sexta-feira, março 31, 2006

"O pavão não perdeu a pena"!

“O pavão perdeu a pena”! Este bem poderia ser o mote utilizado na poesia trovadoresca, com aplicação numa qualquer cantiga de amigo ou de amor, à boa maneira provençal; canções que se revelaram muito úteis e marcantes nos vastos reportórios medievais.
Mas, afinal, o “trovador” deste blog, embora passe por uma fase de grandes movimentações profissionais, ainda não perdeu a pena, que é como quem diz, ainda não perdeu o gosto em “dar ao dedo”!
A generalidade das pessoas, nasce num espaço físico, onde nele se forma, evolui e se afeiçoa, aí adquirindo capacidades e afectos muitas vezes difíceis de superar. Frequentemente, é usual mudarmo-nos, sobretudo quando a nossa condição social ou o nosso estado civil são alterados. Mas há outras causas!
Na vida como na profissão: quantos de nós, em função de novos desafios que se afiguram; da renovada complexidade e exigência do dia a dia; do ajuste e da procura de melhores condições, nos propomos a mudar de espaço de trabalho, ou mesmo de profissão, movidos por esse tal anseio da realização ou estimulados por um melhor e mais eficaz desempenho?
Já por diversas vezes senti na pele mudanças a este nível: de cidade, de profissão, de casa (de estado civil ainda não!). Daí que hoje possa, neste campo, retirar algumas ilações. Contudo, mesmo depois de alguma experiência, não imaginava que os laços profissionais criados e as nossas práticas diárias ocupassem de uma forma tão vincada a nossa mente.
Há dias, mudei de instalações no meu local de trabalho. Embora as mudanças não tenham envolvido grandes distâncias, é notório agora, no novo gabinete, um ambiente e uma paisagem diferentes; o computador tem programas e ferramentas igualmente diferentes; o parque de estacionamento é outro; já não tenho disponível a amabilidade do António, que no bar, me preparava pela manhã, o meu pão com manteiga aquecido e o meu galão morno, como só ele sabia; é o restaurante que fica fora de mão, enfim… tanta coisa que muda e nós não nos apercebemos!
Mas, com todas estas mudanças, o teclado continua operacional e os dedos saltitam de tecla em tecla, na ânsia de melhor retratar e relatar as ocorrências do nosso quotidiano. E ainda bem que assim é! Citando uma ideia de Garrett expressa no livro “Viagens na minha terra”, continuarei por aqui a prometer que “de tudo quanto vir e ouvir, pensar e sentir, se há-de fazer crónica”.

segunda-feira, março 27, 2006

"Les petits canadiens"

Há uns anos, acabado de chegar a Paris para uma curta estadia turística, decidi começar o meu périplo pela "cidade luz" com uma pequena viagem junto à margem esquerda do rio Sena. O autocarro foi o transporte escolhido para melhor poder desfrutar das fantásticas paisagens apresentadas em meu redor.
Lá como cá. Quando me sentei no interior do meu transporte, uma senhora simpaticamente me interpelou, interrogando-me sobre a minha nacionalidade. Prontamente e sem quaisquer rodeios lhe respondi que era português. Sem pestanejar, esta gaulesa num tom sorridente e quiçá, com algum desdém, tenta repetir a informação que lhe acabava de fornecer. Admirada com a minha proveniência, lança-me num instante e com um olhar sarcástico e “amarelado”, uma frase lapidar: “ah, les petits portugais!”.
Sinceramente não entendi muito bem a utilização do termo “petits”. Pensei então para comigo: será que é por Portugal ser constituído por uma área territorial exígua? Será que é por os lusitanos serem de baixa compleição física?
Para conseguir uma resposta a estas questões eu não dispunha de elementos afirmativos! Se esta senhora se reportava ao território nacional, o que diria ela sobre os holandeses, belgas, luxemburgueses, austríacos, suíços e outros? Por outro lado, pelo que vi no Museu do Homem, não me parece que o tamanho corporal dos europeus seja assim tão diferenciado, para os portugueses serem apelidados de “petits”!
Por estes dias, os vários “media” portugueses, encarregaram-se de me dar, finalmente, a tal resposta que há muito desejava! Através deles, a generalidade da população portuguesa, tomava conhecimento que o governo canadiano se preparava para devolver à procedência cerca de dez mil emigrantes nacionais aí radicados. À semelhança da tal senhora francesa, também o poder político canadiano olha Portugal e os portugueses de uma forma sobranceira, como um espaço e uma sociedade insignificantes, sem projecção, cuja localização geográfica se situará algures, lá pela Europa!
Nunca visitei o Canadá. Confesso que terei dificuldades em algum dia o fazer, receando por lá encontrar uma “espaçosa” canadiana, atirando-me à cara com a mesma pergunta e no mesmo tom da francesa que atrás fiz alusão.
Acho uma verdadeira falta de respeito a medida que o governo canadiano tomou, sobretudo na facilidade e no rapidismo com que o fez. É certo que não concordo com a emigração ilegal. É igualmente certo que as pessoas quando partem, rumo a um qualquer lugar, devem antes de tudo, inteirarem-se sobre as regras que aí vigoram. Contudo, quando nos encontramos inseridos numa sociedade evoluída, com contornos complexos, envolvendo sentimentos e laços profundos, há que saber utilizar uma certa diplomacia, racionalidade e um bom senso bem característico do novo “homo humanus”. Afinal, há ou não humanismo?
Convém não esquecer que estamos perante mudanças familiares estruturais. Tratam-se de alterações profundas que envolvem muitas famílias e, as mudanças a fazer, requerem tempo. Os investimentos aí feitos precisam de ser rentabilizados, a vida escolar das crianças precisa de um rumo; precisa de ser normalizada e a estabilidade emocional das pessoas envolvidas precisa ser relevada e tomada em conta.
Aproveitando este “feito heróico” dos canadianos, e se os imitássemos, repatriando a todos quantos por cá andam? Se são poucos, pouco se perderia; todavia, se o número for elevado, sempre chamaria a atenção da distraída opinião pública mundial.
Por este andar, apetece-me agora inverter o termo e dizer, “les petits canadiens”, agora não pelo território nem pela sua envergadura física, antes sim, pela pequenez das decisões e atitudes tomadas.

