quinta-feira, março 29, 2007

"Blogo ou bloguei?..."

Encontro no exercício da escrita, uma oportunidade de raro prazer e, para além deste valioso sentimento, oferece-nos igualmente, aquela nobre possibilidade que dá pelo nome de partilha. Partilham-se conhecimentos, partilham-se ideologias, partilham-se momentos, partilham-se estados de alma… tantos campos de partilha que ela nos permite!
Com a chamada “aldeia global” pensada há já algumas décadas pelo sociólogo canadiano Marshall Mc Luhan e com a enraizada e já popular globalização, as sociedades contemporâneas foram procurando formas capazes de comunicar entre si de maneira mais estreita, passando muitos dos conteúdos da esfera estritamente individual para uma esfera colectiva, de acesso liberalizado e num contexto permanente.
Este fenómeno dos blogs é um desses verdadeiros exemplares que definem na perfeição o conceito de comunicação: “tornar comum”. Todavia, para tornar comum, é necessário conjugar a acção de três elementos considerados essenciais: um emissor, um receptor e um canal comunicativo.
Num blog é fácil de encontrar o emissor que, no fundo, é aquele que emite e aí coloca os seus “posts”. Também é fácil encontrar o canal comunicativo que é este omnipresente mundo da Internet. Todavia, em determinados espaços, sente-se uma presença muito deficitária de um receptor.
Quando me lancei nesta “jangada” ainda muito deficitária, navegando ao sabor das ondas e aproveitando os ventos favoráveis que sopravam, pensava eu ser fácil alimentar este espaço com reflexões, com críticas, com sugestões, com elogios ou com algo que retratasse um pouco o nosso quotidiano. Nunca pretendi transformar este espaço num lugar de frases feitas, de citações, de banalidades, ou no célebre “copy past”. Não! Sempre lhe quis dar um cunho muito pessoal, embora reconheça a dimensão de alguns textos.
Mas, com o andar do tempo, começo a sentir algum cansaço e começam a escassear temas suficientemente atractivos. Obviamente que não faltarão temas. Faltará sim energia, ânimo e entusiasmo para os continuar a retratar. Escrever é, de facto, um acto de muita solidão.
Depois, um escritor escreve os seus livros para que os leiam. Quando isto não acontece, a culpa não é com certeza do leitor! Antes sim do escritor que não foi suficientemente incisivo e atractivo naquilo que pretendeu transmitir. O mesmo se passa nos blogs ou pelo menos neste. Esperemos que o mês de Abril e o futuro sejam mais benévolos e que Março passe depressa. Talvez amanhã seja outro dia e eu continue a dizer “eu blogo, tu blogas, ele bloga” e não, “eu bloguei, tu blogaste, ele blogou”!...

segunda-feira, março 19, 2007

Os avós "new wave"!...

Com o objectivo de desfrutar um pouco do belo sol que ultimamente tem marcado presença no nosso país e, numa tentativa de desanuviar um pouco do quotidiano diário, desloquei-me por estes dias, ao final da tarde, aqueles espaços comummente conhecidos por “parques da cidade”, aí buscando alguma calmia, distracção e, porventura, algum entretenimento também.
São espaços que algumas cidades disponibilizam aos seus cidadãos, compostos habitualmente por percursos pedestres, campos de jogos e também por pistas várias, cujos objectivos se prendem com o exercício físico que cada utilizador pretende.
É comum verem-se conjuntos de pessoas exercitando movimentos com bola; de uma maneira geral, dominados pelo futebol; pessoas a correr em grupo ou individualmente, em marchas percorridas a diferentes ritmos. Vêem-se também pares de namorados sentados em bancos, em poses mais ou menos apaixonadas e felizes. É usual ver-se de tudo um pouco nos “fregueses” destes espaços.
De entre todo este emaranhado de frequentadores, uma coisa me chamou à atenção: a quantidade de crianças que aí acorre. Mas não é a criança em si o “objecto” desta minha atenção! O que me desperta para este fenómeno são as pessoas que habitualmente as acompanham.
Até há bem pouco tempo, era usual vermos crianças a passear, acompanhadas pelos jovens pais, com o objectivo de as distrair e de lhes proporcionar momentos de entretenimento. Perante as novas exigências diárias com que a contemporaneidade nos foi invadindo, muitos dos anteriores hábitos de família foram-se diluindo, dando lugar a fenómenos interessantes, que é como quem diz, a companhia dos pais está sendo substituída pela dos avós.
Vêem-se crianças de tenra idade a serem encaminhadas e acompanhadas por pessoas cuja idade não deixa quaisquer dúvidas. A generalização do acesso ao trabalho a homens e mulheres, fortemente estabelecido na Europa, em meados do século XX e a melhoria das condições sociais, trouxe como consequência a permanência dos pais durante o dia nos seus locais de trabalho e a formação de uma classe de aposentados com idade não muito avançada, capaz de ajudar na educação dos novos “rebentos”.
Desta forma, a incessante procura de melhores condições de vida leva os jovens pais a delegarem nos avós uma permanente presença na educação dos netos, prática muito pouco usual até há algumas décadas.
Não deixa de ser enternecedor e porventura engraçado ver jovens de tenra idade a serem mimados e acarinhados, em frenéticas correrias, ziguezagueando à frente de pessoas de idade visivelmente avançada!
Quantas vezes, esta geração “new wave” sentirá a necessidade de recorrer ao senso comum e ao seu rico pragmatismo diário para satisfazer os anseios e as perguntas ingenuamente infantis, quase sempre tão despropositadas quanto embaraçantes que estas crianças fazem? Pelos vistos, até para se ser avô é necessário um curso: o da universidade da vida!...

