quarta-feira, novembro 30, 2005

A "profanação" da História

Nos últimos dias, a propósito da invasão indonésia de Timor, ocorrida em 1975, veio a lume na Comunicação Social portuguesa, a polémica provocada pelo acesso e abertura das cartas trocadas entre os altos representantes do regime indonésio, dos congéneres norte-americanos e dos representantes do Estado português.
De então para cá, muita tinta “passeou” de mão em mão, muitas ideias foram debatidas e muitas teorias defendidas. A propósito ou não, foi até condecorado com o Prémio Nobel da Paz, o senhor Henry Kissinger que, nessa altura, era Secretário de Estado americano.
Existem diversas teorias e documentos que provam aquilo que há muito se sabe. Este senhor, considerado por muitos um “estadista inigualável”, cometeu algumas atrocidades, estando mesmo por detrás do derrube e do suicídio do eleito presidente chileno – Salvadore Allende.
Como se esta monstruosidade não bastasse, sobretudo pelo jogo de interesses geo-estratégicos que esta medida envolvia, também as cartas abertas acabaram por mostrar que este americano esteve envolvido na maquinação da invasão indonésia sobre Timor.
Por isto se vê que é sempre possível fazer e escrever a História com toda a veracidade, desde que os documentos sejam preservados, inalterados e passíveis de acesso público aos vários interessados. Foi através do acesso às diversas fontes que foi possível obter estes elementos, possibilitando a reconstrução de um emaranhado e labiríntico puzzle.
Há dias, numa notícia veiculada pela mesma Comunicação Social, fazia-se eco de que iam ser vendidos em hasta pública, em Lisboa, um conjunto de cartas, documentos, fotografias, livros com dedicatórias, projectos pertencentes a importantes personalidades políticas do Estado Novo, alguns com a classificação de “confidencial”; documentos escritos por Oliveira Salazar, Marcello Caetano e Américo Tomás.
Podemos não gostar do senhor Kissinger, do senhor Shuarto, ou dos ideólogos e mentores do Estado Novo. Uma coisa que não podemos nunca é virar as costas à nossa História, qualquer que ela seja.
A meu ver, é através de documentos escritos pelas mãos de Guttemberg, Galilleu, Newton, Rousseau, Napoleão, Hitler, Einstein, Salazar, Gorbatchov, Clinton ou de Karol Wojtyla que a História se faz. Eles fazem parte da vida de uma qualquer sociedade, Nação ou Estado, independentemente das invenções ou ideologias que cada um difundiu e da sua importância perante a humanidade.
O que se passou com a recente venda pública deste importante espólio nacional é uma atitude vergonhosa e “terceiromundista”. E falávamos nós tão mal acerca da destruição dos “budas” levada a cabo no Afeganistão!...

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