quinta-feira, março 23, 2006

"As armas e os barões silenciados"!...

A palavra terrorismo é um conceito que está hoje em dia bem presente no quotidiano das pessoas. Ultimamente, esta prática encontra-se associada essencialmente a grupos muçulmanos, em resultado dos vários ataques que cirurgicamente desenvolvem junto de interesses ocidentais, achando-os lesivos à sua própria condição.
Estes ataques vêm sendo perpetrados por países cuja consolidação e estabilidade política é pura ficção; onde as crenças e o fanatismo se encontram fortemente enraizados em alguns dos diversos sectores dessas mesmas sociedades.
Assim dito e à primeira vista, parece que este flagelo do terrorismo prolifera unicamente no seio de países de orientação islâmica. Todavia, a História mostra-nos algo inverso. Traz-nos à memória a formação de grupos terroristas num contexto europeu, bem no coração do “velho continente”. Talvez sob a influência do “sucesso” conseguido aquando do assalto à aldeia olímpica, nos jogos Olímpicos de Munique, em 1972 ou, em grande medida, provocado pelo descontentamento social crescente, causado em grande parte pela crise petrolífera que assolou a Europa na década de 70, alguns grupos terroristas formados por europeus, acabam por emergir no meio desta conjuntura.
Quem não se lembrará do grupo alemão “Baader Meinhof”, responsável pelo rapto de ilustres industrias ligados a grandes grupos económicos? O mesmo sucedeu em Itália com o aparecimento das “Brigadas Vermelhas”, autores, entre outros actos, do prolongado rapto e assassinato do então primeiro-ministro italiano, Aldo Moro.
Se nestes dois casos o poder político se mostrou incapaz para dar uma solução a um terrorismo emergente, casos houve em que, os tais grupos terroristas coabitavam e apareciam associados a grupos políticos. Foi o que aconteceu com o IRA, na Irlanda do Norte, associado ao "Shin Fein" e com a ETA, em Espanha, associada ao "Herri Batasuna".
Pela inoperacionalidade demonstrada, há muito que alemães e italianos se encontram desmembrados e sem capacidade operacional e organizativa. No caso do IRA, na Irlanda, o som dos explosivos que tanto sangue fizera correr, matando e semeando pânico e tristeza junto das populações, deu há já algum tempo, lugar ao som dos elaborados discursos e do diálogo.
Passadas algumas décadas e com quase um milhar de mortes no seu “curriculum”, parece que a ETA segue os passos dos anteriores grupos, rumo a um “cessar-fogo”, sem tréguas e sem cedências por parte do poder político. Mais uma vez, os ideais democráticos imperaram e o conceito de uma Europa unida parece não contemplar no seu renovado espaço, divisionismo nem separatismo.
Este é, sem sombra de dúvidas, um grande passo em frente rumo a uma paz há muito desejada. Os Bascos merecem e a generalidade dos europeus há muito que sonham com ela. Se as armas do terrorismo se calam, cantemos agora nós!

