quinta-feira, janeiro 25, 2007

"Nem tudo o que luz é ouro"!...

Portugal e os portugueses vão ser chamados brevemente, por meio da consulta popular, a legitimar ou não a interrupção voluntária da gravidez (IVG), a partir das dez semanas de gestação, quando realizada em instituições de saúde pública, legalmente autorizadas.
A este propósito e sem querer tomar partido por esta ou aquela corrente, aos meus olhos já muita coisa se inventou, muitas opiniões se fabricaram e muitos argumentos se forjaram. Põe-se abusivamente de parte aquilo que é verdadeiramente essencial discutir, politizando e ofuscando o assunto, valendo-se para tal, de um incisivo papel retórico e persuasivo que apenas serve os interesses de algumas facções.
De um lado é notório o desconforto de alguns quando inquiridos a emitir a sua opinião. Outra facção, não olha a meios para atingir os fins, usando práticas onde tudo vale e de tudo se servem para as fundamentar. Usualmente servem-se de posições levianas, alicerçadas nas velhinhas e esquerdistas “cassetes falantes”, alegando como sempre, serem os singulares donos da verdade.
Portugal, há uns anos a esta parte, é um país que apresenta uma taxa de natalidade baixa, em que a pirâmide de idades exibe um aspecto nada jovem. Este sintoma leva a que a taxa de potenciais votantes, relativamente à população total seja elevada. Ao mesmo tempo, constata-se que a percentagem feminina é superior à masculina. Aproveitando estes indicadores, é legítimo concluir-se que mais de 50% da população votante pertence ao sexo feminino.
Não deixa de ser caricato que no referendo anterior, realizado em 1998 menos de 50% dos votantes tenha exercido o seu direito de cidadania! E não deixa de causar alguma perplexidade, o desfecho previsto para a taxa de adesão à consulta popular, a ocorrer em Fevereiro próximo.
É que, à luz da Constituição Portuguesa, se o número da adesão às urnas for inferior a 50%, a consulta popular não terá validade. Então, porque será que, como dizem, um assunto tão importante para as mulheres portuguesas que as faz sofrer tanto, que tão marginalizadas são com julgamentos aos “magotes”; elas próprias demonstrarem tão pouco interesse e vontade para dar um novo rumo a este “colossal flagelo” feminino?
É que, “nem tudo o que luz é ouro” e, quando assim é, nem sempre quem mais barulho faz consegue dar mostras de ser o verdadeiro detentor da tal racionalidade cartesiana. É chegado o momento de afirmar: “penso, logo resisto”!...

terça-feira, janeiro 16, 2007

As "sete maravilhas" portuguesas!...

