sexta-feira, abril 28, 2006

"Chaque fou avec sa maladie"

Hoje sou uma pessoa triste, amargurada e, sobretudo desapontada.
Há quase treze anos que exerço a minha actividade profissional na Função Pública. Durante este tempo, já me senti um privilegiado pelo lugar de trabalho que ocupo e que com capacidade conquistei, submetendo-me para isso a provas públicas de selecção, perante júris de inegável capacidade e insuspeitos.
Ao longo da minha curta carreira, sempre a ela dediquei tudo aquilo que sabia e de que era capaz. Confesso que muitas vezes me socorri da “universidade da vida” para, no meu local de trabalho, desenvolver projectos, ideias e novas pedagogias, capazes de projectar estes conteúdos numa melhor e mais eficaz resposta aos novos desafios que habitualmente se me colocam.
Pela resposta que me foi sendo dada durante estes anos, através da classificação de serviço elaborada pelas pessoas responsáveis, a minha dedicação, o meu empenho e o seu reconhecimento eram evidentes. Sempre obtive a máxima classificação de serviço – dez valores.
Ora, eu penso que esta mítica classificação na Função Pública, há muito que se vulgarizou, pois muitos eram os que ultimamente a obtinham! A partir de um dado momento, o tal “dez” passou, não a expressar a excelência e a invulgar capacidade de trabalho de cada um, antes sim, a estar ligado à vulgaridade, à inoperacionalidade de um sistema classificativo e a um Estado completamente desfasado e arredado da actual realidade. A "Res Publica" gera destas coisas!
Hoje recebi a minha classificação de serviço. Os números expressos ficaram muito aquém dos anos anteriores. Pela sua interpretação, concluí que andei quase treze anos enganado, sendo apenas mais um; ou então, que durante o ano de 2005 eu me “marimbei” positivamente para o meu trabalho.
Tentei fazer uma reflexão profunda e recordo que, se houve algum ano em que dei mais de mim, este foi um deles. Se houve algum ano em que mais me valorizei profissionalmente, adquirindo novas habilitações e participando em diversas acções de formação para as poder por em prática, este foi um deles. Ora, então porque é que a minha classificação de serviço terá ficado muito aquém do tal número mítico? Não sei, confesso que não sei.
Parece-me que a nova reforma na Administração Pública começa precisamente pela vulgarização dos seus quadros. Se até aqui eram todos bons e isso não podia ser, no entender da tutela, agora devem ser todos maus ou mais ou menos. Reformar, embora rime com vulgarizar, não são de todo sinónimos! E sabem quem foi o pai desta “brilhante” ideia? Bagão Félix! Há que dar então os parabéns a este senhor, que é um génio!
Bagão Félix impôs, eu repito, impôs que na Administração Pública apenas 5% dos seus funcionários poderiam ter a classificação de Excelente; 20% a classificação de Muito Bom; 40% de Bom e por aí abaixo. E o mais grave disto tudo é que, para se ser Excelente ou Muito Bom tem de haver uma justificação! Grande reforma senhor Félix, viva a mediocridade! Já viram se esta tipologia se aplicasse aos ministros, deputados, directores gerais e aos tais Félix que vagueiam pelos ministérios e por esse país fora?
O que vale é que não é por energúmenos como este cavalheiro que a minha atitude vai mudar. Dei e continuarei a dar tudo de mim para que consigamos ter uma Administração Pública moderna, capaz de levar por diante este país. Para isso, há que acabar com as “culturas promíscuas” onde o trigo dá suporte ao joio! Mondemos esta praga!
Pegando nas palavras de um ilustre economista, a “boa moeda” tem de dar cabo da “má moeda”. Para ter esta, prefiro andar com o porta-moedas vazio!

quarta-feira, abril 19, 2006

O "choque deontológico"!...