sexta-feira, março 17, 2006

As inovações da CP

Tive já a oportunidade, em textos anteriores, de me referir às políticas seguidas pela CP, levando ao encerramento de muitas linhas de caminho de ferro que atravessavam e uniam muitas regiões no interior do país. Demonstrei a minha discórdia com este tratamento diferenciado que é dado a muitos portugueses que, ao invés, quando chamados a pagar as suas contribuições o fazem sem regatear esforços. Porque será então que, quando chega a hora de usufruírem das melhorias estruturais que o país oferece, lhes é vedada essa possibilidade?
Há dias, como se os tais encerramentos não bastassem, a CP, argumentando a duplicação de serviços oferecidos, extinguiu o serviço de "inter-cidades" entre a Régua e o Porto. Pela voz do responsável da empresa, foi dito que o serviço "inter-regional" servia na perfeição as populações, evitando-se assim gastos supérfluos e desnecessários.
O caso acabou mesmo por tomar contornos caricatos quando ontem, a CP, numa muito bem montada estratégia de marketing, anunciou aos portugueses que o comboio "Alfa", entre Lisboa e o Porto, passaria a ter a bordo, eu repito, a bordo, um serviço de maquilhagem, cabeleireiro e também um outro de massagens corporais onde, numa fase experimental, estes serviços seriam gratuitos. Gratuitos, só se for para os passageiros porque a CP tem de os pagar a alguém! Fiquei aparvalhado com tamanho oferecimento! Com tanta inovação, e que tal se a CP fornecesse mais alguns “servicinhos”?
E quem contribuirá para pagar tudo isto? Imaginem! Obviamente, os tais do costume. Aqueles a quem a CP presenteou com o encerramento de linhas ou com um miserável serviço "inter-regional", que nunca chega a horas e sem ar condicionado. Aqui, as pessoas são transportadas como animais, fazendo longas viagens de pé e sem quaisquer condições, onde os odores a Armani, Ralph Loren ou Hugo Boss que se sentem no tal "Alfa", se substituem aqui pelos típicos odores de quem anda ensonado e apressado com a morosidade das viagens.
Afinal é mesmo a CP que precisa de uma boa lavagem, submetendo-se a uma maquilhagem a toda a linha e em todo o corpo e não apenas na face. E já agora, que tal umas massagenzinhas a ver se o pomposo serviço "Alfa" se “estica” até ao interior? Embora por lá não haja muito stress a combater, os seus passageiros também têm cinco sentidos, que é como quem diz, bom gosto!...

quinta-feira, março 16, 2006

Os "transportes colectivos"

Sou um fervoroso entusiasta do futebol. Ou melhor, era! E digo era porque há uns tempos a esta parte que vejo alguns clubes entrarem em campo, limitando-se a estacionar todos os transportes colectivos disponíveis, bem juntinho da sua área, mais parecendo uma daquelas grandiosas fortificações medievais. E quem lá entra?
Usando de uma linguagem agora muito em voga, estas equipas super defensivas estacionam o autocarro, o avião e até o comboio, passando grande parte do tempo de jogo, acantonadas na sua defensiva. Até um barco lá estacionavam se os deixassem só que receiam que com ele possam meter água!
Como será possível, com tantos agentes policiais espalhados pelo recinto desportivo, nenhum se aperceber das infracções de estacionamento que por lá se praticam?
Depois, é usual ver jogadores caírem por tudo e por nada, ficando inertes no chão durante um longo período. Eu acho que estes “actores” são tão maus que quando têm de pisar os grandes palcos do futebol nacional, ficam tão nervosos e com tanta insegurança que necessitam de tomar previamente um conjunto de ansiolíticos. Assim, será debaixo da acção destes fármacos que estas quedas se dão. Era importante o comité de medicina desportiva tomar medidas, caso contrário, com tanta gente a cair no terreno de jogo, qualquer dia lá teremos nós mais uma tragédia! É preciso cuidado!
É muito desprestigiante, quando pagamos para assistir a um verdadeiro espectáculo futebolístico e, em vez disso, somos presenteados com números há muito gastos nos circos espalhados pelo país, mas com uma diferença: aqui, os artistas são reais, não simulam e os macacos são verdadeiros.
Depois, andam por aí muitos árbitros a desvirtuar a essência do futebol. Coitados, também não são obrigados a saber que “football” é uma palavra inglesa cuja significação tem a ver com uma bola e é com os pés que ela se joga. Mas, nada disso, no entender de alguns juízes, ela pode chutar-se “com a mão que está mais ao pé”! Ou será que é o contrário? Com estas modernices, já nem sei!
Há equipas, constituídas por estes péssimos actores, que de futebolistas nada têm, deveriam ser banidas deste apaixonante espectáculo. As simulações de lesões com o intuito de passar tempo e o anti jogo desvirtuam totalmente o espectáculo, afastando os seus numerosos apaixonados. Comigo já o conseguiram. Só espero que um dia, quando se quiserem deitar, a “cama” já lá não esteja.
Não comentarei mais futebol enquanto a espectacularidade não regressar onde nunca devia ter saído. Ah, e tragam também os verdadeiros artistas, se faz favor!

