quinta-feira, fevereiro 23, 2006

"Fangio" à moda do Porto

Descansem meus amigos e amigas, não estamos perante o “cardápio” de um qualquer restaurante tipicamente nortenho, nem é de culinária que vos quero falar. Li há dias, numa notícia publicada “on-line” no jornal “Público”, diário de referência e insuspeito, que um deputado do Partido Social Democrata, eleito pelo círculo do Porto, de nome Ricardo Almeida, já foi multado quase duas dezenas de vezes e todas elas, infracções relacionadas com trânsito automóvel. Todavia, apesar da gravidade cometida, quase todas foram já objecto de arquivamento ou haviam mesmo prescrito.
Dito isto assim, já dá para arrepiar, sobretudo sabendo-se que estamos em Portugal, num Estado de Direito, onde os cidadãos, “à priori”, deviam ter direitos e deveres semelhantes, para com a lei. Entretanto, o arrepio passa a “pele de galinha” quando tomo conhecimento de que o “deputado Fangio” (antigo campeão de Formula 1) foi interceptado na auto-estrada, junto à cidade de Coimbra, a circular a uma velocidade superior a 200 quilómetros por hora, imagine-se!
Como se tudo isto não bastasse, este “prevaricador profissional”, desculpem, deputado, redigiu um pedido ao Governo Civil de Coimbra, no sentido de lhe ser perdoada a apreensão da carta de condução. O mais caricato de tudo isto, ainda não foi contado! É que ele, sempre que era apanhado ao volante, fazia-se transportar em carros diferentes e todos eles registados em nomes de outras pessoas!
Entretanto, o “mago deputado”, quando se justificou aos jornalistas, afirmou-se surpreendido com o seu “historial” de transgressões, dizendo não se lembrar de tão elevado número! No entanto, reconheceu que “… às vezes ultrapasso os limites de velocidade, mas isso é porque sou um deputado que cumpre horários. Não sou como outros que não chegam a horas às reuniões…”. Será que isto não dá para rir? O que vale é que o Senhor Governador Civil de Coimbra deu a garantia de que “não perdoará multas a ninguém, independentemente do seu estatuto”.
Confesso que se fosse eleitor do círculo do Porto e tivesse contribuído directamente para a eleição deste senhor (eu chamei-lhe senhor?), hoje sentir-me-ia verdadeiramente envergonhado e triste! Todavia, como mero cidadão português, sinto que o “Salão Nobre” do meu país, onde as leias são apresentadas, discutidas e aprovadas, devia ser composto por gente de trato igualmente nobre, exemplar, sério e honesto, e não estar a ser invadido por ácaros e parasitas deste tipo.
Nunca morri de amores por parasitas; aliás, sempre os combati como pude, mesmo em criança, quando me perseguiam na escola. Penso que nos dias de hoje, se o velhinho “quitoso” já não se mostrar eficiente e actual, usem outro! Talvez o mais adequado e nobre para este combate seja aquele ciclicamente disponível. Usa de uma eficácia rara e perfila-se como o mais elementar direito de cidadania – as eleições!

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O "monge virtual"