A primeira vez que ouvi falar na palavra “choque” já lá vão muitos anos. Ou melhor, os primeiros choques, eu nem sequer os ouvi, senti-os e já não me lembro muito bem deles. Refiro-me aos choques que eu dei quando, enquanto criancinha, na tentativa de imitar o “Homo Erectus”, orquestrando os meus primeiros passos, chocava com tudo aquilo que se esbarrava no meu caminho.
Estes choques depressa foram substituídos por outros: os choques eléctricos. Por essa altura, a curiosidade dominava a minha racionalidade e, lá vai mais um esticão! Como é bom de ver, a nossa evolução faz-se e é composta também de e por choques!
Sem pretender aqui enumerar uma lista imensa deles, apetece-me pegar hoje numa das bandeiras de propaganda do actual governo – o “choque tecnológico” e tentar traçar uma certa analogia entre este e um outro - o “choque deontológico”.
Apresento-me como um defensor arreigado das novas tecnologias. Dito assim, parece-me que não haverá necessidade de dizer muito mais. As sociedades contemporâneas calcorreiam há muito e a passos largos o caminho da tecnologia. Disso já não restam quaisquer dúvidas!
Mas, um choque que eu aconselhava ao governo e que urge pôr em prática, era outro – “o choque deontológico”! Antes de aplicarmos uma qualquer tecnologia, devemos ter a capacidade intelectual e gozarmos de uma profunda e honesta seriedade humana, sobretudo quando exercemos cargos de elevada responsabilidade e nobreza, onde a postura se requer de excelência e exemplar. Vem tudo isto a propósito da falta massiva que os nossos deputados fizeram há dias nas votações parlamentares, alheando-se do nobre dever de representatividade para o qual haviam sido há bem pouco tempo eleitos.
Na passada quarta feira, um conjunto de deputados de todas as cadeiras parlamentares (para alguns serão sofás!) decidiu apresentar-se pela manhã, assinando o livro de presenças respectivo e, de seguida “pôr-se a andar” de fim-de-semana prolongado, rumo a um lugar bem mais apetecido e atractivo, menorizando o seu dever de deputado. Chegada a hora das votações dos assuntos em apreciação e, embora o livro lá tivesse estampadas as suas assinaturas, as tais “alminhas” já se tinham eclipsado há muito, na procura do tão desejado bronze!
Isto fez-me logo lembrar um dia, quando me preparava para assistir a uma aula do meu curso e a professora ao passar a folha de presenças, reparou que nela constavam cerca de trinta assinaturas e no interior da sala apenas estavam uns nove ou dez alunos! Eloquente esta atitude, no entender de alguns!
Voltando às faltas parlamentares, o Presidente do Parlamento fez aquilo que lhe competia, aplicando os preceitos lavrados no respectivo regulamento. Como se toda aquela “pouca-vergonha” não fosse já suficiente, lá vieram os indecorosos faltosos, querendo justificar o injustificável. É preciso ter lata! Pela voz de alguns líderes parlamentares, até foi dito que, uns iriam invocar “licença de paternidade”; outros mesmo, iriam argumentar que estavam ao final da tarde no seu gabinete do hemiciclo em tarefas de comissões. Que eu saiba, o hemiciclo não tem pólos no Algarve e a tal licença só a ela tem direito quem é pai! Dá para rir!
Depois disto interrogo-me: será que o emagrecimento da Função Pública não deveria começar pela redução drástica do número e de benesses dos deputados? Será que vale a pena votar nestes “cavalheiros”? O que é ser deputado afinal?
Aconselho o governo, em vez de tanto badalar com o tal “choque tecnológico”, que comece por dinamizar uns “workshops” de sensibilização sobre deontologia, ética, seriedade, honestidade e elevação no seio dos parlamentares. A Comunidade Europeia deve financiá-los!
Talvez, com esta medida, conseguíssemos um verdadeiro “choque deontológico” capaz de propiciar no futuro, outros “choques”, sem o recurso a cheques chorudos e dotando o “Curriculum Vitae” destes “cavalheiros” com valores mais elevados, responsáveis e sérios!...

quarta-feira, abril 12, 2006

"As páginas que nunca mais lerei"!...

Há pessoas que costumam comemorar as épocas festivas anuais debaixo de uma aura de grande emotividade e alegria. Para mim, enquanto criança, esse sentimento também prevalecia em cada período festivo que passava. Mas, à medida que nos tornamos adultos, muita coisa muda. E quando muda, nem sempre é pelas melhores formas.
Obviamente que o lado material da festa, quando somos crianças, tem um peso superior a qualquer um outro, com as tais prendinhas a sobreporem-se a outros sentimentos e valores. Todavia, à medida que nos vamos afastando da nossa “meninice”, vamo-nos apercebendo que a vida é composta por um conjunto de sentimentos que geram fortes laços de amor e de amizade.
A nossa vida tem um trajecto que é percorrido por ciclos, onde estes nem sempre são lineares e fáceis de ultrapassar. À vista desarmada, muitas vezes comparamos a nossa vida a um livro que, enquanto objecto de leitura, nos oferece múltiplas e variadas situações, onde nele nos deliciamos com as ideias e situações aí expressas. Contudo, após a sua leitura, embora o livro permaneça agradável e bonito, há que partir para novas leituras, mesmo que a anterior nos tenha ficado saudosamente retida na memória. Na nossa vida e nos laços de amor ou de amizade que nela criamos passa-se um bocadinho o mesmo.
É sobretudo pelas saudades e pelo sentir que a tal “leitura” terminou que hoje não consigo sentir os festejos anuais como em outros tempos. A festa do Natal e da Páscoa eram por assim dizer, o grande “concílio” da minha família. A mesa rodeava-se de gente, uma vez que o agregado familiar era numeroso. O repasto era a preceito e as conversas prolongavam-se infindavelmente. Falava-se da actualidade e dos projectos de cada um, mas no final, lá vinha o número mágico das anedotas e das brincadeiras.
Obviamente que ali o "todo familiar" era muito superior à soma das suas partes: o importante era a presença em conjunto de todos, sem excepção!
Hoje já não é assim. As tais festividades já não têm o encanto de outrora. Tudo porque, ao tal “todo” faltam-lhe agora dois elementos preponderantes: pai e irmã, inviabilizando assim estas reuniões. Não é que elas não se façam agora, mas a tal “névoa” de felicidade que invadia o meu coração tornou-se demasiado densa. Agora, ao mítico “livro que eu já li”, sinto que lhe faltam "duas maravilhosas páginas" que jamais poderei folhear. Que saudades da sua primeira leitura!...
Boa Páscoa para quem ainda não perdeu "páginas" ou, se as perdeu já, que se vá confortando com as que ainda lhe restam!...