quarta-feira, março 15, 2006

A união que não nos traz força!...

Passadas que foram algumas semanas sobre o lançamento de uma Oferta Pública de Aquisição, vulgarmente designada por OPA, levada a cabo pela Sonae sobre a Portugal Telecom, que o panorama económico português começou a sentir um nervosismo miudinho, receando a formação de monopólios ou de a economia portuguesa passar a ser comandada por multinacionais estrangeiras.
Como se tudo isto não bastasse para espicaçar o mercado de acções e a formação de poderosos grupos económicos, eis que há dias, o Banco Comercial Português, uma das maiores e mais valorosas entidades bancárias nacionais, lança igualmente uma OPA sobre o Banco Português de Investimentos, outro grande grupo financeiro nacional.
Estas frenéticas movimentações acabam por provocar grandes oscilações nos mercados bolsista e de investimentos, promovendo uma conjuntura económica favorável ao aparecimento de grandes investidores e especuladores bolsistas.
Reconheço os meus parcos conhecimentos nesta área. Contudo, se estas ofertas de aquisição vingam e se multiplicam, já alguém terá imaginado a Futebol Clube do Porto SAD lançar uma OPA sobre a Sport Lisboa e Benfica SAD ou sobre a Sporting Clube de Portugal SAD, ou vice-versa? Já alguém imaginou o presidente da SAD benfiquista ser o seu homólogo portista? E que tal a Porto, Benfica e Sporting SAD constituírem-se num único e gigantesco colosso financeiro do futebol?
A ser assim, estou mesmo a ver os mordazes analistas e críticos domingueiros do futebol e da arbitragem, que assiduamente vociferam no pequeno ecrã, a terem de mudar de profissão! Fartava-me de rir ao ver as claques dos “super-dragões”, dos “diabos vermelhos” e da “juventude leonina”, lado a lado, a aplaudirem os seus ídolos comuns! Porque não pensar assim, se afinal, a unidade é efectivamente superior à soma das suas partes?
Não é através da união que se consegue a força?
De facto, nem sempre assim é e será e não devemos confundir OPA’s com (opo)rtunistas. Estas tentativas de aquisição acabam por esconder muitas outras coisas, invisíveis aos olhos do cidadão comum. Seria conveniente explicar muito bem tudo isto e reflectir sobre os malefícios que estes novos “impérios” nos trazem.

segunda-feira, março 13, 2006

O "professor" Jirinovski!...

O primeiro-ministro italiano, Sílvio Berlusconi abandonou ontem, a meio e em directo, uma entrevista que estava a dar a um programa televisivo, emitido pela estação pública italiana RAI3, à jornalista Luzia Annunziata; numa atitude bem ao estilo das protagonizadas pelo caricato ultra nacionalista russo, Vladimir Jirinovski. Contudo, realce-se uma distinção: enquanto o controverso político russo, quando participava em programas televisivos, usava de alguma violência, arremessando com tudo aquilo que conseguisse ali à mão, o polémico magnata italiano usou de uma prática mais subtil e matreira: abandonou o estúdio com um cínico aperto de mão à jornalista, atirando na direcção dela um coro de protestos relativos à forma como estava a ser conduzida a entrevista.
O papel do profissional da comunicação é colocar questões e, difíceis ou embaraçosas, o entrevistado terá de se debruçar e reflectir sobre elas, tentado objectivamente, dar-lhes o devido esclarecimento, não se refugiando em discursos ocos, evasivos e pré-concebidos.
Hoje em dia, com o anseio desenfreado de protagonismo e com a grande capacidade retórica evidenciada por muitos políticos, estes afastam usualmente do seu horizonte, os esclarecimentos que são verdadeiramente importantes. Muitos deles tornam-se em autênticas “campânulas falantes” dizendo tudo aquilo que querem e não aquilo para o qual são convidados a pronunciarem-se.
E se de repente esta moda pegasse em Portugal? E se por cá se desse o inverso onde, sempre que o jornalista questionasse o entrevistado e este fugisse à resposta, o profissional da comunicação abandonasse o “plateau” deixando o “papagaio” a falar sozinho?
Se isto acontecesse, talvez fenómenos políticos como Paulo Portas ou Francisco Louçã tivessem de dar rumos diferentes às suas habituais divagações ou então, quem sabe, lá teríamos nós enfadonhos monólogos, bem ao estilo das longínquas “conversas em família”, evidenciadas em Portugal pelo regime fascista!

