terça-feira, outubro 30, 2007

"Filhos do Photoshop"!...

Sempre ouvi dizer que não devemos brincar com coisas sérias mas hoje, apetece-me inverter esta premissa. Passados que foram tantos meses, em que tanto se contou e inventou e tanto alarido se fez em redor do mediático, gasto, enfadonho e original caso McCann, que me senti na obrigação de a ele adicionar também a minha opinião. Há muito que estes invulgares britânicos me vêm aborrecendo com as suas paranóias. Por isso, é chegada a minha vez de usar de alguma ironia. Afinal, parece que o sol quando nasce é para todos!
Logo no início desta novela, não me pareceu nada normal que um casal de gente que aparentava um ar natural e uma vida comum a tantas outras pessoas, fizesse um tamanho alarido nunca dantes visto, sobre um pseudo desaparecimento, socorrendo-se de todos os media e mais alguns que, graças a um forte jogo de influências políticas e de poder, rapidamente puseram meio mundo “à cata” de uma jovem, alegadamente raptada.
Logo aqui me apetece substituir a teoria do “alegadamente raptada” pela do “seguramente abandonada” (pelos pais) como já foi provado. No entanto, depois dos seus invulgares comportamentos e de todo este “show off” maquinado por este egocêntrico, paranóico e demente casal, hoje tenho razões para acreditar que estamos perante um “verdadeiro” fenómeno virtual.
À luz desta minha linha de pensamento, a criança de nome “Madeleine” não existe nem nunca terá existido. Os seus progenitores, donos de uma admirável astúcia e imaginação, terão seguido as pisadas do nosso portuguesíssimo Fernando Pessoa, quando animou os seus heterónimos, dando-lhes um nome (ex. Álvaro de Campos), uma idade, uma profissão, habilitações. Desta forma, também este casal criou o seu heterónimo, com um detalhado perfil, cujo nome passou a ser Madeleine McCann.
Fruto de uma sagaz utilização das renovadas tecnologias que o cidadão comum tem ao seu dispor e de um bom domínio informático, este casal, socorrendo-se do programa informático de edição de imagem – “Photoshop”, terá dado contornos reais a um projecto imaginário que há muito percorria a sua mente. Assim, graças a esta singular capacidade criativa, atribuíram-lhe um nome, uma data de nascimento, com uma idade e um perfil com aturado detalhe.
Quem sabe, fruto de uma mente “idiota” (fértil em ideias), este casal não busca nesta encenação à escala global um bom “estudo de caso” capaz de suportar um original tema de investigação para um qualquer doutoramento? Talvez busquem uma resposta sobre como criar um fundo de solidariedade internacional sustentada nesta compassiva ideia?
Porque será que esta família nunca terá sido vista acompanhada com três crianças, mas apenas com duas? Porque terá sido provado que Gerry não é o pai biológico da criança desaparecida? Por outro lado, não há qualquer indício de que o casal tenha entrado em Portugal com três crianças nem, até ao momento, terá sido descoberto qualquer registo de nascimento com o nome de Madeleine McCann, filha do casal.
E ando eu tão ansioso e absorvido a estudar as consequências que o sistema digital provocou no dia a dia das pessoas! Querem melhor exemplo do que os “filhos do Photoshop”?...

sexta-feira, outubro 26, 2007

A beleza campesina!...




Quem nasceu, cresceu e se habituou ao ambiente urbano, com todas as suas virtudes, vícios e práticas e desconhece o lado oposto, ou seja, o ambiente rural, campesino e quase sempre agrícola, não imagina a ignorância em que vive e a perda que este desconhecimento provoca.
É certo que, na maior parte das grandes urbes, a oferta de serviços, de entretenimento e de iniciativas culturais se afigura desigual. No sentido inverso, o campo oferece-nos calma, tranquilidade, liberdade e aquela paz que tanto desejamos nos dias que correm.
É comum sentir nas sociedades urbanas actuais problemas relacionados com o stress, cansaço e esgotamento psíquico. Ora, quando falamos de esgotamento psíquico junto de um qualquer aldeão, é ver o seu semblante de espanto! Perguntar-me-á ele: e o que é isso de esgotamento? Provavelmente, pensará para com os seus botões: deve ser uma extenuação provocada pelo árduo trabalho braçal que diariamente exerce!
Não quero aqui exprimir a supremacia da cidade sobre o campo ou vice-versa. Simplesmente penso que o campo exerce sobre mim um forte determinismo que me provoca a sua preferência quando procuro aquela tão desejada autenticidade, a paz e a vida saudável. Nesta linha de pensamento, o poeta Cesário Verde “pintou” e exprimiu como ninguém esta dicotomia entre o frenesim doentio da cidade e o bucolismo saudável do campo.
Aproveitando a sua linha de pensamento, cabe-me caracterizar com imagens o porquê da minha preferência. Afinal, o campo é um espaço de vitalidade, de alegria, de beleza que nos oferece uma vida saudável em contacto directo com a natureza! As paisagens apresentam-se como verdadeiras aguarelas vivas e à mercê de um simples olhar. Porque não aproveitá-las?
NR: As fotos são a visão do autor.

terça-feira, outubro 16, 2007

Há muito, muito tempo!...