Para quem segue a informação televisiva diária e vai fazendo os seus “zappings” frequentes, deparou-se, com certeza, na passada segunda feira, com uma nova “cara informativa” que a estação de televisão SIC apresentou aos seus telespectadores. Bonita, atractiva e apelativa, dirão os autores deste arrojado projecto!
Neste novo “plateau” parece nada faltar: existe um forte contraste nas cores utilizadas, constituídas por tonalidades muito fortes e muito bem definidas. Paralelamente, o ambiente informativo faz-se “passear” no estúdio por cenários virtuais muito pensados, que emprestam à “encenação jornalística”, uma forte e vincada influência britânica, bem ao jeito da mítica “Sky News”, gerando neles, um verdadeiro ambiente “hollywoodesco”, onde tudo parece circular e colocado ali, à nossa mercê!
Mas…, nestas coisas da informação e da sua veracidade, haverá sempre quem se interrogue, sobre o que se passará por detrás daquela grande “virtualidade jornalística”? Se direccionarmos a nossa reflexão sob um ponto de vista meramente formal, este novo visual apresenta-se-nos irrepreensível e apelativo. Todavia, ao telespectador é-lhe sugerido também, um outro olhar adicional, mais completo, abrangente e, sobretudo, acompanhado de uma visão crítica também, afim de compreender o porquê da mudança verificada.
Há já algum tempo que os blocos informativos dos diversos canais televisivos foram sendo cada vez mais extensos e maçadores. Penso que será comummente aceite esta afirmação! Ora, isto acaba por provocar perdas de audiência, e é aqui que entra o tal “zapping”. Os canais televisivos, para se precaverem deste desinteresse instalado, acabam por reconhecer a necessidade do recurso a “artimanhas” para cativarem e combaterem esse mesmo desinteresse do público.
Felizmente, com alguns conhecimentos que possuo sobre o “modus faciendi” de alguns destes recursos, isto não deixa de me provocar um certo vazio e alguma desacreditação ao saber que, no lugar de um globo terrestre que “circula” nas costas de um “pivot”, está uma redacção como tantas outras, composta por computadores, jornalistas e material acessório! Depois, não sou apreciador do recurso frequente a planos demasiado abertos, colocando o jornalista desamparado, num fundo virtual e à mercê do seu desempenho. Não me agrada igualmente o aparecimento de tantos “oráculos”; de tanta informação em rodapé e em simultâneo, ao estilo do canal de negócios “Bloomberg”. Com tudo isto, a atenção acaba por se dispersar por pontos ou motivos que talvez não sejam os mais importantes. Acho tudo demasiado virtual, redondo e de grandes dimensões, embora irreais, claro!
É nestas confusões do real e do virtual que nos mexemos e para onde direccionamos o nosso futuro. Muitos, os mais distraídos até acreditam nesta “nova realidade”. Outros, os mais precavidos acabam por se ir “aculturando” com esta “nova cara”. Quem sabe, daqui por alguns meses, com o hábito diário, o meu olhar fique “melhor educado” para estas sucessivas virtualidades e eu possa, sobre ele, dizer maravilhas. Afinal, segundo reza a História, foi o “hábito que fez o monge”!

terça-feira, fevereiro 21, 2006

De Marshall a Schuman, passando por Bolonha!...

O Ensino Superior em Portugal passa por momentos expectantes e de profundas mudanças. No seu horizonte perspectivam-se alterações estruturais importantes, quando nos vemos confrontados com a aplicação do promissor "Processo de Bolonha".
E o que é afinal o Processo de Bolonha? Nada ou pouco mais que isto, saberão muitos por esta altura! A informação fornecida pela tutela é escassa e, aqueles que tentam encontrar resposta para tão grande “empreendimento” esbarram quase sempre nas indefinições e indecisões das pessoas envolvidas. A única coisa que se vai sabendo é que o tempo urge, para que ele seja posto em prática!
Antes de mais, convém esclarecer sobre o que envolve este Processo? Em traços muito gerais, é uma mudança que visa uniformizar o Ensino Superior no espaço europeu, tornando o “Velho Continente” numa vasta área de ensino supranacional. Esta modalidade irá conseguir, de uma forma muito clara, uma grande mobilidade estudantil entre países e, ao mesmo tempo, permitir que as várias graduações obtidas, tenham a mesma validade, independentemente do país ou países aderentes onde os alunos se tenham graduado.
Tudo isto, dito desta forma, afigura-se-nos de um “trivialismo primário”. Todavia, a realidade estudantil dos diversos povos envolvidos não é assim tão uniforme, encontrando-se o ensino no vasto espaço europeu, a caminhar por vários e muito diferenciados caminhos.
Portugal, pelo atraso que sofreu relativamente a outros países, nomeadamente na segunda metade do século XIX e quase todo o século XX, sentirá hoje dificuldades acrescidas, quando chamado a ombrear com outras nações. Embora com a democratização do país, muita dessa distância tenha sido encurtada, há aspectos estruturais para os quais será ainda hoje muito arriscado caminhar lado a lado com alguns deles.
Mas, como dizia Fernando Pessoa, se “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”, há que acreditar no esforço e na capacidade das pessoas envolvidas. Foi com uma Europa dilacerada, destruída e devastada por ódios profundos, que no pós-guerra terá sido possível a sua reconstrução, através da aplicação do famoso Plano Marshall. Mais tarde, mesmo com as evidentes assimetrias, foi igualmente possível a Robert Schuman (ministro francês e "pai" da unificação europeia – 1950), com um profundo sentido de união e de solidariedade, deitar “mãos à obra” na construção deste amplo espaço político, económico e social, perspectivando no seu horizonte, uma Europa unida, viva e organizada.
Se nas palavras de Schuman, esta união “…não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas…” então, há que empreender todos os esforços e tentar agarrar o “pelotão da frente” da educação! Com certeza que, para tão grande causa não faltarão “corredores” de fundo, de montanha ou mesmo “sprinters”. Por mim, preferia uma equipa organizada, onde o objectivo de todos fosse igual: o de chegar ao fim, se possível, com a camisola amarela! A ver vamos!

