quinta-feira, novembro 23, 2006

Os atrasos e os atrasados

Não tenho conhecimento nem dados para afirmar que esta prática tenha lugar em outros países. Acontece que, em Portugal, sempre que há uma qualquer reunião marcada para determinado horário, ninguém ou quase ninguém cumpre com o mais simples e elementar compromisso: chegar a horas. Uns argumentam com o trânsito, outros com o filho que teve de ir para o infantário, outros que o leite matinal estava muito quente, enfim, até há uma grande corrente que invoca o já bem conhecido “quarto de hora académico”, sem nunca ter posto os pés ou pertencido a uma qualquer academia.
Com este tipo de atitude, “come quem quiser” mas não contem com o meu apoio. Acho miserável; acho uma profunda falta de respeito pelo outro, aquilo que vem sendo hábito em determinados quadrantes da sociedade portuguesa.
Certo dia fui a um dentista. Era uma daquelas consultas rotineiras em que, porventura, o médico não demoraria mais do que quinze minutos a atender-me. Cheguei a horas para a consulta que estava marcada para as duas da tarde. Sentei-me e fui folheando os jornais diários e “dando uma volta” por todas as revistas cor-de-rosa que por ali havia, algumas já com anos de vida. O tempo foi passando e apercebi-me que apenas fui solicitado para a tal consulta às cinco da tarde, já depois de algumas interrogações sobre tamanha demora.
A consulta estava marcada há meses. Não fui eu quem sugeriu aquela hora nem aquele dia e, no final, restou-me pagar os dolorosos cinquenta euros que era o valor estipulado, sem qualquer esclarecimento nem um pedido de desculpas. Claro que não fiquei contente. Fiz ver e sentir isso a quem deliberadamente atrasou a minha vida naquela tarde. Resultado: nunca mais lá voltei.
Há bem pouco tempo voltei a necessitar de uma visita ao médico. Nada de especial; consulta de clínica geral, meramente de rotina e, como o “famoso” Serviço Nacional de Saúde anda mesmo doente, decidi socorrer-me de uma consulta particular, pensando eu que o tempo de espera seria nulo ou quase.
Marquei a consulta, ou melhor, o consultório encarregou-se de o fazer, escolhendo a hora e o dia adequados para mim. Cinco e meia da tarde era a hora que me destinaram. Há horinha, com a minha pontualidade britânica, lá estava eu disponível para que o “Senhor Doutor” me auscultasse. Foi-me dito, imediatamente após a minha chegada, que estava tudo muito atrasado. Ora, pensei para comigo: mas que tenho eu a ver com os outros? Marcaram-me a hora e eu aqui estou! Esperei, esperei e, confesso que desesperei perante tamanha falta de respeito pelos utentes. Já não é pelos doentes, é pelas pessoas, pelo Homem e pelo seu semelhante. Enfadonhamente, lá fui consultado cerca das sete e meia da tarde!
Ah, atenção, nem tudo foram atrasos. No final da consulta e sem demora, foi-me dito: “senhor, são sessenta e cinco euros”. E se eu me atrasasse agora também? E se eu cobrasse ao médico oitenta euros pelas duas horas em que me reteve?
O que levará estas pessoas, com reconhecida intelectualidade a agir assim? Talvez sejam estes os que dizem que Portugal é um país atrasado. Não meus amigos! Eu prefiro dizer que é um país de atrasados, onde o egocentrismo coabita com a prepotência e o desrespeito para com o nosso próximo! Se o tal “Senhor Doutor” um dia, quando for apanhar o comboio ou o avião, agir da forma com que o fez comigo talvez fique apeado e em terra. Por mim, ele já nem tirava o bilhete!...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Baco e as "baco(radas)"!...

