quarta-feira, maio 30, 2007

O "deserto" das ideias!...

Às vezes, entretemo-nos a dizer mal apenas e só por dizer. Ou porque nos apetece, ou porque temos “dor de cotovelo” do criticado ou ainda porque gostaríamos da posição que esse personagem ocupa. Pois bem, neste caso que me proponho comentar, nenhum destes motivos me move, bem pelo contrário, graças a Deus!
Sempre dei lugar de destaque à inteligência com que muitas pessoas se apresentam em público, sobretudo as figuras com lugares de importância nos destinos nacionais. Esta inteligência comporta um conjunto infindável de capacidades, de memória, de uma vasta cultura geral e outra e, acima de tudo, uma grande seriedade e sinceridade.
Longe vão os tempos em que, pensava eu, quem chegasse aos bancos de uma qualquer Faculdade era, pelo seu percurso e pelo feito apresentado, um verdadeiro “expert”. Pensava eu também, quando ouvia aqueles elaborados discursos proferidos por eloquentes deputados à Assembleia da República que se tratava de alguém cujo empenho e inteligência não tinha paralelo. Igualmente se passava com os ministros, aqueles que geriam um infindável role de problemas e canseiras que assolavam o país.
Embora há muito tenha ruido este meu pensamento magnificente, por estes dias, ele desfez-se por completo. É certo que não devemos tomar o todo pela sua parte mas… como diz o velhinho ditado, “pela aragem se vê quem vai na carruagem”.
A este propósito, vem-me à ideia umas palavras absolutamente infelizes, bacocas e de uma ignorância salóia, reveladas pelo Ministro das Obras Públicas, de nome Mário Lino. Dizia ele, num bom português que, na margem sul do Tejo, “não há gente, escolas, hospitais, comércio, não há indústria nem hotéis”.
Perante estas palavras, este senhor, ou é humorista, e há que dizê-lo que se saiu muito bem; ou então, não é um português conhecedor da verdadeira geografia nacional. É que, na região a que Mário Lino se referia, conhecida por Península de Setúbal, existem dezenas de vilas e cidades, onde habitam cerca de 800.000 pessoas; servida por cerca de 750 escolas; 12 universidades; 13 tribunais; 6 hospitais; cerca de 1700 médicos e cerca de duas centenas de farmácias.
Confrontado com estes números só falta dizer que, sempre que por lá passei (e não foram tão poucas as vezes), nunca por lá vi camelos, animais muito típicos do ambiente árido dos desertos. Mas, pelos vistos, nunca será tarde ou então, não me terei passeado pelos centros mais turísticos!
Se eu habitasse na margem sul e, perante tão infelizes declarações convidaria o Senhor Ministro a efectuar uma visita num trajecto absolutamente alucinante, dando-lhe a conhecer uma das cidades que lá não existem, cultivar-se e aprender numa das universidades que lá não há, de forma a que, algumas das pessoas que lá não vivem lhe pudessem dar uma valente tareia e ele fosse parar a um dos vários hospitais que lá não existem também.
Com esta visita, talvez o Senhor Ministro tivesse um conceito diferente de “deserto” sobretudo quando chamado a expressar e a argumentar com as suas infelizes, desajeitadas e boçais opiniões. É uma pena que o “deserto” das ideias contagie o comportamento do senhor ministro.

quarta-feira, maio 23, 2007

As sete maravilhas!...

Quantos de nós, aqueles por quem os “verdes anos” há muito passaram, não se recordarão da popular e famosa série livreira de “Os Cinco", narrada pelos dedos da escritora Enid Blyton? Estes livros fizeram as delícias da nossa infância. Preencheu-a de imaginação, de aventuras e mistérios e guiou-nos num imaginário de sonho e de heróis, do qual não gostaríamos nunca de ter acordado! Esta foi uma brilhante série que ocupou muito do nosso entretenimento juvenil.
Hoje, pegando naquele célebre número, alguém ousou acrescentar-lhe mais duas unidades e é ver em nosso redor promoções às “sete maravilhas da Humanidade”; às “sete maravilhas de Portugal”; às “sete aberrações disto”; aos “sete pratos típicos daquilo” e até aos “sete maravilhosos atletas”.
Parece-me uma ideia peregrina, ignorante e de um provincianismo primário escolhermos, por exemplo, as “sete maravilhas de Portugal”, pegando em tantos exemplares como monumentos, castelos, igrejas e sítios, elegendo os mais bonitos ou os de maior significado. Trata-se de uma escolha dúbia e composta de uma grande carga de subjectividade.
Tratando-se de obras de arte, produtos do espírito humano na sua expressão mais nobre, edificados à custa do trabalho de centenas de gerações, não me parece muito ajustada a ideia de em apenas sete exemplares conseguirmos expressar toda a nossa magnitude nacional.
Voltando às “sete maravilhas de Portugal”, será que haverá alguém, conhecedor desta realidade, que consegue emitir a sua preferência entre o Mosteiro dos Jerónimos e o Mosteiro da Batalha; entre o Castelo de Guimarães e o Castelo de Almourol; entre o Palácio de Mateus e o Palácio Nacional de Queluz; entre a Sé de Braga e a Sé da Guarda; entre os Centros Históricos de Guimarães e de Évora; entre as fortificações de Monsaraz e de Marvão, ou mesmo entre as aldeias históricas de Monsanto e de Sortelha?
Não será um número demasiado escasso e redondo para reproduzir e representar tamanho simbolismo e beleza? É arriscado delimitarmos e reduzirmos tanta história a um universo tão escasso.
Contrariamente às personagens a quem Enid Blyton deu rosto (Julian, Anne, Dick, Georgina e o cão Timy), aqui os exemplares são muitos e aquilo que representam também. Daí que, circunscrever tanto a tão pouco se afigura tarefa desajustada e despida de um verdadeiro e autêntico rigor histórico. A humanidade agradece!...