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

As "cruzadas" do terrorismo

É frequente ouvir dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras. Eu acrescentaria que ela é capaz de gerar igualmente mil e uma manifestações populares, pelo que se vê hoje em dia! Manifestações compreensivas, por vezes, mas outras, completamente descabidas e despidas de qualquer fundamento. Falo, claro está, das reacções últimas que os “cartoons” publicados por alguns jornais, sobre o profeta Maomé, e que despoletaram um verdadeiro estado de histeria, destruição e ódio, junto da vasta comunidade muçulmana dispersa pelas mais variadas latitudes.
Sem querer usar de um qualquer chauvinismo primário, gostaria de reflectir, tentando saber como é que reagiria o mundo muçulmano se, cidadãos ocidentais, colocassem em locais importantes e emblemáticos do Islão, engenhos explosivos e os fizessem explodir, provocando neles, milhares de mortos? Como reagiriam se, em áreas populosas como Jacarta, Islamabad ou Damasco, “terroristas” ocidentais colocassem nas respectivas linhas de metro ou de comboio, potentes bombas destruidores, capazes de assassinar centenas ou milhares de pessoas inocentes e indefesas?
Pois é; se meia dúzia de caricaturas, fazendo jus ao mais nobre direito – o da liberdade de expressão - despoletaram tamanho alarido, provocando tanto ódio, tanta ira e tanta raiva para com tudo aquilo que é ocidental, eu imagino o que teria acontecido se os tais defensores do profeta tivessem sido atacados à porta dos seus próprios “aposentos”, como sucedeu nos ataques terroristas sobre as torres gémeas, em Nova York e, posteriormente, na estação de caminho de ferro de Atocha, em Madrid?
Há muito que acho estas manifestações completamente descabidas, orquestradas e alheias de qualquer fundamento ou razão; senão vejamos: elas começaram por ser organizadas junto das embaixadas da Dinamarca e da Noruega, países onde foram inicialmente publicadas as caricaturas. Se estivermos atentos às imagens que ultimamente nos vão chegando através dos vários e insuspeitos canais de televisão, elas mostram-nos o alastrar das manifestações a outros países muçulmanos, num verdadeiro efeito de “multiplicação dos pães” e, ao mesmo tempo, a ira e o ódio voltam-se contra outros países como Israel, Estados Unidos e Inglaterra. Porquê esta nova vaga revoltosa, agora contra estes países se eles não estiveram envolvidos nas tais publicações?
A Europa e a sua sociedade há muito que se tornaram num vasto espaço laico, com uma efectiva separação entre o Estado e a Igreja. Ora, para uma salutar convivência entre o mundo muçulmano e o mundo ocidental, aquele terá de seguir as pisadas deste. Caso contrário arrisca-se a um hermetismo civilizacional, provocando clivagens cada vez mais acentuadas e insaráveis no dia a dia das sociedades envolvidas.
É aqui, a meu ver, que reside o cerne do problema. É o ódio de estimação para com os judeus e seus aliados e, ao mesmo tempo, é a existência de um forte poder teocrático, dominado por "Ayatollah's", "Sheikh's" e "Imã's" a decidirem o destino desses países, confundindo e fundindo aspectos políticos e religiosos num só. A coabitação entre os poderes religioso e político são uma realidade, provocando junto das classes mais vulneráveis e carentes, facilmente manipuláveis, verdadeiros estados de “paralisia intelectual”, levando-as a cometer gigantescas acções terroristas, a troco da tão propalada e sempre prometida, salvação eterna. Eterna ou efémera, ela está ali à distância de um “clic”. É só accioná-la!
Contrariamente ao que vi expresso há dias num “slogan” muçulmano – “morte à liberdade” – eu preferia que eles eternizassem a morte com vida, em vez de eternizarem a vida com as horrendas mortes!