O fenómeno televisivo tem destas coisas. Para além da dependência que provoca junto das pessoas, ele consegue congregar em seu redor, interesses muito variados, quer em formato informativo, lúdico ou de mero entretenimento.
Foi, valendo-se da sua imensa capacidade de difusão e de penetração junto dos vários públicos, que o canal público de televisão estimulou um programa sobre um conjunto de grandes e notáveis figuras portuguesas da nossa história.
Embora este programa não passe de um mero momento de entretenimento, ele consegue adicionar junto do seu público algo que as pessoas desconheciam. No fundo, é como que um “dois em um” num misto de passatempo informativo e cultural.
Correndo lado a lado e com objectivos muito parecidos, um conjunto de “notáveis” figuras públicas, provenientes dos mais variados quadrantes da sociedade reuniu-se, no sentido de conseguir, através de critérios preestabelecidos, chegar aos sete monumentos maravilha de Portugal.
A lista inicial apresentou-se composta por cerca de oitocentos exemplares da nossa cultura. Deste numeroso grupo foram escolhidos pela tal Comissão, setenta e sete monumentos.
Posteriormente, este “Conselho de Notáveis”, composto por arquitectos, historiadores, políticos, actores, sociólogos, engenheiros, empresários, gestores, artistas, jornalistas, economistas, cientistas, escritores, arqueólogos, professores, psicólogos, entre outros, escolheram os vinte e um monumentos finalistas. Foram escolhidos os castelos de Almourol, de Guimarães, de Marvão e de Óbidos; os conventos de Cristo em Tomar e o de Mafra; a Fortaleza de Sagres; a Fortificação de Monsaraz; as Igrejas de São Francisco e dos Clérigos no Porto; os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e dos Jerónimos; o Paço Ducal de Vila Viçosa; a Universidade de Coimbra; os Palácios de Mateus, da Pena e de Queluz; as Ruínas de Conímbriga; o Templo Romano de Évora e, finalmente, a Torre de Belém.
Para quem se interessa pela nossa cultura deve ver nestes maravilhosos exemplares um misto de simbolismo, de arte, de beleza e de harmonia, representando na perfeição, estilos e correntes arquitectónicas, bem como o percurso deste rico caminho da nossa História.
É certo que corremos o risco de adicionar um certo bairrismo quando confrontados com a escolha. Todavia, depois de reunidas as muitas opções, as escolhas recairão, com certeza, sobre aquelas que mais se aproximam das verdadeiras maravilhas nacionais.
O narrador, por norma, nestas coisas não deve tomar partido por esta ou aquela opção. Hoje, apetece-me quebrar essa prática e apontar as minhas sete preferências. Desde logo, o castelo de Guimarães, pelo seu simbolismo e pela associação à fundação da nacionalidade. Depois, o convento de Cristo, em Tomar, os mosteiros da Batalha e dos Jerónimos e a torre de Belém, verdadeiros exemplares da expansão portuguesa e do rendilhado estilo manuelino.
Sob um outro olhar, pela encantadora envolvência e beleza, a minha sexta predilecção vai para o castelo de Almourol, um exemplar romântico próprio de um verdadeiro conto de fadas, situado no leito do rio Tejo.
Finalmente, rodeado por uma bela cidade património mundial, surge o majestoso templo romano de Diana em Évora, com as suas imponentes e bem definidas colunas coríntias.
É certo que uma escolha não deixa de ser uma opção coberta de grande subjectividade. Contudo, aqui, apenas quis expressar as minhas preferências, diante de tanta monumentalidade. Mas, que foi difícil, lá isso foi!...

terça-feira, janeiro 09, 2007

E tatuando "espalharei por toda a parte"!...

Fiquei espantado há dias, quando visitava o site da Rádio e Televisão de Portugal, a propósito da rubrica “O melhor português”. Após uma consulta feita sobre a lista das personagens marcantes da nação, nela não constava o popular e actual governante, José Sócrates.
Eleito ainda há bem pouco tempo por uma margem tão elevada, conquistando mesmo uma das mais expressivas maiorias absolutas da jovem democracia nacional, não esperava da parte dos portugueses tamanho esquecimento.
Este governante tem pautado a sua acção governativa, dando um particular ênfase à afirmação de Portugal no mundo, sem paralelo na nossa história! Quem não se lembra da sua aparição num cartaz de campanha ao lado de um dos maiores vultos da política internacional e presidente da Venezuela – Hugo Chavez?
Por outro lado, está à vista de cada um, as melhorias significativas em que transformou o país: impulsionou uma economia em franca ascensão; cativou fortes investimentos estrangeiros; promoveu uma verdadeira revolução tecnológica; o desemprego é praticamente inexistente e grandes multinacionais abrem hoje de par em par!
Encerrou tudo o que era supérfluo, ineficaz e inoperante como maternidades, escolas, hospitais, aí alcançando largos milhões para o tão necessário investimento em grandes estruturas viárias e aeroportuárias tão desejadas no litoral do país! Depois desta majestosa obra ao alcance de muito poucos, não é compreensível a ausência desta lista. Ele é o verdadeiro Duarte Pacheco ou Costa Cabral do século XXI português!
É por isto que eu acho que Portugal não sabe enaltecer verdadeiramente os seus vultos. Se tivemos um importante e aguerrido Afonso Henriques; se tivemos gente tão ousada e aventureira como D. João II; se tivemos um despótico e poderoso Marquês de Pombal; se até enaltecemos o Mário Soares e a todos eles dedicámos uma grande valorização, porque nos esquecemos então dos verdadeiros, daqueles que possuem uma real e comprovada capacidade de trabalho, capaz de lançar o país no pelotão da frente do desenvolvimento?
Já vi grandes líderes mundiais representados e impressos em t’shirts. Outros há, cujo culto e admiração é feito em forma de estátua. Mas Sócrates merece muito mais. Estou a pensar seriamente em tatuar a sua imagem num dos meus braços para que a sua figura perdure para sempre no meu coração. Se os nossos antigos combatentes das ex colónias puderam expressar, tatuando o “amor de mãe”, “amor de Maria” ou o “adoro-te Felismina”, porque não hei-de eu poder declarar a minha profunda admiração por este vulto? Pelo menos a minha será “eterna” enquanto que o amor de alguns daqueles parece que não o foi!...