quinta-feira, março 09, 2006

"Yesterday"

“Ninguém pára o Benfica, ninguém pára o Benfica, olé”! Esta terá sido, com toda a certeza, a frase mais gritada ontem à noite pelas gargantas enrouquecidas de milhões de benfiquistas. Tratou-se de uma jornada memorável e histórica, aquela vivida pela “nação benfiquista”. Num jogo realizado na mítica cidade inglesa de Liverpool e dos “Beatles”, a contar para os oitavos de final da Liga dos Campeões, o Benfica venceu a equipa local e campeã europeia em título, num desafio muito bem disputado, cujo resultado final não sofre qualquer tipo de contestação.
Os encarnados, com o feito memorável de ontem, regressam assim às suas grandes noites europeias, de onde andavam arredados há já algum tempo. Foi uma exibição de “encher o olho” onde o Benfica pôs toda a sua inteligência, mestria e eficácia dentro do terreno de jogo, embora fortemente pressionado pelos gigantes ingleses. Quem viu aquele “golaço” do meu conterrâneo Simão Sabrosa, talvez não se tenha apercebido que acabava de assistir a um verdadeiro hino ao futebol, a uma coisa do outro mundo! “É disto que o meu povo gosta”, gritaria de microfone em punho o saudoso repórter Jorge Prestrelo.
Certamente, se os “Beatles” fossem vivos, teriam de repensar muito bem o seu repertório perante o desfecho verificado ontem. Cantar o “come together”, não fará agora muito sentido; o “yellow submarine”, muito menos. Talvez tivessem de mudar a cor, onde o “red” sempre assentaria melhor! Por outro lado, com uma curtíssima adaptação, o “hard day’s night” soaria aqui que nem uma luva. Mas, pensando bem, o “yesterday” é mesmo o mais adequado, face à noite histórica vivida pela "família benfiquista".

segunda-feira, março 06, 2006

As "estrelas de(cadentes)"