Ciclicamente, as grandes superfícies comerciais fazem promoções de produtos variados, em que o valor aquisitivo desses bens confere uma possibilidade maior de compra, afigurando-se assim, acessível à carteira da generalidade das pessoas.
Para divulgar essas mesmas promoções, estes espaços costumam socorrer-se de elaborados e vistosos fascículos cuja distribuição e difusão é feita, quer nas caixas de correio de cada um, quer na compra de um qualquer jornal semanário ou mesmo diário.
É habitual nestas promoções, por exemplo, organizarem-se as feiras dos vinhos onde as marcas oferecidas são mais do que muitas, à semelhança dos valores que a elas se juntam. Por aqui há de tudo um pouco. Um bom discípulo do Deus Baco sabe que existem no país diversas regiões onde, por excelência, se produz sabia e singularmente este apetecido néctar. Todas elas esgrimem argumentos, valorizando-se, relegando as concorrentes para segundo plano.
Certamente quem se consola com este precioso líquido sabe, com certeza, identificar a sua preferência regional, em função do seu gosto e do paladar que o vinho apresenta.
Acho que o vinho é daquelas bebidas que, ou somos apreciadores ou não o somos. Meios-termos aqui não entram! E, quem o aprecia, reconhece de imediato as características que um bom “tintol” deve possuir. Estou a falar, claro está, no papel de um qualquer consumidor. Para mim, o vinho não deve possuir um teor alcoólico muito elevado, deve ter uma cor bonita e, essencialmente, um agradável sabor. Isto é, por assim dizer e em traços muito gerais, as particularidades de uma boa “pinga”.
Mas, se eu entrar pelo lado profissional, tentando obter as tais características junto de um enólogo, apercebo-me que o mesmo vinho apresenta singularidades que eu desconhecia totalmente. Vejamos a apreciação do enólogo e a linguagem utilizada: “este vinho é generoso, doce e aveludado, com um trago leve e de sabor a frutas. Os seus aromas complexos e fortes conferem um estilo incomparável. Encorpado e poderoso, cobre o paladar com aromas de especiarias e riqueza doce. É delicado, mas intensamente aromático, suave e extremamente elegante, tem a doçura da fruta, do mel, e especiarias leves. É igualmente vigoroso e robusto, rico na cor e doçura, com aromas poderosos, recordando a selecção mais complexa de aromas de frutos e perfumes silvestres”.
Quem reparar nesta adjectivação toda conclui que talvez só lhe falte mesmo falar! Bom, falar, pode não falar mas… às vezes consegue colocar as pessoas a falar até pelos cotovelos!
Será que Baco era conhecedor de todas estas particularidades? Não acredito, até porque, quando bebido em demasia, a delicadeza dá lugar à agressividade; a doçura ao intragável; a leveza e elegância, à indisposição e ao mal-estar! Ai se Baco soubesse!...

sexta-feira, novembro 10, 2006

O "paradigma" anda perdido!...

Por estes dias, tive conhecimento da publicação numa conceituada revista americana, de uma publicidade promocional do nosso país. Até aqui, a ideia parece-me oportuna não fosse o elevado custo que essa mesma publicação terá envolvido e, ao mesmo tempo, o propósito com que ela foi engendrada.
O governo português anda muito mais preocupado com o imaginário que as pessoas em geral têm de Portugal do que com a realidade que por cá se vive. Trabalha-se muito, como se diz na gíria televisiva, para o plano e para o enquadramento, deixando-se o conteúdo de parte.
Não entendo porque temos de promover o nosso país daquela forma. Percebo que o devamos divulgar para fins turísticos ou outros, capítulos onde até costumamos “dar cartas”. Agora não entendo como é que um país desgovernado como anda, o possamos pintar com cores tão garridas e alegres.
A Finlândia, um paradigma dos países modelo do recente desenvolvimento, tem mostrado ao mundo as tácticas empreendedoras desse mesmo crescimento. Não é com imagens, muitas vezes irreais e fantasiosas que se consegue essa mesma credibilização. É com actos. Cabe aqui uma citação do historiador português Alexandre Herculano, onde ele argumentava que “o Homem gosta muito mais de obras do que de palavras”. Leia este ilustre português, senhor Primeiro-ministro!
O país está a passar por um período de grandes agitações e descontentamento social, silenciados sabiamente por altos dirigentes da governação, como tem vindo a lume ultimamente na comunicação social. O desgoverno é total; a mentira e a batota eleitoral enraizaram-se nos homens do poder. O sistema democrático, para ser perfeito, deveria ser capaz de banir esta crescente classe de aldrabões e de ilusionistas.
É sabido que os funcionários da Administração Pública Portuguesa promoveram ontem e hoje dois dias de greve nacional. Depois da multiplicação de notícias fazendo eco dos já esperados enormes transtornos no normal funcionamento das instituições, lá vem o governo afirmar que a adesão à greve situou-se apenas nos 12%. Das duas uma: ou o governo mente, ou então, os tais 12% não causavam assim tantos estragos no atendimento público, sendo falaciosas as notícias vindas a público! Pelos vistos, parece que os responsáveis governativos não sabem mesmo fazer contas. Haja alguém que os ensine!