segunda-feira, abril 10, 2006

"Yo no soy coglioni"!...

Em tempos, tive a oportunidade de me insurgir contra certos populismos utilizados por alguns políticos portugueses, cuja postura em nada dignificava quer as suas ideias, quer o seu discurso. Afinal, o aparecimento destes fenómenos, envoltos numa dialéctica de vulgaridades, acabam por se generalizar no seio da classe política, tornando-se num acontecimento supranacional.
Como acontece ciclicamente com a generalidade dos países livres, a Itália passou por estes dias, por um conturbado e acalorado período de campanha eleitoral. Este país já nos habituou às suas infindáveis listas de partidos candidatos, sobretudo no período do pós guerra. No entanto, nesta campanha, a direita e a esquerda decidiram encetar esforços, unindo-se no seu seio, apresentando listas fortes, coesas e unificadas.
A campanha foi dura e por vezes, mesmo insultuosa. Na ala direita, Berlusconi, um magnata poderoso e popular, dono e controlador da generalidade dos media transalpinos. Na ala esquerda, Romano Prodi, antigo Presidente da Comissão Europeia e antigo Primeiro-ministro. Todos eles prometeram o “mundo e a teia” aos italianos, não se importando com o ridicularizar de algumas afirmações.
Com o avançar da campanha e à falta de mais promessas e de mais temas de mentira, eis que ambos embarcam numa toada de insultos, utilizando para tal, uma linguagem muito pouco aconselhada para candidatos a tão nobres e elevados cargos. Por um lado é Prodi que acusa Berlusconi de se agarrar aos números como os bêbados se agarram aos candeeiros. Por outro, é Berlusconi que apelida todos os italianos que não votem nele de “coglioni” - termo vernáculo que significa testículo, num claro insulto à ala esquerda italiana!
Onde o palavreado político chegou! Onde a luta política bateu! E eu pensava que isto era apenas um flagelo português! Afinal, a globalização escusava de ter chegado tão longe!
Já alguém terá imaginado, agora pegando na ideia do senhor Berlusconi, em que todos aqueles que não votam nele são “coglioni”, como seriam conotados pelo Dr. Francisco Louçã (líder do Bloco de Esquerda), os cerca de 95% dos portugueses? Sim, porque se apenas 5% dos votantes votavam nele!... É caso para dizer, “yo no soy coglioni”!...

sexta-feira, abril 07, 2006

"Homo Tecnologicus"