O mundo do futebol está a gerar fenómenos curiosos que merecem alguma reflexão. A propósito de manifestações menos prestigiantes provenientes da assistência, reacções esquisitas têm-se vindo a sentir por parte de alguns atletas intervenientes que, confesso, não deixam de se tornar caricatas e causadoras de alguma perplexidade.
Embora reconheça nunca ter passado de um voluntarioso e apaixonado praticante do “desporto rei”, dando hoje os meus pontapés na bola, apenas com o intuito de “manter a forma”, há muito que deixei de marcar presença nos palcos do futebol, para assistir a espectáculos futebolísticos que tanto apreciava. Hoje, quando quero acompanhar um qualquer desafio, sobretudo aqueles que acho mais expectantes e empolgantes, valho-me das frequentes transmissões televisivas, embora reconheça que, desta forma, a adrenalina não é com certeza a mesma!
Tudo porque me apercebi há muito que, nessas quase duas horas de “espectáculo” tudo vale. Vale insultar o antigo atleta do clube que agora “governa a vida” no clube da concorrência; vale dizer que a mãe do senhor árbitro se ocupa na “mais antiga profissão”; vale dizer ao presidente do clube opositor e rival para ir para um sítio que aqui não digo(!). Até claques se organizam, normalmente compostas por desordeiros e marginais, cujo objectivo é semear o pânico por onde passam. Tudo lhes é permitido: atirar petardos, ferindo e matando pessoas indefesas e inocentes; apedrejar, atirar garrafas, isqueiros, moedas tudo, tudo lhes é possível!
Face a tudo isto, não deixou de se afigurar totalmente disparatada a reacção de uma “estrela” de futebol, de nome Samuel Eto’o, a actuar em Espanha, no Barcelona, quando, num jogo entre o Saragoça e a sua equipa, recebeu vários insultos provenientes da bancada. A reacção imediata deste camaronês foi a recusa em prosseguir em campo, argumentando que estava a ser alvo de insultos racistas. Até podia ser verdade, não digo o contrário e, a ser verdade, aqui os repudio. Todavia, num palco onde pelos vistos tudo vale, porque será que, para este “principezinho” tudo deveria ser diferente? O que é que ele acha dos espanhóis de Madrid, quando há pouco menos de um ano, no meio dos calorosos festejos pela conquista do título espanhol de futebol, ele próprio disse, alto e num bom castelhano “Barcelona campeón, Madrid, hijos de un cabrón”, numa alusão clara ao seu lendário rival e seus aficionados?
Tomando como exemplar a atitude deste atleta africano, e se o senhor árbitro, quando conotam a sua mãe com a tal profissão que atrás referi, abandonasse igualmente o terreno de jogo? E se um qualquer atleta, quando insultam assiduamente a sua progenitora também se retirasse das “quatro linhas”? E se o tal presidente “levasse a peito” tudo o que a assistência diz e fosse “pregar a outra freguesia”? Talvez assim, não tivéssemos actores para o espectáculo e o público não teria ali à mão o alvo preferido para nele descarregar a sua fúria. Ou talvez não! Quem sabe, se este “satatus quo” se alterasse, não teríamos espectadores e actores com nível, capazes de ombrear com os de outros espectáculos a que habitualmente assistimos?
Há pessoas que têm o mérito de possuírem capacidades inatas mas, a dada altura, essas mesmas capacidades não se fazem acompanhar de comportamentos condizentes com o estatuto que lhes é exigível. A imagem de uma qualquer “estrela” exige desta, práticas exemplares e de seriedade e não atitudes meramente conflituosas, geradoras de polémicas e de interesses completamente alheios ao espectáculo para o qual são principescamente pagos.
Posiciono-me no campo de qualquer manifestação anti-racista contudo, devemos ser coerentes em toda a linha e não usar do “politicamente correcto”. O senhor Eto’o, na sua grande cruzada anti-racista, em vez de dar lições aos europeus, bem poderia ter começado no Zimbabué, falando com o senhor Robert Mugab, presidente deste país africano. Sempre lhe ficava ali mais à mão e muito mais perto! Só que lá, talvez não dispusesse da liberdade, do carinho e da admiração que em Espanha lhe dedicam. Ah, e talvez não lhe suportassem as suas criancices e algumas atitudes infantis e irresponsáveis.

quinta-feira, março 02, 2006

"Trás-os-Montes continua lindo!..."

Vista de Mogadouro coberto de neve
Parque Natural do Douro Internacional
Os pauliteiros de Miranda
Já por diversas vezes aqui aflorei o problema da interioridade portuguesa e o esquecimento que assiduamente é reservado a estes lugares. Todavia, mesmo com algum desinteresse por parte do poder político, o nordeste transmontano continua lindo, sobretudo aos olhos de quem por ali passa!
Durante a época carnavalesca tive a oportunidade de fazer um curto périplo pelo planalto mirandês, onde tive o privilégio de contactar com paisagens, com gentes, com hábitos, com práticas… tanta coisa! Não é que tivesse visto coisas completamente novas, longe disso, mas o trato recebido e a forma simpática com que fui abordado pelas pessoas aí residentes, será sempre um motivo de registo e de grande orgulho!
A neve começou por dar as primeiras pinceladas num imenso “quadro naturalista”, cobrindo os vários lugares por onde passei, com aquele manto branco que perpassa tantas vezes o nosso imaginário quotidiano! Mogadouro era um lugar frio mas belo! Ao longe, as chaminés que se perfilavam no horizonte, tentavam em vão, pincelar e amenizar todo aquele infindável manto com outros tons, tarefa titânica para tamanha beleza!
A caminho de Miranda do Douro, o horizonte empolgava-se, agora num misto contrastante de sol e de neve, mais parecendo um “quente e frio” servido numa qualquer geladaria. O cuidado na estrada era muito, não fosse o meu transporte abalroar toda aquela beleza que me foi servida, ali, sem custos nem gastos; gratuitamente!
Mais à frente, um curto desvio leva-me à barragem do Picote, para um primeiro contacto com a natureza selvagem. As aves que sobrevoavam a paisagem ajudavam agora a formar um quadro diferente: sem neve mas com o Parque Natural do Douro Internacional ali bem presente e deitado a meus pés! À medida que a minha viagem avançava, os “quadros” fundiam-se, construindo diante dos meus olhos e ao ar livre, um autêntico “museu de pintura natural”.
Chegado a Miranda, vem a procura dos locais normalmente mais conhecidos e apetecidos: solta-se então um “olha ali a Sé!”; “que linda a rua da Costanilha!”. E lá vou eu, calçada abaixo em direcção ao centro histórico, onde me espera o lindíssimo e muito bem conseguido “Museu da Terra”. Parabéns Miranda, pela espantosa promoção da vossa terra e da vossa gente que ali fazem! São trajes; são alfaias agrícolas; são práticas retratadas por imagens e corpos ali recriados; é o interior das casas com toda a sua envolvente: os quartos com os antigos lavatórios; as camas ladeadas com os tradicionais baús das roupas; a cozinha com o velho louceiro, a sala… tudo, tudo ali cabe!
Ali ao lado, um restaurante chamava por mim. Sem saber, acabava de entrar numa autêntica “feira gastronómica”. A alheira e outros enchidos, o borrego, o cabrito e a inevitável “posta lá da terra” que é como quem diz, à mirandesa, marcaram presença no meu repasto! "Coma que é tudo cá da terra", atiravam-me de imediato! Está à vista, respondia eu!
Conquistado pela paisagem, conquistado pela comida, eis-me novamente à procura de mais motivos de interesse. E que tal uma viagem de barco, Douro acima, em pleno Parque Natural do Douro Internacional? Vamos a isso, pensei logo! Se no início eu conseguia adjectivar a beleza que a neve me conseguia transmitir, aqui afigura-se-me uma tarefa mais difícil. O encanto é tal que eu não serei capaz de o retratar por palavras. E, há falta delas, socorro-me de imagens fotográficas que fiz, as quais, melhor do que eu, poderão atestar na perfeição, todo o meu desmesurado encanto.
Afinal, mesmo que Miranda esteja a trezentos quilómetros do Porto, servida por estradas que mais parecem magras e infindáveis serpentes; mesmo que a desertificação se “sente à mesa” do mais abnegado mirandês, por lá não faltam muitos e diversificados motivos de interesse. Adaptando um verso de Vinicius de Moraes, apetece-me dizer que “Trás-os-Montes continua lindo; lindo de morrer; lindo de viver; lindo, lindo!...”!