segunda-feira, março 12, 2007

Verdes continuam os campos!...

Não disponho de dados que me permitam obter uma causa efeito consistente mas, anualmente, sempre que se avizinha a mutação entre o Inverno e a Primavera acaba por me provocar alguns comportamentos que não sinto noutras passagens sazonais. Já muitas vezes ouvi falar na ascendência que os astros exercem sobre os nossos comportamentos mas, nunca dei muito crédito a tais influências.
Quando se fala na Primavera, é comum associarmos esta estação do ano ao desabrochar da vida, ao florir das árvores que, em muitos casos, significam a génese de novos e saborosos frutos. Associamos também aos imensos campos “pincelados” de inúmeras colorações, emprestando a estas áreas extraordinárias tonalidades e odores. A este propósito, quem não se lembra dos espectaculares mantos brancos que nos propiciam anualmente as amendoeiras em flor ou as contrastantes e lindas paisagens alentejanas?
Mas, por paradoxal que possa parecer, todo este tempo de beleza e de florescimento acaba por provocar uma certa melancolia, angústia, saudade e quiçá alguma tristeza! Confesso não ter explicação para este fenómeno!
Ou melhor, até devo ter. O ser humano rege-se por valores e por uma forte e diversificada rede de sentimentos, muitos deles associados a laços familiares e de amizade muito próximos. A nossa vida é composta por momentos, tal como o ano é composto por estações. Se numa qualquer estação acabámos por ser abalados por um qualquer acontecimento forte e que nos terá marcado de forma mais vincada, acabamos por o ressentir a cada ano que passa.
Tenho até um excepcional motivo para inverter o sentido desta melancolia. A extraordinária mulher que teve o ensejo de me fazer ver a luz do dia e que teve a responsabilidade primeira pelas letras que hoje escrevo nasceu precisamente na Primavera! Mas… como seu contemporâneo, acabo sempre por relevar momentos mais presentes e recentes. Ela que me perdoe!
Pode parecer uma idiotice mas, definitivamente não gosto desta Primavera, do mês de Abril nem da actual quadra pascal. Que despreocupado era sentir outrora o cheiro que emanava dos campos; correr atrás do chilrear dos pássaros ou recolher a casa ao toque do sino da igreja. Que belos e apetecidos eram os familiares almoços pascais seguidos do magnífico “compasso” que percorria toda a aldeia! Como eram lindas aquelas artérias apinhadas de tanta gente que ali vivia!
Hoje, as ruas estão despidas, as casas abandonadas e, aos belos almoços familiares alguns elementos já não respondem à chamada. Pelos vistos partiram e, ao que parece, terá sido em Abril. Como já foi linda a Primavera!...

segunda-feira, março 05, 2007

A educação e a falta dela!...