quarta-feira, maio 16, 2007

Haja paciência!...

Reflecti muito sobre se deveria comentar este assunto que tanto tem invadido a paciência e a consciência de cada um mas, com tantos e tamanhos bombardeamentos diários, não me contive em o fazer.
Embora na sociedade portuguesa se sintam ainda marcados vestígios de analfabetismo, por estes dias, pelo mais ignorantes e distraídos que possamos ser, penso que não haverá nenhuma alma, que não saiba do desaparecimento de uma criança inglesa que se encontrava no Algarve a passar uns dias de férias. As televisões, os jornais e até as caixas de email encarregaram-se de nos relembrar este episódio.
Não quero aqui evidenciar uma qualquer insensibilidade para com este hediondo caso que se abateu sobre aquela família. Todavia, entendo que o exagero continuado de informação sobre este assunto, acaba muitas das vezes por provocar o chamado “efeito de boomerang” ou seja, deturpa os propósitos esperados inicialmente, invertendo os intentos previstos.
Logo que foi público este acontecimento, homens e meios, que é como quem diz, repórteres de imagem, jornalistas e uma imensa logística ligada ao mundo da comunicação social ali aportou para fazer a cobertura do “evento”. À cabeça, a imprensa inglesa alimentou logo ali “álibis” para o sucedido, tratando de culpabilizar a polícia portuguesa pela falta de empenho e de informação que transparecia para o exterior. Sentia-se uma desmesurada vontade em tudo relatar quando praticamente nada se sabia ou nada se acrescentava.
O sensacionalismo inglês empenhou-se logo de mundializar o caso transformando-o num facto diário relevante para a vida britânica e, quiçá, para o mundo. Por momentos pensei que o quotidiano inglês não tinha destes problemas, onde não desapareciam crianças e onde a polícia tudo tornava público. Mas, depois de fazer um ligeiro “rewind” apercebi-me que têm no seu próprio país um vasto campo, onde podem alimentar este tipo de sensacionalismo mediático sem incomodarem a pacatez e tranquilidade portuguesas.
Analisando bem, pergunto-me a mim próprio: onde estavam estes tablóides britânicos quando o seu país ajudou a invadir o Iraque levando ao desaparecimento de milhares de crianças? Será que estas crianças indefesas e inocentes não deveriam ter a mesma cobertura mediática, com fotografias, com parangonas e com primeiras páginas iguais aquelas que estão a ser dispensadas no Algarve? Onde estão os donativos para as suas buscas?
Será que no Crescente Fértil os tablóides “Dailly Mirror”, o “The Sun” ou a estação de televisão “Sky News” se prontificam a oferecer importantes pistas sobre os “vândalos” invasores às polícias locais ou se investigaram o paradeiro das crianças aí desaparecidas? À semelhança da britânica, aquelas também tinham rosto, brinquedos, família...
Pelo mais que lutemos, o mundo acaba por ser demasiado desigual. Os números nem sempre são aquilo que são; antes sim, aquilo que queremos que sejam. Haja paciência! Já não suporto mais este folclore diário.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os "papas" e os "cardeais"!...

