Paris, uma cidade cosmopolita que, graças aos seus museus e às exposições neles contidas, abre as suas portas às mais diversas manifestações artísticas, pouco se importando com a impressão ou falta dela, provocada em alguns sectores mais conservadores dos seus visitantes. Velhos e novos, ricos e pobres, ocidentais e orientais, muçulmanos e católicos, pretos e brancos, nenhum evidencia, nesta diversidade cultural, qualquer desagrado quando confrontado com aquele quadro. Afinal, embora de forma inconsciente, a todos ela é familiar!
Por estes dias, em Braga, cidade igualmente cosmopolita, embora à dimensão nacional, um livreiro decidiu abrir um pequeno certame, onde expunha e vendia livros a preços mais acessíveis. No meio das várias colecções exibidas, destacava-se um livro sobre pintura que, na sua contracapa, reproduzia de forma reduzida, “A origem do mundo” de Courbet.
Alguns pais, presumivelmente muito ofendidos e chocados com a imagem reproduzida no livro, alertaram as autoridades policiais, no sentido de interditarem a sua exibição. Dito e feito. Os agentes da autoridade, denotando uma desproporcionada falta de instrução, depressa confiscaram os livros, acusando o expositor de exibição pornográfica.
Para estes pais e agentes, bastava uma qualquer consulta à popular Wikipédia para se instruírem um pouco mais sobre o tema em questão. Para que servem afinal as "Novas Oportunidades"? Mas assim não foi. A “cultura da ignorância” demonstrada por pais e pelas autoridades ficou mais uma vez a ganhar, esquecendo-se estes, que fazem parte, há já muitos anos, de uma Europa culta e que se quer cada vez mais civilizada. Devia ser proibido ser ignorante, ou então, ainda mais intolerável, ignorar-se que se é!
Braga, uma cidade carregada de beleza, de arte e de uma massa intelectual de reconhecido valor, merecia ser distinguida por outros motivos. A sonoridade dos sinos pode muito bem ser a mesma de há séculos; todavia, a forma como os ouvimos pode ir evoluindo com os tempos e com as mentes mais equilibradas e sãs, bem ao jeito da Grécia Antiga.
Por coincidência ou não, na quadra carnavalesca, em Torres Vedras, censurou-se, com a mesma ligeireza da “Origem do mundo”, um carro alegórico sobre o computador “Magalhães”. Começam a ser tenebrosas e preocupantes estas situações cuja sequência já nos vai habituando! Afinal, Salazar e os seus modos, há muito que partiram. Todavia, os seus métodos, parece que aos poucos se vêm reafirmando, subtraindo cada vez mais, a nossa condição de cidadãos livres!...