É usual conotarem as pessoas que estudam, investigam ou se especializam em História, como seres profundamente sabedores das numerosas e marcantes datas que compõem a evolução do Homem, ao longo do seu percurso histórico.
Ora, esta ideia não tem assim um grande fundamento, senão vejamos: os especialistas desta área, quando necessitam, costumam socorrer-se de pequenos manuais especializados, cujo conteúdo é composto por um conjunto imenso de datas importantes, vividas pelo Homem, ao longo do seu processo evolutivo.
Em muitas outras áreas do saber passa-se o mesmo. Quantos matemáticos trotearão hoje e de cor a velhinha tabuada? Obviamente que se socorrem de ferramentas como as máquinas de calcular científicas, capazes de com elas conseguirem uma resposta consentânea com as suas necessidades.
Na Química passa-se o mesmo. Quantos estudiosos desta área saberão todos os símbolos químicos e a composição molecular de cada elemento que faz parte da famosa tabela periódica? Ora, se a tabela existe, alguma funcionalidade terá que ter! Com as pessoas que se interessam pelas coisas da escrita, acontece o mesmo. Quantas delas não usam o tão conhecido prontuário ortográfico para dissipar no imediato qualquer dúvida?
O Homem, ao longo do seu processo evolutivo, habituou-se a criar ferramentas capazes de responder a um quotidiano cada vez mais rápido e exigente. Por isso, o recurso a este tipo de instrumentos ou de manuais não é sinónimo de ignorância ou preguiça intelectual; antes sim, um bom exemplo de rentabilização das capacidades que a evolução técnica e tecnológica nos oferece.
Este assunto é aqui aflorado por causa de alguns concursos televisivos, onde a cultura geral se torna tema dominante. Lá em casa, todos ousam achar saber a resposta certa sobre todos os assuntos. Só que, nem sempre a sua resposta corresponde à verdade! Há inclusive alguns telespectadores que se mostram muito espantados quando um qualquer graduado em História não sabe uma determinada data! A mim causa-me espanto o espanto demonstrado por essas mesmas pessoas!
Afigura-se-me complicado imaginar que um estudioso da História não saiba o que se comemora no dia cinco de Outubro. Não me cai igualmente muito bem que um matemático não saiba o valor de “pi”; que um químico desconheça o símbolo químico da água ou que um graduado em linguística não distinga um concelho enquanto espaço territorial, de um conselho dado a alguém.
Já não me espanta, que não se saiba em que dia se iniciou o Concílio de Trento; a raíz quadrada de 12.345; o símbolo químico do “disprósio” ou se se deve dizer perca ou perda. Se vivemos numa sociedade em constante evolução, devemos saber acompanhá-la, utilizando tudo aquilo que de benéfico ela nos disponibiliza. Já alguém imaginou se o Homem pré-histórico não tivesse feito uso do fogo? Talvez ainda hoje vivêssemos na idade das trevas!

quinta-feira, abril 06, 2006

"O trigo e o joio"

Sempre que abro um qualquer jornal diário; sintonizo à hora certa um noticiário radiofónico; ou assisto à informação televisiva diária, sou confrontado pela generalidade da Comunicação Social, para além das habituais parangonas cor-de-rosa e do sensacionalismo que estas arrastam, com um flagelo diário cada vez mais enraizado na nossa sociedade: os maus-tratos.
É o cônjuge que há muito perdeu o encanto pela sua “cara-metade” (se é que algum dia o teve), partindo para a agressão física; são os pais que maltratam os filhos, espancando-os e violentando-os até à morte; são os filhos que abandonam os pais, estes com idade avançada, desprotegidos e que já não lhes despertam socialmente qualquer interesse; são os jovens alunos que na escola ofendem e agridem os seus professores, são etnias e nacionalismos que renascem de um passado não muito longínquo. É este o retrato social com que vamos convivendo.
Para onde caminhamos, afinal? Numa sociedade dita evoluída, virada para o século XXI, como muitos apregoam; que consegue semear no mesmo terreno valores de um grande civismo, de uma grande igualdade, pautando-se por aquela prerrogativa magna e tão badalada chamada Estado de Direito.
No entanto, lá vem mais um dia em que um grupo de jovens adolescentes, cuja vida não lhes sorriu à nascença, encontrando-se à guarda de uma qualquer instituição de solidariedade social, decidem atacar e matar transeuntes que vagueiam pela rua, abandonados que foram pela sua condição ou pelo seu “fado”.
Ou então, é a criança que depois de adoptada por uma família de elevados princípios, o tal Estado de Direito decide “condená-la à morte”, entregando-a aos seus familiares biológicos, sem que estes apresentem quaisquer credenciais válidas, capazes de proporcionar à jovem uma vida próspera, como qualquer criança merece! Estes dois casos são, por assim dizer, um pequeno cartão de visita de uma infindável lista.
Choca-me a violência. Dito assim, acho que não seriam necessárias mais palavras. Todavia, choca-me duplamente a violência infligida sobre as crianças, sobretudo quando esta violência se reveste de contornos macabros e de uma malvadez pouco usual na sociedade onde me insiro.
Não sou defensor da pena de morte cega, nada disso! Aliás, comungo da ideia de que o Homem foi feito para viver e não para morrer às mãos das suas próprias leis.
Assim sendo, o que fazer com este número crescente de prevaricadores? Que destino a dar a quem comete tão hediondos actos? Tenho muitas dificuldades, perante estas horrorosas situações, em testemunhar a favor de um qualquer destes “espécimes”, sobretudo quando estes carrascos são os próprios progenitores ou seus descendentes.
Pelo mais que leia, pela maior boa vontade que exista, pelas mais tresloucadas ideias que nos passem pela mente, não têm explicação comportamentos deste calibre. Uma sociedade moderna quer-se tolerante e compreensiva, é certo! Todavia, não devemos permitir que alguns grãos de joio estraguem a nossa imensa ceara de trigo. Ou então, lá teremos nós de o ir mondando de tempos a tempos!... Mas como?