"Trás-os-Montes continua lindo!..."

Já por diversas vezes aqui aflorei o problema da interioridade e o esquecimento que é reservado a esses lugares, todavia, mesmo com este desinteresse por parte do poder político, ele continua lindo!
Durante a época carnavalesca tive a oportunidade de fazer um curto périplo pelo planalto mirandês, onde tive a oportunidade de contacto com paisagens, com pessoas, com hábitos, com práticas… tanta coisa! Não é que tivesse visto coisas completamente novas, longe disso, mas o trato recebido e a forma simpática com que fui abordado pelas pessoas aí residentes, é sempre um motivo de registo e de grande orgulho!
A neve começou por dar as primeiras pinceladas num imenso “quadro naturalista”, cobrindo os vários lugares por onde passei com aquele manto branco que perpassa tantas vezes o nosso imaginário quotidiano! Mogadouro era um lugar frio mas belo! Ao longe, as chaminés que se perfilavam no horizonte, tentavam em vão, pincelar todo aquele infindável manto com outros tons, tarefa titânica para tamanha beleza!
A caminho de Miranda o horizonte empolgava-se, agora num misto contrastante de sol e de neve, mais parecendo um “quente e frio” servido numa qualquer geladaria. O cuidado na estrada era muito, não fosse o meu transporte abalroar toda aquela beleza que me foi servida, ali, sem custos nem gastos; gratuitamente!
Mais à frente, uma curta passagem pela barragem do Picote com um primeiro contacto com a natureza selvagem. As aves que sobrevoavam a paisagem ajudavam agora a formar um quadro diferente: sem neve mas com o Parque Natural do Douro Internacional ali deitado a meus pés! À medida que a minha viagem avançava, os quadros sucediam-se, mais parecendo um verdadeiro museu ao ar livre.
Chegado a Miranda do Douro, vem a procura dos locais normalmente mais conhecidos e apetecidos: solta-se então um “olha ali a Sé!”; “que linda a rua da Costanilha!”. E lá vou eu, calçada abaixo em direcção ao centro histórico, onde me espera o lindíssimo e muito bem conseguido “Museu da Terra”. Parabéns Miranda pela espantosa promoção da terra e da vossa gente que aqui fazem! São trajes; são alfaias agrícolas; são práticas retratadas por imagens e corpos ali recriados; é o interior das casas com toda a sua envolvente: os quartos com os antigos lavatórios, as camas, a cozinha, a sala… tudo, tudo ali cabe!
Ali ao lado, um restaurante chamava por mim. Sem saber, acabava de entrar numa autêntica “feira gastronómica”. A alheira e outros enchidos, o borrego, o cabrito e a inevitável “posta lá da terra” que é como quem diz, à mirandesa, marcaram presença no meu repasto!
Conquistado pela paisagem, conquistado pela comida, eis-me novamente à procura de mais motivos de interesse. E que tal uma viagem de barco, Douro acima, em pleno Parque Natural do Douro Internacional? Vamos a isso, pensei logo! Se no início eu conseguia adjectivar a beleza que a neve me conseguia transmitir, aqui afigura-se-me uma tarefa mais difícil. A beleza é tanta que eu não serei capaz de a retratar por palavras. E, há falta delas, socorro-me de imagens fotográficas que fiz, as quais, melhor do que eu, poderão atestar na perfeição, essa mesma beleza.
Afinal, mesmo que Miranda esteja a trezentos quilómetros do Porto, servida por estradas que mais parecem magras e infindáveis serpentes; mesmo que a desertificação se “sente à mesa” do mais abnegado mirandês, por lá não faltam muitos e diversificados motivos de interesse. Adaptando um verso de Vinicius de Moraes, apetece-me dizer que “Trás-os-Montes continua lindo, lindo; lindo de morrer; lindo de viver; lindo, lindo!...”.

