sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Portanto, de resto, evidentemente!...

Desde que comecei a marcar presença nos bancos da escola secundária que fui sentindo a maior ou menor facilidade de expressão das pessoas com quem partilhava aqueles espaços. Desde muito cedo que me fui apercebendo do discurso mais cuidado, fluído e fácil de uns e, em contraponto, outros que, escondendo-se ao fundo das salas, patenteavam aquela cor corada de vergonha quando interpelados pelo professor.
Assim foi, embora também me tenha apercebido que, muitos dos tais do discurso cuidado, fácil e fluído usavam de muitos amuletos, acabando por não dizer quase nada. Os “portantos” entravam em quase tudo o que fosse discurso de improviso. Era “portanto” no início de um raciocínio, era “portanto” no meio ou no fim desse mesmo discurso e, muitas vezes, eram tantos os “portantos” que me apetecia dizer “portanto, cala-te”.
Passada a era dos “portantos”, os comunicadores do presente cá da nossa praça arranjaram um outro amuleto, porventura mais pomposo e a dar mais nas vistas. Não deixa de ser engraçado que, ao assistir a um qualquer telejornal e, quando o “pivot” resolve passar a emissão para o exterior questionando o repórter de serviço no local, este começa de imediato com as previsíveis e pouco esclarecedoras entradas: “boa noite, José, assim é como dizes. De facto, como afirmaste há umas horas atrás, tudo foi confirmado. De resto, as pessoas que aqui se encontravam já desmobilizaram…” e o discurso evasivo continua. Conclusões? Zero! Informação adicional, nada!
Estes profissionais deveriam saber que, quando se referem ao passado utilizando o “há umas horas”, o termo “atrás” é utilizado de forma errónea, para além de redundante. Lembra quase o “subir para cima”! Os mesmos profissionais também deveriam saber que o termo “de resto” utiliza-se como remate de um raciocínio ou como um fecho de reportagem e não no princípio, no meio, no fim, ou tipo salada mista, entrando sempre que a muleta se afigure indispensável.
Há ainda outros personagens que, quando querem redundar um assunto, quando não o pretendem abordar ou quando não o dominam, usam o logicamente, naturalmente certamente, simplesmente, seguramente, evidentemente e outros “mentes” nada brilhantes.
Será que esta gentinha nunca ouviu a Dra. Edite Estrela ou aquela rubrica “E assim se fala em bom Português”? É que ambos os programas passaram na televisão e em horário nobre!...

terça-feira, fevereiro 19, 2008

No país das maravilhas!...

