguma monumentalidade histórica à mistura, “comme il faut”! Pelo menos comigo é assim!
Então, todos os anos por aquela altura, a pergunta é quase sempre a mesma: para onde ir de férias, afinal?
Já por diversas vezes experimentei viajar para fora do país. Confesso ter ficado deslumbrado com algumas viagens e com a sensação do sabor a pouco em outras. Ora, pelas experiências obtidas nestas duas sensações nada poderei concluir. Se por um lado o deslumbramento me acompanhou a França (Paris) e ao Brasil (viagem simplesmente fantástica e encantadora!), por outro lado, as visitas efectuadas por diversas vezes aqui ao lado, aos “nuestros hermanos” (Sul de Espanha), não terão tido o mesmo sabor. Não sei explicar muito bem mas, acho que existe uma imensa carga subjectiva, relativamente à percepção com que ficamos dos locais que visitamos pela primeira vez.
Este ano resolvi fazer um pequeno périplo pelo meu país, à semelhança do que havia feito há já alguns anos e verifiquei que, quer a nível de monumentalidade, quer a nível de beleza paisagística, com certeza que nada ficamos a dever a lugares tão badalados e tão procurados por uma franja abastada da nossa sociedade.
Questiono-me acerca de quantos desses portugueses terão já visitado cidades ou lugares como Tomar, Constância, Óbidos, a maravilhosa serra da Arrábida e a península de Tróia?
Quantos desses portugueses já visitaram Évora e o seu majestoso património histórico; a renovada e sempre brilhante aldeia da Luz com a barragem do Alqueva calmamente deitada a seus pés? E aquela imensa e linda paisagem, olhada desde a asseada e florida vila de Monsaraz, digna de um verdadeiro mago do impressionismo?
Subindo pelo interior raiano, em direcção a Norte, quem terá tido já o privilégio de visitar a vila de Marvão com a sua fortificação imponente e o seu ziguezaguear de ruas estreitas?
Também as aldeias históricas de Monsanto e de Sortelha são lugares dignos de serem visitados. As construções graníticas das casas e a sua similitude tornam estes lugares em verdadeiros símbolos da ruralidade portuguesa.
Finalmente, a minha lista de sugestões termina na bonita cidade de Lamego, “deitada” aos pés do majestoso escadório barroco da Senhora dos Remédios. A monumental Sé e os seus claustros convidam a um passeio no tempo, entrando numa “viagem” ao longo da História que alimenta o nosso imaginário!
A pequenez geográfica do nosso país contrasta fortemente com a diversidade e a beleza das várias regiões escolhidas. De Norte a Sul de Este a Oeste, as escolhas são muitas e as ofertas equivalem-se.
Embora não tenha a necessidade de me socorrer de um qualquer discurso chauvinista, sempre que anualmente, a questão “para onde ir?” se coloca, obviamente que a resposta será: ir para fora sim, mas cá dentro, com todo o gosto!...

terça-feira, outubro 11, 2005

Bem-vinda tempestade "Vince"

Hoje é um dia memorável e especial para muitos portugueses.
À região Sul do país, há muito que não chegavam quaisquer sinais de pluviosidade, tão importante para a irrigação e cultivo dos campos, para a criação de gado, entre muitas outras coisas.
Quem, como eu, teve a possibilidade de viajar pelo “Alentejo profundo” no último Verão, foi possível ver “in loco” a tragédia com que se debatem diariamente muitos dos agricultores aí residentes. É desolador e contrastante olhar os campos ressequidos. As outrora cores garridas primaveris, há alguns anos que deram lugar aqueles imensos campos pálidos, onde o castanho se afigura como cor predominante!
Em determinadas regiões, os autóctones vivem quotidianamente autênticos momentos de desespero. Eles, os seus animais e toda a sua envolvente!
Talvez com a passagem da tempestade tropical “Vince”, o caminho para a normalidade no quotidiano destas pessoas seja aos poucos restabelecido. Para já, algumas consequências já se fizeram sentir, nomeadamente nos caudais de alguns rios e também nos níveis de algumas barragens aí existentes.
É caso para dizer que, “há males que vêm por bem” e, enquanto assim for, que assim seja! Afinal, os fins acabam quase sempre por justificar os meios!