Anualmente, é feito eco das inúmeras festas académicas, conhecidas nos meandros universitários como a “queima das fitas”. Estas festividades apresentam-se como tantas outras, não fosse o alarido e a demasiada importância que os vários media lhes reservam.
É com naturalidade que observo a tentativa que as diferentes academias implementam para transportar para o exterior muitos dos seus usos e costumes, uns mais originais e genuínos que outros, em conformidade com a identidade e a tradição que a cada uma lhes é associada.
É, por assim dizer, uma semana de “arromba” onde tudo se faz em grande: grandes noitadas, grandes loucuras e grandes bebedeiras também. São concertos e mais concertos, ocupando a música “pimba” um lugar de grande destaque.
Os cortejos, um dos momentos mais esperados, deveriam apresentar-se, como a “cereja no cimo do bolo”, exibindo um humor requintado, uma sátira criativa, capaz de desvendar aos olhos da generalidade da população, muitas das vicissitudes que reinam e regem as academias.
Ora, a meu ver, nada disto acontece. Assiste-se ao desfilar dos tais carros alegóricos onde o mote que impera é a “alegoria de Baco”: álcool e mais álcool, asneiras em catadupa, insultos e atropelos; é o vale tudo! Se estivermos atentos, numa academia devia imperar o bom senso do requinte, da criatividade esmerada e um sentido de humor muito mais apurado! Mas, nada disto acontece.
É também por esta altura que dão sinais de vida os “papas” e os “cardeais”, vangloriando-se do seu “estatuto” de abstinência às aulas, envaidecendo-se do seu passado e das inúmeras matrículas que apresentam no seu curriculum.
Pensava eu que seria motivo de orgulho e satisfação para qualquer mortal, obter um curso superior em quatro ou cinco anos, conforme os “curricula” de cada um. Assim não é, pelos vistos! Vêem-se autênticos “sumos pontífice”, com dezenas de matrículas às costas, orgulhando-se do seu feito e o Estado, sorridente, nada faz para despertar a consciência destas alminhas!
A vaga a concurso continua preenchida e nós, sorridentemente, continuamos encantados perante feitos tamanhos! Só para se ter uma ideia, há um elevado número de universitários que de estudantes só têm mesmo o nome e, porventura o cartão, para dele usufruírem. São numerosos os alunos que levam mais de dez matrículas sem concluir um curso de quatro ou cinco anos.
Não querendo individualizar este fenómeno, tive conhecimento da presença de um autêntico “dux veteranorum”, inscrito num curso superior público de cinco anos e que já vai em trinta e três matrículas! Pasme-se, trinta e três matrículas! Isto é um absurdo; isto é a negação de um verdadeiro Estado!
A tutela deveria ser mais exigente no sucesso de quem frequenta os seus cursos. Caso contrário, estamos a estimular o ócio, a preguiça e a desresponsabilização e para o ano, lá estou de novo a ver a “guerra” deste veterano, gozando com a minha cara e com os impostos de tanta gente!

sexta-feira, maio 04, 2007

"Com três letrinhas apenas"!...

Há efemérides que, face à sua importância ou simbolismo, merecem ser relembradas anualmente. Todavia, somos por vezes tentados a cair na vulgarização de alguns destes acontecimentos que culminam na diminuição da importância e do carácter festivo dados a algumas destas iniciativas.
Com a globalização crescente e com o excessivo consumismo a ela associado, há muito que os grandes “jogadores de marketing” promoveram a celebração de dias para quase tudo. É o dia sem carros; é dia do não fumador; é o dia do ambiente; é o dia da dança… enfim, para quase tudo há um dia!
Hoje, queria aqui enaltecer um dia que, para o comum dos mortais, sobretudo os mais sortudos diz muito – o dia da mãe! Quem como eu pertence ao tal grupo dos mais sortudos, aqueles que ainda gozam da sua amável companhia, este dia acaba por ser um momento diferente, em que a nossa sensibilidade fica ainda mais apurada, envolvida numa distinta e esmerada atenção.
É evidente que para que tudo isto suceda não precisamos de esperar pelo tal dia. Afinal, é bem verdade que “Natal é sempre que o Homem quiser” mas, para dedicarmos aquele sentimento tão distinto àquela pessoa que nos é tão especial, torna-se indispensável um dia diferente dos habituais, para assim podermos manifestar este sentimento na plenitude.
É certo que não são as prendas, as flores, os passeios ou os fartos repastos em conjunto e em família que acrescentam amor, carinho e ternura. É a continuada atenção com que o fazemos diariamente e o simples facto de nos lembrarmos de quem nos deu asas para a vida!
Hoje queria aqui deixar uma homenagem a todas as mães. Em particular à minha, pela importância com que sempre soube preencher os vários momentos da minha vida. Também às mães de cada um dos meus amigos que habitualmente por aqui passam. Finalmente e sem menos importância, a quem por aqui passa e já teve o privilégio de saborear essa excepcional sensação e se sente feliz nessa condição.
A todas elas aqui deixo a minha maior e mais sincera homenagem.