segunda-feira, janeiro 08, 2007

As pequenas e as grandes causas

“Abortar em Badajoz” ou “Parir em Barcelos” eram algumas parangonas que há alguns dias se passeavam pelas primeiras páginas da generalidade dos tablóides nacionais. Tudo a propósito do despropósito tomado pelo governo português de encerrar algumas maternidades, sobretudo aquelas que não apresentavam as condições adequadas. Convincente esta medida governativa!
Se este exemplo fosse tomado, encerrando-se tudo o que funciona menos bem ou que não tivesse condições, eu questiono quais as instituições que permaneceriam abertas? A meu ver, seria bem mais justo, digno e consensual dotar estes espaços com o mínimo exigido às tarefas para que estão destinados.
É sabido do envelhecimento da sociedade europeia em geral. Todavia, não é com leis anti ou pró aborto; não é encerrando ou dificultando as coisas que se conseguem melhorias significativas em prol deste fenómeno que começa a preocupar o Velho Continente!
As pessoas que dirigem os destinos do país, que tanto se socorrem dos exemplos estrangeiros para justificar uma tomada de posição, por regra alicerçadas numa temporalidade anacrónica, deveriam a este propósito, olhar para uma medida enérgica e de forte impacto social, seguida pela chanceler alemã, Angela Merkl. Esta governante acabou de tomar uma deliberação inédita, subsidiando com vinte e cinco mil euros cada nascimento verificado em solo alemão. Aqui está uma medida exemplar, com contornos e propósitos sérios, enérgica, envolvendo a sociedade alemã pelo seu todo.
Um dia, estudava eu História Europeia do século XIX, espaço onde emergia uma forte industrialização, renascendo no seu seio uma promissora sociedade capitalista, dirigida por economias em franco crescimento. E, por essa altura, o que se passava em Portugal? Guerras intestinas entre liberais e miguelistas que nada de positivo trouxeram ao país, arruinando-o, provocando-lhe um forte endividamento do qual a nação jamais se terá libertado, lançando-a num irreparável atraso.
Hoje tal como ontem, em vez de nos preocuparmos com a realidade e com as estruturais e excepcionais causas, estas sim, verdadeiros motores de uma sociedade, gastamos o nosso interesse, a nossa energia e o nosso dinheiro em coisas menores, interesse de meia dúzia que em nada transformam o panorama social nacional. Vivemos governados por uma maioria que norteia a sua governação por meros e ineficazes populismos, obstáculos para uma reforma social séria e valorosa.
Quantas pessoas irão beneficiar com a aprovação da lei sobre a “Interrupção Voluntária da Gravidez”? Quanto se irá gastar com o referendo popular? Quantos dias paralisará o país esta campanha de sensibilização que aí vem? E se a maioria das pessoas decidir não votar, como parece ser o mais provável? Vamos brincar de novo aos referendos?
Enquanto a nossa inquietação se dispersar pelas pequenas coisas, jamais conseguiremos chegar às grandes e são precisamente esses, os verdadeiros veículos do desenvolvimento que se pretende ver implantado.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

O amargo da Serra!...