segunda-feira, outubro 10, 2005

As infracções do "papá"

Foi com incredulidade e estupefacção que tive conhecimento das declarações proferidas pelo Dr. Mário Soares, em plena assembleia de voto, apelando à decisão popular a favor do seu filho!
O “pai da democracia e da liberdade” em Portugal, como gosta de se intitular, ou pelo menos, como gosta que o intitulem, acabou por violar a lei eleitoral que há muito vigora no país. Ora, que eu saiba, influentes ou não, até para os pais existem regras e, se assim for, o “papá” Soares incorreu, entre outras punições, numa pena de prisão até seis meses, segundo informações postas a circular!
Que mau exemplo o “papá” deu, mesmo com o intuito de ajudar o seu filho!
Com que imagem dos seus “papás” terão ficado os muitos filhos espalhados por esse país fora?
E se Soares, contrariamente ao que usualmente apregoa, não fosse republicano? Talvez o sufrágio fosse desnecessário. A “linhagem” encarregar-se-ia de escolher o sucessor.
Ainda bem que assim não é, e nem todos os “papás” agem da mesma forma! A elevação não se ganha nem se perde com a idade. Ela nasce connosco; simplesmente “uns têm, outros… não”!

Afinal havia outro!

Como muitos portugueses, também eu assisti, sem perder pitada, à noite eleitoral de ontem.
Deliciei-me ao ver o Major Valentim Loureiro, Presidente do Governo Regional da Madeira e o Dr. Alberto João Jardim, candidato independente à Câmara Municipal de Gondomar a cantarem vitória. Ai desculpem! Enganei-me!
Então não é que com aquele discurso fervoroso do senhor Major no Largo do Souto (Gondomar) eu pensei que era o Dr. Alberto João Jardim quem estava a discursar no Chão da Lagoa – Madeira? Muito parecidos na arrogância, no despotismo e na forma intimidatória com que se dirigem aos seus munícipes. Como se já não bastasse um Jardim para dizer umas tantas atoardas, junta-se agora mais um Valente(im) que nada teme. O país dos “brandos costumes” está a tornar-se num país de “grandes guerreiros”!
Fazendo uma leitura mais aprofundada dos vários resultados obtidos, verifico que o grande vencedor da noite foi o P.A. (Partido dos Arguidos), onde todos os candidatos foram eleitos, à excepção do candidato de Amarante. Obtiveram, no seu total, uma percentagem na ordem dos 75%!
Mas a noite eleitoral não trouxe só vitórias. No “concurso” para atribuição do título de “primeira-dama” em Lisboa, mesmo como candidata única, Bárbara Guimarães saiu derrotada, tendo feito a sua declaração de derrota amparada pelo marido, ambos com semblante carregado. Como foi curta a vida política desta bonita figura pública!

A "geração dourada"

No passado sábado, Portugal e os portugueses viveram um dos momentos mais marcantes na história do nosso futebol: a qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol a disputar na Alemanha em 2006.
Embora, previsivelmente, tenha sido uma noite de glória, com o estádio de Aveiro engalanado a preceito, a “selecção de todos nós” (mesmo com Scolari a ser o único a fazer as suas opções!) exibiu-se a um nível paupérrimo e de fraca beleza, face a um adversário com pergaminhos bem abaixo dos nossos. É que jogar com o Lichtenstein não será, com certeza, a mesma coisa que jogar com uma equipa de top europeu ou mesmo mundial, mas o que ficou para a história foi a qualificação e, assim, os objectivos foram conseguidos.
Resta agora evidenciar os grandes responsáveis por este feito.
Para quem como eu não estava habituado a estas presenças assíduas da nossa selecção em fases finais de europeus e mundiais, o momento pelo qual a selecção nacional passa é muito positivo e de enorme felicidade para os portugueses.
A meu ver, o grande obreiro destes feitos prende-se com o extraordinário trabalho desenvolvido na área da formação nas camadas jovens, efectuado na década de oitenta pelo Professor Carlos Queirós.
Foi ele que, com novos métodos de treino, de concepção e de jogo colectivo lançou na alta-roda mundial grandes valores, conseguindo desta forma, a nível de selecção, dois títulos mundiais de futebol. Foi obra!
Quem não se terá deliciado, nos grandes palcos espalhados por essa Europa fora com as defesas fantásticas do Vítor Baía, com os cortes providenciais do Fernando Couto, com as recuperações de bola de Paulo Sousa, com os dribles e passes milimétricos do Rui Costa ou com aquele perfume nas assistências de Luis Figo?
Pois é, tudo isto teve um trabalho sério e de profundidade e Carlos Queirós consegui-o.
A ele o meu “muito obrigado”!

