quarta-feira, fevereiro 25, 2009

"A origem do mundo"!...

Esta pintura, conhecida por “A origem do mundo”, datada de finais do século XIX, da autoria do realista Gustave Courbet, encontra-se exposta no Museu D’Orsay, em Paris. É de visita livre, onde o único requisito para qualquer visitante a ela ter acesso é, apenas e só, possuir um bilhete de entrada, comprado anteriormente. A visita ao museu encontra-se totalmente acessível ao público em geral, de qualquer idade e dentro de um horário preestabelecido. Foi, na qualidade de visitante e sem quaisquer entraves, que consegui a fotografia do quadro exibido.
Paris, uma cidade cosmopolita que, graças aos seus museus e às exposições neles contidas, abre as suas portas às mais diversas manifestações artísticas, pouco se importando com a impressão ou falta dela, provocada em alguns sectores mais conservadores dos seus visitantes. Velhos e novos, ricos e pobres, ocidentais e orientais, muçulmanos e católicos, pretos e brancos, nenhum evidencia, nesta diversidade cultural, qualquer desagrado quando confrontado com aquele quadro. Afinal, embora de forma inconsciente, a todos ela é familiar!
Por estes dias, em Braga, cidade igualmente cosmopolita, embora à dimensão nacional, um livreiro decidiu abrir um pequeno certame, onde expunha e vendia livros a preços mais acessíveis. No meio das várias colecções exibidas, destacava-se um livro sobre pintura que, na sua contracapa, reproduzia de forma reduzida, “A origem do mundo” de Courbet.
Alguns pais, presumivelmente muito ofendidos e chocados com a imagem reproduzida no livro, alertaram as autoridades policiais, no sentido de interditarem a sua exibição. Dito e feito. Os agentes da autoridade, denotando uma desproporcionada falta de instrução, depressa confiscaram os livros, acusando o expositor de exibição pornográfica.
Para estes pais e agentes, bastava uma qualquer consulta à popular Wikipédia para se instruírem um pouco mais sobre o tema em questão. Para que servem afinal as "Novas Oportunidades"? Mas assim não foi. A “cultura da ignorância” demonstrada por pais e pelas autoridades ficou mais uma vez a ganhar, esquecendo-se estes, que fazem parte, há já muitos anos, de uma Europa culta e que se quer cada vez mais civilizada. Devia ser proibido ser ignorante, ou então, ainda mais intolerável, ignorar-se que se é!
Braga, uma cidade carregada de beleza, de arte e de uma massa intelectual de reconhecido valor, merecia ser distinguida por outros motivos. A sonoridade dos sinos pode muito bem ser a mesma de há séculos; todavia, a forma como os ouvimos pode ir evoluindo com os tempos e com as mentes mais equilibradas e sãs, bem ao jeito da Grécia Antiga.
Por coincidência ou não, na quadra carnavalesca, em Torres Vedras, censurou-se, com a mesma ligeireza da “Origem do mundo”, um carro alegórico sobre o computador “Magalhães”. Começam a ser tenebrosas e preocupantes estas situações cuja sequência já nos vai habituando! Afinal, Salazar e os seus modos, há muito que partiram. Todavia, os seus métodos, parece que aos poucos se vêm reafirmando, subtraindo cada vez mais, a nossa condição de cidadãos livres!...

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Bora lá, "façamos de conta"!...

Desde que comecei a escrever neste espaço, já lá vão quase quatro anos, sempre direccionei os meus objectivos, para além do apaixonante exercício da escrita, para a reflexão pessoal sobre actualidade, lugares, viagens e outros assuntos de relevância quotidiana. Por imperativo pessoal, nunca aqui coloquei cópias de textos que não fossem da minha autoria.
Dadas as circunstâncias especiais, a excelência da análise feita e a distinção do autor, hoje decidi, excepcionalmente, transcrever um artigo da autoria do magnífico jornalista da SIC, Mário Crespo, a propósito da forma de agir de alguns políticos, nos dias que correm. Mário Crespo, no seu melhor:
(1) "Está bem... façamos de conta"
“Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.
Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos”.
(1) Texto da autoria de Mário Crespo, retirado do “Caderno de Opinião” do Jornal de Notícias.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

“Nós por cá”!...

Ao longo do século XX, muitos foram os líderes políticos que, socorrendo-se de algumas artimanhas, tentaram projectar no seio da sociedade e junto da generalidade da opinião pública, uma imagem em nada condizente com a realidade então vivida nos seus países. Desenvolviam autênticos crivos que turvavam a verdade e impediam uma visão mais realista e despida de quaisquer desfoques.
À época, aproveitando a atractiva e fascinante arte, o cinema foi utilizado eficazmente por Adolf Hitler como um magnífico veículo de propaganda ideológica que lançou sobre as multidões. Promovida pela figura de Joseph Goebbels, uma super máquina de propaganda desponta, orquestrada em cenários fantasiados, incitando as populações na adesão às suas ideologias. Os mesmos passos foram seguidos por outros ditadores como Mussolini, Franco e Salazar. Todos eles sentiram o apogeu dos seus regimes, muito devido a esta poderosíssima máquina de manipulação de massas e de orquestrações fantasiosas.
Também na Coreia do Norte, Kim Il-Sung engendrou igualmente uma exacerbada campanha patriótica, lançando discursos inflamados contra povos por ele designados de invasores, silenciando a miséria, a pobreza e o medo reinante no interior do seu país.
Quem não se lembrará da figura deplorável exibida por aquele ex ministro iraquiano da Informação (Mohammed Al-Sahhaf), aquando do início da invasão americana do Iraque em que este, de sorriso aberto, afirmava que o Iraque iria destruir o inimigo, ao mesmo tempo que a generalidade da imprensa mundial nos dava conta, através de imagens, da destruição e do apertado cerco em redor de Bagdad?
Pois é, hoje, “nós por cá”, já não temos Salazar e muito menos um qualquer Al-Sahhaf, mas temos o ministro Santos Silva. Na gíria política, o papel reservado a este dirigente é denominado de “testa de ferro”, ou seja, aquele que tudo desmente; baralhando, confundindo e enganando quanto mais pode e sabe. Sobretudo as pessoas mais vulneráveis e com menos formação. A avaliar pelas suas tiradas, denota uma profunda debilidade mental a precisar de um tratamento urgente. No seu discurso, expressões como “poderes ocultos”, “decapitar o PS”, “pessoas crucificados na praça pública”, “tentativa de assassinato político”, “campanha negra” e “malhar na direita”, são frases profundamente indecorosas!
António Ferro, à luz da sua “política do espírito” no tempo do Estado Novo, não fantasiaria melhor! Pegando nas palavras deste “Goebbels à portuguesa”, apetece-me dizer: “malhem” no Santos Silva!