No final do século XIX, o escritor Eça de Queirós descrevia-nos com grande detalhe e com uma invulgar habilidade, pormenores relativos a práticas culturais trazidas de Inglaterra e introduzidas na cultura do nosso país. No livro “Os Maias”, entre outros variados enredos, Eça descreve-nos com a mestria que lhe é reconhecida, uma aristocracia portuguesa, engalanada a preceito para assistir às famosas corridas de cavalos.
Na perspectiva de Eça, as pessoas ataviadas com vestes muito “chic”, personificavam na perfeição as práticas trazidas da “Velha Albion”. Todavia, não deixava de empregar uma feroz crítica à forma degradante como as corridas terminavam. Ao contrário de Inglaterra, país que ostentava uma verdadeira cultura desportiva, onde imperavam valores morais e sociais bem vincados, em Portugal, quando as coisas não corriam de feição, toca logo a armar confusão, a guerrear uns com os outros e a não acatar as regras da cordialidade, como requer uma sociedade culta e civilizada, terminando este entretenimento quase sempre em escaramuças e pancadaria.
Hoje, apetece-me fazer um contraponto entre o que se passa nos estádios de futebol em Inglaterra, pátria do futebol, onde as pessoas se deliciam assistindo a verdadeiros espectáculos dentro do mesmo espectáculo e o que se passa em Portugal com este miserável comportamento degradante que alguns adeptos manifestam nos estádios nacionais.
Como foi amplamente divulgado, por estes dias Portugal viu partir um dos grandes desportistas nacionais que ao longo dos vários anos, com grande empenho e dedicação sempre deu tudo em prol das cores nacionais. Não interessa se era do clube A, B ou C interessa sim é que foi um notável atleta nacional!
Como é habitual nestes casos, no fim-de-semana imediato, cumpre-se um minuto de silêncio no início de cada jogo de futebol. A meu ver, esta é a última e a mais nobre forma de homenagear alguém que durante tantos anos nos presenteou com a espectacularidade das suas exibições.
O que me deixou profundamente aborrecido no passado sábado foi, quando se guardava um minuto de silêncio em memória do guarda-redes Bento, presenciar a conduta anti desportiva de alguns energúmenos e arruaceiros presentes no estádio do Dragão, no Porto, assobiando ruidosamente o momento. Pelo que vi, reconheço que a postura elevada, a cultura ou mesmo a educação não se compram mas, não custava nada fazerem um pequeno “esforço”!
Estes desordeiros deveriam ser banidos dos espectáculos de uma vez por todas. Acho as claques organizadas, quaisquer que sejam, a coisa mais degradante e deprimente que existe. Continuo e continuarei a achar que a cultura e a educação têm sempre lugar no nosso raio de acção. Mas… quando ela não existe, algo vai muito mal! Como Eça tinha razão e já lá vai mais de um século! Como por cá os cavalos não mudaram!...

sexta-feira, março 02, 2007

"O Manel? Qual Manel?"

Chocado. Esta será talvez a palavra que melhor define o sentimento que me trespassou ontem, quando a meio da tarde tomei conhecimento do falecimento do antigo futebolista do Benfica e da selecção nacional, Manuel Bento.
Desde tenra idade que me habituei a ver as redes do meu “glorioso” serem defendidas com as mãos hábeis e irrequietas do Bento. Não encontrava paralelo nas suas exibições, patenteando com a sua extraordinária capacidade uma enorme segurança e firmeza, dotes apenas confinados a um número muito restrito.
Para uns, com o dia de ontem partiu o maior guarda-redes nacional de todos os tempos. No entanto, é comummente aceite que ele foi, sem qualquer dúvida, um futebolista de inegável eleição onde, nos jogos em que participou, sempre terá dado o seu melhor em prol das cores que defendia, quer as do seu clube, quer as da selecção de todos nós.
Lembro-me que foi ele e a sua heroicidade que me levaram a festejar efusivamente pelas ruas, a vitória num célebre jogo contra a Alemanha, vitória essa que nos deu o passaporte rumo ao Mundial do México 86. Assisti a uma exibição imaculada e de encher o olho naquela noite. Confesso que nunca tinha saído à rua para celebrar vitórias futebolísticas. Todavia, face à unicidade do momento, não me contive e fui. Como me senti feliz, tal como milhões de portugueses, naquela longínqua noite! A ele o devo e a ele sempre fiquei muito grato por me ter proporcionado aquele inesquecível momento de felicidade!
Muitos outros episódios poderiam hoje ser recordados. A meia-final no Europeu de 84, disputada em França, foi outra epopeia digna de realce. Nesse dia foi possível sonhar e sonhar bem alto. Ele ajudou a semear no coração dos portugueses, um forte sentimento pela nossa selecção e um imensa vontade em almejar o título europeu! Era um bravo na forma como abordava as partidas e um grandíssimo quando posto à prova entre e fora dos postes.
Ontem, incrédulo, quando ouvi dizer que tida falecido o Manel, perguntei para comigo: mas qual Manel? Afinal, era o nosso Bento! Hoje, ainda abalado com o choque, resta-me dizer: muito obrigado e até sempre, campeão!...