sexta-feira, novembro 03, 2006

Um "Jardim" à beira mar implantado!...

Já por diversas vezes que dou comigo a gracejar sobre o sistema democrático utilizado em alguns países que, com a aplicação do seu método, conseguem colocar no poder verdadeiros absurdos que impedem a existência de um pluralismo ideológico, político, cultural e mesmo social. Refiro-me concretamente a casos como o de Hugo Chavez, na Venezuela; Fidel Castro, em Cuba; Ahmadinejad, no Irão ou o norte coreano Kim Yong Il.
Pois é, eu troçava destes casos só que nós, também por cá os temos! Quem viu, tal como eu, na RTP 1, a entrevista da jornalista Judite de Sousa ao despótico líder madeirense Alberto João Jardim, apercebeu-se de que estávamos perante um homem, capaz de ombrear com os que atrás mencionei, despido dos mais basilares princípios democráticos, de cordialidade e de educação. Este “senhor Alberto” por momentos (e eles são muitos e longos) julga-se o dono do mundo e da verdade.
E anda o canal público de televisão, por estes dias, a convidar tanta gente a pronunciar-se sobre a figura nacional que ao longo dos séculos acham mais emblemática, gastando dinheiro a rodos! Bem que se podia poupar esse capital, promovendo antes um programa de sentido inverso: a pior figura nacional. Na minha opinião, acho que não arriscaria o pleno mas, a esmagadora maioria seria encontrada facilmente, votando massivamente na incontornável figura insular.
É inacreditável como um homem que pertence ao Conselho de Estado se porta desta maneira impetuosa e intimidatória. Este “senhor Alberto” não precisa de fundos para a sua região autónoma. Ele precisa é de se deixar de ser menino traquina e entrar de vez num sistema que se quer equitativo, deixando de vez os seus discursos inflamados e carregados de exaltação parola. Quem não se lembra da história do “senhor Silva” ou da maneira como ele se refere às mais altas figuras do Estado?
Este “cavalheiro” costuma demonstrar a sua reincidente ignorância quando chama aos continentais de “cubanos”. Ora que eu saiba, Cuba é um arquipélago, aí vigorando um regime absoluto e onde a democracia se manifesta como todos nós sabemos. Não haverá aqui uma certa inversão dos conceitos, ou será que estamos apenas na presença da manifestação primária do seu analfabetismo? Quem serão afinal os verdadeiros cubanos?
Mas, pensando bem, até se compreende. Um homem que gasta o tempo que ele gastou para concluir um curso superior e, quando o conseguiu, fê-lo com o cinzentismo que toda a gente conhece, já muita esperteza demonstra ele!
É pois chegada a hora de não alimentar mais este pagode e dar um destino adequado aos parodiantes que o alimentam. Por mim, dava andamento a um processo de descolonização iniciado no pós 25 de Abril. Assim, não tinha de pagar mais tempo de antena para este “senhor Alberto” e, ao mesmo tempo, não tinha de aturar as suas baboseiras e idiotices.