quarta-feira, março 01, 2006

A "mercantilização" do Ensino

Incomoda-me profundamente a medida que a Senhora Ministra da Educação está a implementar e que vai no sentido do encerramento de algumas “Escolas Primárias” espalhadas pelo país, cuja frequência de alunos não seja superior a um determinado número. Digo determinado número porque ao certo, penso que nem a própria Ministra o saberá.
Aquilo que inicialmente se previa, cifrando-se os encerramentos em cerca de quinhentos, o número acabou por engrossar e, ao que parece, já se situa muito próximo do milhar e meio. E quem vão ser as populações mais prejudicadas com esta medida? Imagine-se! Obviamente o interior! A explicação dada pela tutela é que, escolas com um número reduzido de alunos e situadas em zonas isoladas, as crianças a elas afectas terão de procurar outro “poiso”.
Impensável, esta medida! Se até no tempo do ditador Salazar, como forma de combater o analfabetismo, este mandou edificar centenas de salas espalhadas pelos mais recônditos lugares do país, como é que agora a tutela quer impedir um direito há muito consagrado? Foi preciso chegarmos ao século XXI para o mercantilismo chegar ao ensino?
Incomoda-me muito as assimetrias que continuadamente se criam entre litoral e interior, com desigualdades cada vez mais acentuadas. Se os “Caminhos de Ferro” têm prejuízo, encerram-se as linhas do interior, como se fossem estas as causadoras do tal “buraco” financeiro, e que até são, muitas vezes, os únicos veios de ligação entre localidades. A título de exemplo, custa mais uma viagem com retorno entre a Régua e o Porto, do que um passe mensal utilizado vezes sem conta, entre Lisboa e Cascais.
Ao mesmo tempo, se há um grande evento nacional, tipo “Expo 98”, “Capital Europeia da Cultura”, ou algo semelhante, sabe-se logo à partida para onde estes eventos nunca irão! Ao “Euro 2004”, chamaram-lhe Euro de Portugal mas eu chamar-lhe-ia antes, “Euro do Litoral”, reportando-me às cidades onde foi realizado! Qual terá sido o critério seguido nesta escolha? As tais grandes e importantes estradas demoram gerações a concluir, como o IP4 entre o Porto e Bragança que conheceu o seu “terminus” somente passados mais de vinte anos. E estou a falar em pouco mais de duzentos quilómetros! Tanto quanto sei, haverá uma total equidade entre os portugueses do interior e os do litoral, relativamente à entrega das suas declarações de impostos! Porque são então tratados de forma diferente?
Se o encerramento das “Escolas Primárias” tiver a ver com a racionalização de recursos humanos e de gastos a elas inerentes como dizem, aconselhava antes a começarem pela diminuição do número de deputados na Assembleia da República, sempre conseguiriam, com esta medida, um valor monetário bem mais elevado e atractivo.
Se o encerrar de escolas pega moda, estou mesmo a ver, qualquer dia, com a ausência de candidatos a alguns dos cursos leccionados nas universidades portuguesas, o Porto, Coimbra e Lisboa a reaverem de novo o monopólio do Ensino Superior em Portugal, num verdadeiro regresso ao passado! Ainda bem que há eleições e o povo tem por hábito julgar bem, pelos vistos. Pena é que o interior, em termos populacionais, esteja cada vez mais desfalcado e desertificado!