Nunca achei possível existirem dois países com o mesmo nome, situados no mesmo espaço geográfico, com as mesmas gentes, com a mesma cultura e, consequentemente, com o mesmo passado histórico. Todavia, estes dois países têm uma grande diferença: um, o Portugal real é um país onde os salários são baixos; o desemprego sobe em catadupa; os cidadãos morrem por falta de eficácia na assistência médica primária; os partos são feitos por bombeiros no interior de ambulâncias a caminho de um longínquo hospital; onde no ensino se instruem os estudantes sobre como obter um certificado de capacitação sem nada terem feito para o conseguir; onde os professores são avaliados em função da taxa de aprovação dos seus alunos; onde alguns funcionários da administração pública são obrigados a ser excelentes e outros são impedidos de o alcançar. Um país onde o mal-estar social é por demais evidente, vivendo-se num verdadeiro clima de medo, de incerteza e, sobretudo de descrença e de desmotivação.
No contraponto a este, existe o Portugal maravilhoso – o de Sócrates, o Portugal da fantasia, da ficção e também o da mentira! Pude constatar esta realidade ontem, quando perante a televisão, assisti a uma entrevista dada pelo líder do governo que, pensava eu, ser o do meu país mas, afinal, pelo que ouvi, pareceu-me ser de um outro. Nessa longa e livre conversa, o político aproveitou a sua exímia capacidade manipuladora, presenteando os seus concidadãos com dados e com elementos absolutamente fantasiosos, invertendo totalmente o rumo que o país está a tomar.
Sócrates e Mecenas foram duas figuras marcantes nas longínquas, Grécia e Roma. Agora, Portugal tem esses dois colossos num só! O ponto máximo do ridículo daquela entrevista foi atingido com os dados sobre o desemprego. Toda a gente sabe que vivemos numa época de forte recessão, patenteada num crescente desemprego. No entanto, o “Mecenas lusitano” afirmou mais do que uma vez que em três anos criou cerca de cem mil empregos! Bom, num total de quinhentos mil, este ilusório decréscimo faria com que baixássemos dos actuais oito por cento para uma percentagem muito inferior. Para comprovar esta evidência, “é só fazer as contas”, como diria outrora um famoso político da mesma cor!
Como estou farto de viver neste maravilhoso país! Eu, que estava habituado a lutar diariamente, vivendo de algumas privações e de alguns sacrifícios normais para o dia a dia, vejo-me agora a viver nesta utopia do consolo, do refastelo e do oásis, numa nação despida de pobreza, de desemprego e sem qualquer agitação social – o país das maravilhas!
Quero de volta o meu país, aquele onde os carros e as pessoas são arrastadas e afogadas nas sarjetas entulhadas, ao mínimo sinal de catástrofe. Aquele onde os processos judiciais sobre pedofilia e corrupção se arrastam “vitaliciamente” e onde os diplomas se arranjam ao quilo e nada se faz com eles.
Ah, e onde os políticos também dizem o que querem e nada lhes acontece. Quem não se lembra da responsabilização e auto demissão de um então ministro aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios naquela fatídica e horrenda noite de Março de 2001! E hoje, vemo-lo como um assíduo comentador político, ideólogo do programa do governo e grande agitador de massas. Que bela viagem eu fiz e que bom foi este regresso! Quero o meu país de volta mas antes, fiquem com estas "Alices"!...

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os Savimbis, os Manés e os Reinados!...

Desde longa data que me habituei a admirar a forma como algumas figuras mundiais executavam e propagavam as ideologias político-sociais em que cegamente acreditavam. Não quero dizer com isto que fosse um fervoroso partidário de muitas delas, muito pelo contrário mas, aquilo que mais me enlevava, era a forma como essas mesmas individualidades acreditavam nelas próprias e naquilo que defendiam, pensando, porventura, serem os donos da verdade absoluta ou os maiores benfeitores a viver à face da terra.
Todos na sua esfera e, sem querer meter tudo no mesmo saco, não é esse o propósito, muitas vezes me interroguei e interrogo sobre como foi possível a Humanidade gerar homens como Estaline (URSS); Hitler (Alemanha); Idi Amin (Uganda); Ceausescu (Roménia) e, mais recentemente, Saddam Hussein (Iraque); Fidel Castro (Cuba) ou Robert Mugabe (Zimbabué)? A meu ver, aquilo que fazia mover todas estas personalidades era suportado por uma vincada ideologia política, carregada de um forte dogmatismo pragmático. Esta será, a razão primeira para a existência de tamanhas individualidades.
Afinal, e perante a anterior justificação, o que terá movido então Jonas Savimbi (Angola); Ansumane Mané (Guiné) ou, ultimamente, Alfredo Reinado (Timor Leste), cujas únicas ideologias que se lhes reconheceram, eram sustentadas pelo disparar das armas, arremessando balas causando carnificinas sem paralelo, conduzindo à destruição das estruturas de Estados que se querem livres, soberanos e de direito?
Nunca as ideologias terão rimado tanto com usurpação, com destruição e com morte. O Homem, ao longo da sua evolução histórica, projectou para si um mundo de diálogo e de respeito mútuos. Ninguém se arrogará no direito de aniquilar quem quer que seja. Viver em sociedade acarreta direitos mas, quem os argumenta, nunca poderá esquecer os consequentes deveres. No dia em que ambos não caminharem lado a lado, voltaremos a ouvir falar de novos Savimbis, Manés e Reinados. Por mim, era preferível que não existissem mas, teimosamente, lá se vão multiplicando, para mal da Humanidade!...