Geograficamente, Portugal é um país pequeno, mas a sua exiguidade, esconde por vezes, uma pluralidade de práticas, de usos e de costumes desconhecidos da grande maioria da população portuguesa.
Por estes dias, a estação de televisão SIC, colocou no seu alinhamento informativo um documentário em jeito de pequenos fascículos, cujo tema central era a sobrevivência dos pastores da Serra da Estrela, intitulado “Ainda há pastores”.
Fernando Alves, jornalista de inegável talento e faculdades, deu voz a este magnífico trabalho da autoria de Jorge Pelicano, convidando-nos, de maneira sábia e harmoniosa, a entrar numa viagem às raízes e ao estilo de vida dos pastores, outrora muito falados e referência cultural desta região.
Mas, como uma imagem vale sempre mais que mil palavras, o autor socorre-se de um magnífico jogo de planos de imagem para nos traçar um retrato muito cuidado dos últimos e resistentes pastores.
Mostra-nos com detalhe a essência de cada um, com as suas “teimosas” e invulgares histórias de sobrevivência, inseridos que estão num habitat quase perdido, encurralado entre agrestes montanhas ventosas e frias.
Foi este estilo de vida que marcou os antepassados e é com ele que ainda hoje, alguns, teimosamente tentam levá-lo por diante, imbuídos num espírito de luta e de salvação de uma “arte” que os seus antecessores lhes legaram.
O autor faz-nos um retrato sobre os obstáculos com que estas pessoas se deparam na sua jornada diária. Mostra-nos um dia a dia calmo, penoso e de grande solidão. As tarefas são quase sempre as mesmas: cuidar e alimentar o gado e ordenhar os animais, daí resultando o leite tão necessário no fabrico do afamado “Queijo da Serra”.
Os penedos, recortados aqui e acolá por raios de sol, são muitas vezes mais acolhedores que as próprias habitações, invadidas por raios de sol que entram sorrateira e distraidamente no interior das casas. As noites são geladas, as casas não apresentam conforto e as fogueiras “lutam” arduamente para dominar o frio.
Acordados das “trevas”, Jorge Pelicano convida-nos a viajar por locais perdidos nas montanhas da Serra da Estrela. Debaixo de chuva, neve ou sol, descobre vivências variadas por entre os vales e o bálsamo das serranias. Durante os cinco anos que aí passou, testemunhou o chegar da luz eléctrica aos locais mais recônditos e remotos e assistiu ao crescimento das poucas crianças que por lá moravam. Muitas mutações e a todas se dedicou. No essencial, retratou uma realidade, porventura, em vias de extinção!
Afinal, a televisão forma, deforma mas também informa, felizmente!...

quarta-feira, janeiro 03, 2007

As sonhadas euforias

Rei morto, rei posto. O velho ano foi a enterrar e, com ele, emerge um novo, carregado de simbolismo e de euforia. Passada que está esta quadra festiva, haverá com certeza algumas inferências a daí retirar.
Eu, como muitas outras pessoas, costumo nesta quadra, enviar mensagens às pessoas que me são mais chegadas, desejando-lhes um Ano Novo cheio de esperança, coberta com um inabalável manto de fé e pleno de sucessos. Ora, ao que parece, são manifestações de pura retórica, embora os meus propósitos estejam desprovidos desses contornos.
Se bem repararmos, tudo ou quase tudo continuará como dantes. Mudou o sete em vez do seis; para mim e se tudo correr bem, o três cambiará para o quatro; o colorido ou a distribuição do cabelo talvez mudem de tom ou fiquem mais ralos mas, no essencial, o que altera para tamanho entusiasmo?
Às primeiras horas do dia do início do novo ano, plantado em frente da televisão, lá me foi mostrado o que de mais belo se terá passado pelo mundo na pretérita noite festiva. Por momentos sonhei-me eufórico no calçadão de Copacabana, de coco na mão à espera das doze badaladas. Imaginei-me ainda, plantado ao frio, diante do “Big-Ben” londrino, a venerar o aparecimento do novo ano. Mas, acordado destes admiráveis sonhos, eis-me de volta ao meu sofá e às vicissitudes do meu dia a dia.
Volvidos alguns momentos, lá vem a notícia que mais se temia: a gasolina aumentou e, consequentemente, os transportes, o pão, a electricidade e outros bens necessários. Regressado à pureza do meu racionalismo, pensei para comigo: afinal, para quê tanta euforia e tanto festejo? Porque me acordaram deste maravilhoso sonho?
Despertado desta “viagem”, aos poucos, vão surgindo as habituais caras enfadonhas e os problemas do dia a dia. Vê-se o Primeiro-ministro a dizer que vivemos num país “oasiático” onde tudo é maravilhoso e rola sobre rodas; o Presidente da República a apelar à responsabilidade e ao empenho dos portugueses; os debates televisivos a discutirem se Saddam deveria morrer enforcado ou fuzilado; os automobilistas a auto mutilarem-se nas estradas, desrespeitando as mais elementares regras da condução. Ah, claro que o primeiro bebé do ano não podia ser esquecido! Uma coisa não ficámos a saber: com quem dormiu Floribela?