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O cão que mordeu o homem!...

As assimetrias geográficas e o país a dois tempos – o da interioridade e o da urbanidade – acabaram por provocar em Portugal, durante algumas décadas, um profundo atraso junto das populações que habitavam esse interior rural, apresentando-se à época, profundamente deficitário em serviços essenciais, barrando-lhes o acesso a determinados meios, sobretudo de comunicação e de informação.
Foi por causa dessas assimetrias então vividas, que muito tardiamente comecei a ser um consumidor de televisão, sobretudo se me comparar com outras crianças da minha idade e que habitavam em outras latitudes territoriais.
Este impedimento precoce permitiu que mais tarde, eu olhasse para o fenómeno televisivo de uma forma mais consciente, mais adulta e com um espírito crítico e capacidade de escolha um pouco diferenciados. Cedo ganhei uma grande empatia pelos “Telejornais” que ainda hoje se posicionam nos meus “tops” de audiência.
Como me lembro ver um “Telejornal” com a duração de trinta minutos, comportando, apesar do tempo exíguo, várias rubricas: as notícias propriamente ditas, o desporto e, no final, lá vinha o meteorologista Anthímio de Azevedo a elucidar-nos sobre as previsões do estado tempo. Tudo isto, na época, servia na plenitude, para formar e informar os portugueses.
Como a geografia territorial de Portugal não se alterou e como a população decresceu grandemente, não consigo arranjar uma explicação aceitável (eu disse aceitável!) para que hoje em dia, os tais “Telejornais”, agora já sem a familiar e mítica figura do Anthímio, demorem uma hora ou mais a serem apresentados!
Às vezes dou comigo a pensar: se calhar, nos tais tempos de que falei no início, andávamos mesmo mal informados! Mas depois, reflicto de novo: será que a televisão, para além de formar e informar, não estará agora também a deformar a cabeça das pessoas?
Desde os meus primeiros passos dados nos bancos do “liceu”, onde me iniciei nestas andanças do estudo de fenómenos relacionados com a comunicação humana (jornalismo), que o meu professor se fartava de dizer que, a notícia não era “o cão que mordeu o homem” mas sim “o homem que mordeu o cão”!
Partindo desta premissa, agora percebo então a eternidade dos “Telejornais”! É notícia, o médico palestiniano que dá consultas em Vila Real; é notícia, a Dra. Fátima Felgueiras que vai fazer a sua oração a Fátima; é notícia o menino que nunca terá visto televisão nem homens negros mas que adora o Mantorras! Tudo isto é notícia, imaginem!
Mas ninguém se importa aprofundar porque é que é preciso virem médicos estrangeiros para trabalhar em Portugal, quando os temos cá ou podíamos ter; ninguém quer saber como é que a Senhora Presidente organizou tamanha excursão e quem a pagou e, finalmente, o tal menino já se “assustou” com o Mantorras e nunca mais ninguém ouviu falar dele!
Afinal, de lá para cá já tudo se inverteu. O tal "cão" passou a atacar fortemente o homem. Só espero que não nos ataque a todos, para que não nos transformemos numa sociedade totalmente “enraivecida”!...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

"Day after"

