Os meus dias andam marcados por uma roda-viva de contentamento e felicidade. Vivo num país onde, graças a um “exemplar” e profícuo programa escolar designado de “Novas Oportunidades”, conseguimos finalmente pertencer ao pelotão da frente a nível europeu em questões de alfabetismo! Que radiante me sinto!...
Hoje, ter um diploma, torna-se até mais fácil do que o simples gesto de mudar de camisa. Confesso sentir uma pontinha de inveja por ter nascido noutra época. Lembro-me, nesses idos tempos, ter de me levantar quase ao romper da aurora para estar a tempo na escola. Foi nos bancos das salas de aula que me fui formando e onde, em anos a fio, consegui adquirir uma sistematização de conhecimentos que hoje, orgulhosamente, carrego comigo.
É obvio que as dificuldades por que passei foram muitas. Lembro-me das lutas empreendidas contra os dias invernosos, gélidos e cansativos. Recordo-me do crescente stress que os testes me provocavam. Os exames anuais, esses soavam a autênticos julgamentos de intelectualidade e sapiência ali na hora, provocando sempre muita angústia e ansiedade pouco recomendáveis para aquela idade.
Naquela época, não estava ao alcance de um qualquer a obtenção de um diploma. Para o conseguir havia a necessidade de abdicar de muita coisa e também de aplicar muito empenho e muita vontade. Hoje, e é aqui que reside a minha inveja, consegue-se um diploma num verdadeiro passo de mágica. Aquilo que eu demorei anos a alcançar (oito, imagine-se!), consegue-se agora num simples piscar de olho. Ao abrigo das tais “novas oportunidades”, ideia peregrina deste governo, obtém-se um certificado do 12º ano em menos de quatro meses, pasme-se! Sim, eu disse quatro meses! Há coisas fantásticas não há?
Interrogo-me então: e para que é que eu andei tantos anos a estudar, se hoje conseguiria o mesmo com bem menos sacrifícios? E depois, é espantoso ouvir falar pessoas que passaram a vida a vadiar e agora virem dizer que querem tirar um curso de direito, de economia ou até em áreas relacionadas com a convivência social. Devem estar a gozar comigo, penso!...
Neste país, nunca se emitiram tantos diplomas e, pelos vistos, é disto que “o meu povo gosta”! Ele há diplomas para tudo, até de Inglês Técnico! O que interessa é diplomar as pessoas, não se importando com os conhecimentos adquiridos. E a artimanha é sempre a mesma. A tal percentagem de pessoas com o 12º ano aumentou exponencialmente, diz pomposamente o líder do governo. Dos míseros 30%, queremos urgentemente passar para os 60% continua, como se esta media fosse uma grande bandeira! Areia para os olhos, digo eu!
Mas, felizmente que há um organismo europeu e há também pessoas que pensam pela sua própria cabeça. Interrogo-me então: porque será que, segundo dados do “Eurostat”, Portugal apresenta os mais débeis resultados escolares e escassos níveis de conhecimento da União Europeia?
Pois é senhor governante, se diplomar significasse dotar de intelectualidade e valorizar a erudição das pessoas, há muito que as fábricas de papel não teriam mãos a medir. Acho bem mais importante motivar os cidadãos para o real mundo do trabalho, fornecendo-lhes ferramentas e programas de estudo autênticos, em vez de os enchermos de ilusões, passando o tempo a fazer de conta!