Quem já viveu a casa dos vinte, dos trinta e se passeia pela dos quarenta teve e tem a grata oportunidade de se cruzar ao longo destes anos com estilos musicais diferenciados, mesmo que cantados pelo mesmo grupo ou pelo mesmo interprete.
Já por diversas vezes me deparei, ouvindo amigos, e eu próprio também, a enaltecer a valia, o brilhantismo e a preferência que damos e este ou aquele grupo musical. Muitas das vezes, essas preferências acompanham-nos desde aqueles idos anos, não nos apercebendo nós que o tempo foi passando, a música ganhou novos contornos e o cantor também foi ganhando cabelos brancos.
Quando se fala nos Rolling Stones, vem-nos logo à memória o “I can get no” ou o “Start me up”; quando nos lembramos dos Dire Straits vem-nos à recordação o “Walk of life” ou “Sultans of swing”; quando evocamos os Scorpions, o “Still loving you” é, por assim dizer, o seu mais famoso cartão de visita.
Como em tudo, a vida também passa e, a interpretação dada a estas “populares” canções pelos seus grupos, tornou-se hoje muito diferente. Diferente porque os tempos mudaram e diferente porque a genica, a forma física e outros factores naturais levaram a estas alteradas interpretações.
Ouvir hoje Bob Dylan, Roger Waters ou Peter Gabriel soa a um certo suplício pois já não se apresentam acompanhados da voz, do fulgor e do brilho de outrora. Porventura, e deixando escapar um laivosinho de ironia, a cadeirinha de rodas seria talvez o instrumento mais aconselhado de acompanhamento!
Por outro lado, uma vez que a idade retira muito do esplendor aos vários interpretes, não é menos verdade que, se o retira às canções antigas e conhecidas, também o afasta nas novas canções, muitas vezes entoadas de forma diferente e sempre debaixo de uma glória póstuma, outrora conquistada.
Definitivamente, prefiro continuar a ouvir o “Start me up”; o “Another break in the wall”; o Sultans of swing; o Caetano Veloso com o seu maravilhoso e arrasador “Silêncio” ou os “Vinte anos” do José Cid do que ouvir da boca destes embaixadores da lusofonia, agora na casa dos sessenta, novas canções como “Estou-me a vir” ou “Favas com chouriço”.
As mudanças são e serão sempre bem vindas mas… também não era preciso tanta originalidade!...

quinta-feira, outubro 04, 2007

Ai se houvesse monarquia!...

No passado mês de Agosto celebrou-se o centenário do nascimento do médico Adolfo Correia da Rocha que, fruto de uma vasta e excepcional obra poética e literária, conhecido pelo pseudónimo de Miguel Torga, acabou por deixar marcas bem esculpidas na cultura portuguesa.
Começa a ser familiar e é com alguma naturalidade, que estes eventos são acompanhados e presenciados por destacados membros do Governo, sobretudo por aqueles que se encontram mais ligados às áreas da Cultura e/ou da Educação. Muitas das vezes até marcam a sua presença sem que o evento o mereça mas, não seria certamente este o caso, dado tratar-se de uma ímpar e incontornável figura da nossa literatura.
Mas, afinal o que se passou no pretérito mês de Agosto? Os membros do Governo, talvez mobilizados para banhos no Algarve; distraídos num qualquer safari pelo Quénia ou numa outra qualquer paragem, alhearam-se por completo desta efeméride, não se fazendo representar por qualquer individualidade, cujo peso e importância fossem condizentes com aquele relevante momento.
Pensei: que terá feiro o saudoso Torga para tamanho ostracismo? Terá a ver com ideais políticos? Não me parece pois, pela conversa que mantive com algumas pessoas próximas do escritor, percebi que a sua ideologia política até pendia para o flanco esquerdo!
Volvido cerca de um mês, o tal Governo que tinha acabado de ostracizar Torga, desenvolve uma engalanada e bem montada cerimónia, trasladando para o Panteão Nacional o corpo do escritor Aquilino Ribeiro, como forma de perpetuar a sua memória, enaltecendo a excepcionalidade da sua obra e o seu aguerrido carácter.
O Governo marcou presença em peso para nesta cerimónia, não se coibindo de arranjar mil e um argumentos para tamanha distinção. A meu ver, escusavam de ter ido tão longe, ou melhor, escusavam de ter ficado “tão perto” com o esquecimento dado a Torga.
Teceram-se mil e um argumentos, rasgaram-se múltiplos elogios a Aquilino e à sua obra só que, o melhor tributo que as entidades governativas poderiam ter feito era acordar os livros da sua autoria que se encontram adormecidos nas velhas e poeirentas estantes e difundi-los pelas escolas. Esta era uma velha prática na década de setenta, onde a qualquer estudante do ensino secundário se pedia como tarefa de carácter opcional a leitura da obra “O romance da raposa”, uso que com os sucessivos governos democráticos saiu da “ementa” escolar.
Mas, voltando ao dualismo comportamental do Governo perante estas duas cerimónias, parece-me óbvio que não terá sido apenas a invulgar capacidade na escrita de cada um. A avaliar pela presença e distinção, pareceu-me de grande importância o facto de Aquilino ter sido terrorista, ter participado no regicídio e ter sido anti fascista.
Com duas certezas concluo esta minha reflexão: o Governo nunca perderá tempo comigo numa qualquer cerimónia pois não tenho quaisquer dotes poéticos. Por outro lado, jamais terei assento no Panteão Nacional pois sempre renunciei ao terrorismo; o país já não tem monarca para assassinar e já não vou a tempo de ser anti fascista!
Será que ser anti populista também dá pontos? É que se assim for, ainda acalento alguma esperança!
Valha-me Santa Engrácia!...