Alegrem-se meus amigos, hoje é o dia dos namorados!
Ai é, dirão os mais distraídos! Sim porque por esta altura, mesmo distraídos, é quase impossível o cidadão comum não reparar no que se festeja! Não é que, com este dia e com este festejo, o relacionamento entre os vários pares passe a “rolar” melhor, nada disso! O mais importante é que festejemos o dia e, afinal, qual a melhor solução para o fazer? Comprando meus amigos e amigas, comprando! Se nos deixámos há muito subjugar por essa “sociedade do consumo imediato”, há que gastar, não importa quanto, importa sim o gesto festivo!
É por isso que hoje em dia, qualquer situação é passível de ser vulgarizada e ter um momento próprio: é o dia do pai, o dia da mãe, o dia do filho, o dia do idoso, o dia do ambiente, o dia sem carros… meu Deus, tantos dias e, afinal, o ano apenas tem 365!... E se tivesse mais?
Com tantos momentos dedicados a tantas coisas que convivem e atormentam as sociedades contemporâneas, pensava eu que o mundo passava a ser melhor, os casais ou pares se relacionavam e eram mais compreensivos e amigos entre si; os velhinhos tinham um melhor tratamento por parte da sociedade em geral; o ambiente era melhor preservado; os carros passavam a circular menos vezes, enfim… tanta coisa melhorava!
Mas… afinal não! O dia é apenas mais um. O que muda fortemente é a incessante procura desenfreada dos grandes centros comerciais, na busca do tal cartão postal com a melhor frase, não importa escrita por quem nem em que circunstâncias; é o arranjo de flores mais sumptuoso e engalanado, não importa com que mãos foi feito; é a prenda mais adequada para a situação que cada um quer (re)viver; é a procura do restaurante mais chique e delicado, enfim, tantas procuras!...
E que consequências? Afinal o que resta no “day after”? Mais do mesmo. Para além da tal sensação da carteira semi-vazia, muitos dos casais “festejantes” permanecerão mais 365 desavindos; os pais e as mães continuam na sua labuta frenética; o ambiente permanecerá maltratado e os carros continuam a poluir em “excesso de velocidade”! Perdão, queria dizer 364 dias, porque há um que é o dia do festejo!
Se calhar, era preferível não festejar apenas um, antes sim, festejar o ano todo. Talvez a carteira não se esvaziasse tanto e o amor, a compreensão e o carinho nutridos pelo próximo imperassem no seio desta nossa sociedade consumista. Afinal, não é possível fazer “Natal” sempre que o Homem quiser?
Hoje é a minha vez de pedir desculpas meus caros e caras amigas! Eu sei e reconheço que, no seio de tudo isto, haverá honrosas e saudáveis excepções!... Afinal, não é a excepção que legitima a regra?

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Informar, desinformando!

Com o forte desenvolvimento e aplicação das novas tecnologias da comunicação, o Homem, hoje em dia, coloca ao seu dispor, imagens e ocorrências, captadas nos locais mais recônditos e impensados do planeta, mostrando casos e situações que jamais terão passado pela mente humana.
Este fim-de-semana foi visto na quase totalidade dos canais de televisão mundiais, imagens de horror, praticadas por soldados ingleses no Iraque, supostamente contra-atacando autóctones que protestavam com alguma veemência, chamando à atenção para que os seus anseios e pretensões fossem atendidos.
Ora, as imagens correram mundo; muitos olhares se debruçaram sobre elas, muitos dedos esbarraram nas teclas, muita tinta se verteu e muitas ideias se esgrimiram sobre tamanhas atrocidades.
Estas novas tecnologias são sempre muito bem vindas, sobretudo quando o seu objectivo é o de chamar a atenção da opinião pública mundial para tão hediondos comportamentos, nomeadamente quando praticados por aqueles que se intitulam defensores do “eixo do bem”. Até aqui, nada haverá a repudiar a não ser aqueles comportamentos verdadeiramente animalescos, praticados pelos tais “súbditos de Sua Majestade”.
Todavia, em todas as opiniões que vi expressas, não vi, em momento algum, uma chamada de atenção para o “timing” usado na difusão das imagens. Porque terá sido que, imagens registadas no ano de 2004, apenas agora foram difundidas? Atenção, estamos no ano da graça de 2006! Quem estará por detrás desta difusão ou confusão tardia? Será que o propósito foi mesmo o de informar, de chamar à atenção, ou o de deformar e deturpar a opinião pública?
Pelo que me apercebi, as imagens não terão sido recolhidas por um repórter de imagem ingénuo. Ora, se a pessoa que as recolheu ficou tão entusiasmada e, posteriormente, tão impressionada, porque não partiu então em direcção aos jovens espancados e os tentou libertar de tamanho pesadelo? Com tão nobre gesto, sempre seria agraciado por Sua Alteza Real! Porque exultava de tanta fúria e raiva? Afinal, pactuava com tudo aquilo!
À luz da tal “liberdade de expressão” tão em voga hoje em dia, sou livre de pensar que as imagens do espancamento daqueles jovens terão permitido o encaixe de largos milhares de libras, quer ao suposto “repórter”, quer ao sensacionalista tablóide inglês. E chamam a isto “liberdade de expressão”!
Não quero acreditar que haja alguém que ache que as guerras se fazem com palavras mansas e com regras. As guerras são apenas uma parte de tudo aquilo que este fim-de-semana todos vimos: atrocidades, mortes, sofrimento, devastação e loucura. Afinal, porque se terá dado tanta ênfase a este caso das imagens se, quando um qualquer suicida mata (eu disse mata) algumas centenas de indefesos e inocentes e pouco ou nada se diz? Já tudo é normal? Gostava sim que se apurassem, não só os prevaricadores destes espancamentos, bem como, os verdadeiros aproveitadores das desgraças de outrem. Caso contrário, no futuro, situações como estas acabarão vulgarizadas.
A quem terá interessado esta gigantesca divulgação, sobretudo nesta época tão conturbada entre os dois mundos: o muçulmano e o ocidental? Não quero acreditar que aconteceu como nos “cartoons” que foram publicados na Dinamarca em Setembro passado e, posteriormente, publicados num diário egípcio, imagine-se! No entanto, apenas agora, após a eleição do Hamas na Pelestina, é que foram retiradas ilações! Só espero que não voltem a pedir desculpa, dizendo novamente que as imagens, afinal eram falsas!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A impressão do "Impressionista"