quinta-feira, outubro 06, 2005

A "multiplicação dos pães"

Há dias, numa pequena tertúlia que mantive com um amigo, a propósito da campanha eleitoral em curso e da nossa classe política, ele me dizia que, esta (classe) não era senão o reflexo daquilo que a nossa sociedade consegue reproduzir.
Pois é, tomando como consistente a ideia do meu amigo e olhando aquela máxima que diz que o “meio condiciona o homem”, esta afirmação, “cai que nem uma luva”! Todavia, como na imensa diversidade do país os “meios” não são todos iguais, questiono-me como é que se pode entender que todos os homens (políticos) sejam então todos condicionados?
Como é do conhecimento público, Portugal vive um período de campanha eleitoral para as eleições autárquicas. Enquanto munícipe e pessoa interessada na aquisição de informação sobre os vários projectos que cada um dos candidatos tem em mente para o seu concelho, tenho assistido aos vários debates televisivos que se multiplicam diariamente pelos diversos canais televisivos.
Embora o tal “meio” que atrás mencionei, não seja igual em todos os casos, é confrangedor ver como todos os intervenientes se posicionam de forma muito parecida e sempre com os mesmos argumentos. Gastos. Demasiado gastos; talvez os seus discursos espelhem a inoportunidade e a falta de eficácia das suas ideias, que é como quem diz, das suas não ideias!
Acho que os vários munícipes espalhados pelo país mereciam ver e ouvir discursos mais profícuos, com maior sustentabilidade, mais eficazes e, acima de tudo, que fossem verdadeiros. A mentira e o “faz de conta” são quem mais ordena! A resolução dos problemas deveria ser o objectivo numero um e não se afigura que o seja.
Não se liga a meios para atingir os fins: de norte a sul, nos vários debates televisivos, as oposições, independentemente das cores políticas a que se associam, limitam-se a tudo criticar e a dizer mal, usando e abusando, em muitos casos da arruaça e da contra informação para o conseguir.
Por outro lado, os “donos” do poder, não se querendo ficar atrás, esgrimem ideias e conceitos; prometem o “mundo e a teia”, dizem que não tiveram tempo (como se quatro anos fossem quatro dias) para levar por diante determinada acção ou promessa anteriormente assumida; esforçam-se por mostrar obra feita mesmo que inacabada, recorrendo frequentemente à mentira e à omissão.
De norte a sul, do azul ao vermelho, do laranja ao rosa, do poder à oposição, o mote é o mesmo: a vulgaridade!
É, envoltos nesta teia, que o milagre da "multiplicação dos pães” há muito que terá chegado à política; mas é nos actos eleitorais que ele se torna mais evidente aos olhos dos portugueses! Os políticos, há muito que viraram as costas às populações. Por mim, apetece-me fazer-lhes o mesmo!