Como pessoa interessada por assuntos que se relacionam com a História da Arte Moderna e Contemporânea, hoje decidi, num tributo a uma figura emblemática e inigualável da pintura impressionista europeia, escrever alguma coisa sobre ele.
O seu nome é Vincent Van Gogh, figura ilustre que nasceu no coração da Europa, na Holanda, em meados do século XIX, período áureo e próspero de um desenfreado crescimento económico e de fortes transformações sociais. É com este homem que nascem as bases da pintura do século XX.
Este holandês teve uma vida conturbada, com sucessivas doenças de foro mental que o levaram a uma morte precoce. Apesar de não ser propriamente um membro da Escola Impressionista, foi desta que Van Gogh retirou as suas maiores influências para a sua obra pós-impressionista, da qual terá sido o seu maior expoente, ao lado de artistas como Gauguin e Paul Cézanne.
A luz e o movimento, utilizando pinceladas soltas tornam-se o principal elemento da sua pintura, onde geralmente as telas eram pintadas ao ar livre para que ele, o pintor, pudesse sentir melhor as particularidades da natureza. Os quadros pintadas deviam ser o reflexo da primeira impressão do artista perante um cenário natural.
Apesar de todo o talento artístico reconhecido nos dias de hoje, Van Gogh não sentiu a fama nem a fortuna em vida. Este verdadeiro mago da pintura apenas chegou a vender um único quadro seu. Durante os seus 37 anos de vida, passou fome e frio, viveu em barracos e conheceu a pobreza absoluta. Foi quase sempre ignorado pela crítica e pela maior parte do mundo artístico. No entanto, terá vivido o suficiente para nos deixar importantes testemunhos vivos e marcantes da sua arte. Van Gogh apenas se tornou numa figura célebre e lhe foi reconhecido o seu génio após a sua morte. Hoje, os seus quadros encontram-se entre os mais caros e apetecidos do mundo. Se as 37 jovens primaveras deram tempo para tudo isto, o que não daria se a precocidade não o tivesse atingido?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

"Sensibilidade e bom senso"

A “liberdade de expressão” é um termo muito ambíguo, que permite interpretações diversas e, quando invocado para legitimar uma qualquer tomada de vista, que à priori se prevê fracturante, ele deve ser muito bem repensado, sem quaisquer tipos de leviandade por parte de quem o argumenta.
Isto vem a propósito da publicação num jornal dinamarquês e, posteriormente, num jornal norueguês de “cartoons”, caricaturando o profeta Maomé, colocando-o na pele de um bombista, utilizando para o efeito, iconografias próprias, numa clara alusão ao terrorismo desenvolvido no mundo muçulmano.
Estas publicações geraram já um estado de verdadeira loucura no mundo islâmico, sobretudo, junto de facções ou países mais fundamentalistas e radicais como a Síria, Líbano ou mesmo a Palestina. Gigantescas manifestações de rua foram organizadas, bandeiras e embaixadas dos países envolvidos nas publicações foram assaltadas e queimadas; enfim, acontecimentos sempre lamentáveis e desnecessários.
É muito fácil encobrirmo-nos sob a capa da “liberdade de expressão”, todavia, devemos utilizá-la então à luz de uma total coerência. Lembro-me, por exemplo em Portugal, a celeuma causada nos anos noventa, a propósito da irredutibilidade por parte da Igreja Católica, na ideia da não utilização do preservativo nas relações sexuais. Então, no jornal “Expresso”, o cartonista António, a este propósito, caricaturava o Papa João Paulo II, colocando-lhe um preservativo no nariz.
Confesso que não me chocou, contrariamente a muitos outros mas, como católico, obviamente que achei uma blasfémia colocar semelhante “apetrecho” e logo ali, naquela figura tão querida e emblemática para o mundo católico! Foi uma verdadeira falta se sensibilidade e de bom senso, sobretudo se olharmos o nosso país como um país marcadamente cristão. Isto levou a um dos maiores abaixo-assinados, ocorridos em Portugal, repudiando esta atitude.
Por outro lado, a todos os que hoje se encobrem por detrás da tal capa da “liberdade de expressão”, gostaria de imaginar o que sentiriam eles, quando há uns anos, nos Estados Unidos, foram postas a nu práticas pedófilas levadas a cabo por padres católicos, se alguns jornais muçulmanos tivessem satirizado, mostrando por exemplo, um Cristo em poses pedófilas? E o que sentiriam se fossem caricaturados judeus com todas as suas práticas e com todo o passado que os envolveu e que todos nós conhecemos?
É verdade; quem não se sente, não será filho de boa gente! Esta é uma máxima ainda actual e sempre muito em voga. É por isso que hoje compreendo a ira de alguns muçulmanos. Todavia, torna-se incompreensível a exagerada dimensão dada ao assunto, bem como o ódio e a brutalidade com que o tratam. Afinal, usando de novo da tal coerência, por onde andavam estes fervorosos defensores do Corão, quando em 2001, o regime talibã do Afeganistão derrubou os seculares Budas aí existentes, afirmando que estas gigantescas estátuas eram um insulto ao Islão?
Independentemente das liberdades ou falta delas e do bom senso a elas associado, há temas e ícones muito delicados e sensíveis para os podermos caricaturar e vulgarizar. Sinceramente, preferia que não descêssemos os nossos deuses à Terra e os tornássemos, simplesmente, em “primus inter pares”.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A paz armada

Quando Albert Einstein desenvolveu a revolucionária teoria da relatividade, jamais terá pensado que, toda a dedicação e esforço, empreendidos ao longo de muitos anos de trabalho e de investigação, acabariam por ter aplicações adversas. A utilização desta teoria, no desenvolvimento e fabrico de devastadoras armas atómicas, lançadas em território japonês, não terá passado certamente pelas suas cogitações.
Num mesmo prisma, situam-se as centrais nucleares que, quando activas e colocadas ao serviço do bem-estar das sociedades, proporcionam a estas, alguns dividendos económicos, conseguindo a generalidade das populações a elas afectas, substanciais melhorias nas suas condições de vida. Quem não se lembrará dos avanços económicos e tecnológicos que a Ucrânia registava antes da catástrofe ocorrida na central nuclear de Tchernobyl, em Abril de 1986?
Estas duas inovações que acabo de mencionar são a prova de que, quando algo verdadeiramente revolucionário é descoberto, desenvolvido e aplicado em prol da satisfação humana, proporcionando melhorias consideráveis junto das várias sociedades abrangentes, é algo que enche de orgulho os seus mentores.
Todavia, o inverso também sucede. Ultimamente, anda muito presente, a irredutibilidade preconizada por Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irão, relativamente ao pretenso regresso do seu país à exploração de energia nuclear. O argumento deste alto responsável persa reside, segundo ele, no facto de o país se encontrar deficitário em termos energéticos. Como poderá o segundo maior produtor de petróleo, argumentar com este “deficit”? Isto é aquilo a que vulgarmente dizemos, “atirar com areia para os olhos”!
Fazendo um mero exercício de memória, esta procura nuclear tem a ver com a esquizofrénica ânsia pelo poder e pelo domínio que Ahmadinejad pretende ver exercido sobre países vizinhos, provocando neles uma forte pressão, quer a nível político, quer sobretudo, a nível religioso, defendendo um “mundo sem o sionismo”, onde “Israel deveria ser apagado do mapa”. Obviamente que, palavras deste teor não são merecedoras de grandes predicados, contudo, elas carecem de uma aturada atenção por parte dos grandes líderes mundiais.
A História sempre se encarregou e encarregará de nos fazer os seus julgamentos. Graças a ela, foi possível perceber como é que dirigentes como os Reza Pallevi ou Khomeini tenham passado e o Irão, esse grande país, tenha permanecido com tudo o que a ele se associa!
Se o mundo segue com alguma perplexidade este tema, não deixa de causar alguma estranheza que o Presidente francês, Jacques Chirac, se tenha equiparado ao seu homólogo iraniano, afirmando que, se o seu país se sentir ameaçado, responderá na mesma moeda, numa clara alusão ao uso de armas nucleares! Afinal, porquê criticar países como o Irão e a Coreia do Norte pela sua procura desenfreada dessas aterradoras armas, se os gauleses também as têm? Onde pára afinal o tratado de não proliferação de armas nucleares assinado entre tantos países? Ou será que ele apenas se aplica relativamente a alguns?