terça-feira, outubro 04, 2005

As políticas para o aborto e o aborto para os políticos

Em finais de Junho de 1998, os portugueses foram “convidados” a pronunciarem-se sobre a sua concordância ou não com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
As várias facções políticas cá da “nossa praça” esgrimiram argumentos e contra argumentos, opiniões e mais sugestões e, aquilo que muitas pessoas acharam por bem foi não “passar cartão” a essas autenticas “campânulas falantes” que mais não faziam do que expressar não a sua posição pró ou anti aborto mas sim a sua posição a favor ou contra a Igreja Católica. Eu, por mim, prefiro discutir aquilo que é essencial, que é a causa, do que a consequência da causa.
Foi desolador ver como os nossos políticos não tiveram a capacidade argumentativa e apelativa para chamar às urnas um número suficientemente elevado de participantes para aquele referendo!
Esta não adesão, não me leva a concluir que o assunto em si se constitua como de menor importância; penso é que, os políticos não foram suficientemente audazes e com a capacidade de, em seu redor, conseguirem mover e congregar um número elevado de participantes, que respondessem ao apelo lançado para a solução desta causa.
Ao ver alguns políticos revoltados, dizendo que em Portugal ainda vigoram leis conotadas com a época Medieval soa-me a um certo surrealismo. Eles deveriam era preocupar-se em saber porque é que cerca de 68% dos eleitores lhes viraram as costas, tendo como consequência uma taxa de abstenção inimaginável!
Como é que, sendo um assunto de tamanha importância para o país, como muitos políticos apregoavam, foi possível somente cerca de 32% da população votante interessar-se por esta matéria, respondendo com a sua opinião?
Pois é, esta nossa classe política não devia abortar as verdadeiras e nobres causas em detrimento da sua incapacidade e dos seus interesses. Que se criem então políticas e leis justas para o aborto e que se abortem mas é alguns políticos!

segunda-feira, outubro 03, 2005

Os "pretos e os brancos"

Longe vão os tempos onde, numa pequena aldeia, bem no interior transmontano, eu dava os primeiros passos nos meus estudos primários.
Estávamos então em inícios da década de 70, Portugal vivia sob a égide de um regime totalitário e passava por um dos momentos mais conturbados da sua história contemporânea. Vivia-se o auge de uma guerra colonial, marcante em muitas famílias portuguesas.
Na Escola Primária lá da terra, os jogos lúdicos que se faziam entre as crianças da minha idade que a frequentavam, reflectiam o momento político e social da época.
Como me lembro, repetidas vezes, do jogo “pretos e brancos”. De um lado, posicionavam-se os brancos, os bonzinhos, os educadores; do outro, os pretos, entendidos como os terroristas, os maus, onde as duas facções se guerreavam, com tiros e pistolas improvisadas. Como mandava a praxe e como tinha de ser, no final, os brancos eram sempre os vencedores!
Hoje, embora a geografia tenha mudado, os intervenientes e os interesses são quase os mesmos. Na quinta-feira passada morreu quase uma centena de pessoas em três atentados suicidas ocorridos em Bagdad e em outras duas cidades junto à capital iraquiana.
À noite, no Telejornal da televisão pública (RTP1) que vai para o ar às 20 horas, ao assunto que atrás mencionei apenas foi dado ênfase, pasme-se, às 20 horas e 37 minutos, reservando para o efeito, uma peça jornalística com uns míseros dois minutos.
No sábado, na ilha indonésia de Bali, três bombas explodiram causando a morte a 26 pessoas. Acontece que aqui, o mesmo canal e o mesmo programa chamam este acontecimento para tema de abertura, fazendo directos vários com o correspondente em Timor – António Veladas – seguido de peças jornalísticas e mais peças, reservando para o efeito cerca de quinze minutos.
O tempo passou e hoje, os pretos mudaram geograficamente de posição: “deslocaram-se” de África para o Crescente Fértil (Iraque), continuando a ser um “assunto” menos interessante e menos atractivo para as mentes que definem a importância da informação. Os brancos (turistas ocidentais), esses deslocam-se anualmente para pomposas e luxuosas estâncias turísticas como é o caso de Bali, à procura do seu bem-estar e do seu conforto.
Ontem como hoje, a dicotomia dos pretos e dos brancos continua. O regime político, em Portugal, esse há muito que mudou; a tal Escola Primária, embora continue muito arrumadinha, como sempre, há muito que mudou na sua pedagogia, entre outras coisas; a nossa guerra colonial há muito que terminou; todavia, alguns profissionais da informação, esses é que continuam a pensar como na distante era dos “pretos e dos brancos”.