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Será o "povo quem mais ordena"?

Em democracia, aquela máxima em que “o povo é quem mais ordena”, nem sempre é condizente com os anseios da generalidade das populações, pelo mais paradoxal que nos possa parecer. O povo, através do exercício do seu direito de cidadania, escolhe, de entre diversos candidatos a sufrágio, aquele ou aqueles em quem mais confia os seus próprios destinos. É certo que, por vezes, muitos destes candidatos maquinam ideologias e projectos através de um consertado, populista e demagógico discurso, induzindo as populações em erro.
O que se vinha a passar, nos últimos tempos, no Médio Oriente, sobre o relacionamento entre a Autoridade Palestiniana e Israel, fornecia-nos indicadores muito positivos, na busca da harmonia entre estes dois povos. Embora muito poucas pessoas acreditassem, estavam a ser dados passos largos e muito importantes, rumo a uma concórdia entre estes dois povos, há muito desavindos e de costas voltadas.
Não quero aqui colocar um tom de culpabilidade deste ou daquele lado. Por vezes, isso até nem é o mais importante. O que é verdadeiramente fundamental é a solução deste conflito ideológico e geracional, que tantas vidas já ceifou e que se arrasta há já muito tempo. Sempre defendi que, se a “troika” entre estes dois povos e a representação americana não funcionava, havia que arranjar outros interlocutores para mediarem este processo. Entretanto, Israel faz marcha-atrás, retirando-se dos colonatos ocupados e a Palestina, com o desaparecimento do seu carismático líder – Yasser Arafat, torna-se mais dialogante, permitindo negociações importantes, rumo a um efectivo processo de paz.
Perante estes dados, os últimos tempos indicavam-nos uma aproximação de ideias, um apaziguar de desavenças, provocando uma maior estabilidade. Com esta crescente normalidade, organizaram-se na Palestina eleições livres e, para espanto de muitos, “o povo ordenou” mesmo e decidiu dar o seu voto de confiança a um partido, considerado pelo mundo Ocidental como terrorista e fundamentalista – o Hamas.
Quantos de nós já ouvimos falar deste partido? E em que circunstâncias o conhecemos? Pois é, ele encontra-se associado a verdadeiras chacinas perpetradas em autocarros, em restaurantes e bares israelitas, matando centenas de pessoas inocentes, levando por diante um ideal de fanatismo religioso. Por outro lado, não se inibem de atacar importantes alvos onde permanecem cidadãos ou interesses ocidentais como foi o caso da bela estância balnear egípcia de Sharm-el-Sheik.
É certo que, nem sempre os dirigentes israelitas terão usado das estratégias mais condizentes e adequadas, atacando e assassinando líderes do Hamas, com sucedeu com o Sheik Yassim mas, com os passos ultimamente dados, esperava-se um desfecho diferente, para melhor.
Com os resultados eleitorais que se conhecem, os palestinianos deram uma vitória tão clara quanto inesperada do Hamas sobre o partido que há muito vinha conduzindo os destinos da Autoridade – a Fatah. Assim, os palestinianos escolheram um partido que não reconhece o Estado de Israel e, está-se mesmo a ver, o povo ordenou sim mas, com consequências imprevisíveis. Quem sabe, até desastrosas. Hamas ou Fatah, tanto faz, só espero que populismo e fanatismo não rimem com terrorismo e que as armas, essas sim, sejam silenciadas pela tão desejada paz!