quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O homem do "passo certo"!...

Um dia os meus pais levaram-me a um quartel, onde o meu irmão cumpria o Serviço Militar Obrigatório, para aí assistir à cerimónia do seu “juramento de bandeira”. Eu era ainda muito jovem e, confesso que muitos daqueles rituais não os entendia muito bem. Marchas para um lado, marchas para o outro; tudo ali muito direitinho e alinhadinho bem ao jeito daquelas historietas da banda desenhada com os seus soldadinhos de chumbo.
Embora já tenham passado várias décadas sobre essa data, tenho hoje muito presente uma tirada de uma senhora, posicionada ali ao lado, bradando e, de dedo apontado, dizia com um ar muito feliz e orgulhosa: “olhem, aquele é o meu filho! É o único que vai com o passo certo!”. No meio de largas centenas de recrutas ser o único com o passo certo, seria obra digna de um verdadeiro prodígio; de alguém fora do comum, pensei eu com a minha tenra idade!
Pois é, hoje, passados tantos anos, dá a impressão que há alguns dirigentes nacionais que se consideram super dotados e se acham também os únicos a caminhar com o passo certo, tal como o filho daquela senhora. Refiro-me concretamente ao Ministro da Saúde, Correia de Campos.
Com tantas manifestações e com tanta gente descontente com o encerramento de maternidades, de centros de saúde e do serviço de urgências hospitalares em cidades como Valença, Chaves e muitas outras, o governante dá-se ao luxo de dizer que os portugueses não estão informados apelidando-os, num português idiota e enganador, de ignorantes. Com estas medidas, acha-se o único a marchar alinhado e no rumo certo.
Este senhor argumenta que com o desenvolvimento de uma rede de auto-estradas se resolve o problema! Maior baboseira não poderia dizer!
Tomando como exemplo e geograficamente demonstrável, da fronteira de Chaves até Vila Real distam cerca de 100 quilómetros. Se as pessoas percorrerem este trajecto conduzindo dentro do estabelecido pelo código da estrada (90 km/h fora das localidades e 50 km/h dentro delas) e sabendo que este percurso atravessa um número elevado de povoações, quantas horas não são necessárias para chegar a Vila Real? Mais, a tal auto-estrada a que o ministro se refere passa cerca de 15 quilómetros ao lado do hospital vila-realense e, em muitos lugares, ainda não passou do projecto!
Isto para não falar naquelas aldeias situadas em locais recônditos e que só aparecem na televisão quando há boicote às eleições ou então, quando desesperadas, as pessoas lutam estoicamente contra as adversidades que os devastadores incêndios anualmente provocam. Afinal, é bem verdade: “dos fracos não reza a história”!
Ainda bem que não é a mãe deste ministro a dizer que ele é o único que vai com o passo certo nem ela se encontra posicionada ao meu lado. Caso contrário, hoje, com mais alguns anos e experiência de vida, era eu mesmo a explicar-lhe que ele se deslocava no caminho errado, demonstrando à assistência o quão ignorante e mentiroso ele é!...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

"A liga dos últimos"

Por vezes, a televisão irrompe pelas nossas casas dentro, mostrando-nos um pouco de tudo aquilo que em nosso redor se passa. Frequentemente, a coberto de um certo exagero, invertem-se estes propósitos e são exibidos conteúdos que, para além de exagerados, de muito pouco nos servem.
Mas, como não tenho conhecimento de regras que não comportem as inevitáveis excepções, o pequeno ecrã permite-nos muitas vezes conhecer realidades que nos são muito próximas, embora delas vivamos permanentemente alheados.
Tudo isto vem a propósito, devido a um programa de televisão chamado “Liga dos Últimos”, disponível no sistema de televisão por cabo e emitido pela RTPN. Este programa mostra-nos aquilo que de mais singular se passa nas ligas futebolísticas de reduzida expressividade, evidenciando-se as equipas com menor pontuação obtida, fazendo jus ao nome do próprio programa.
Dá-nos igualmente a conhecer o que de mais genuíno se passa nos nossos campeonatos regionais, convidando-nos a entrar em autênticas viagens ziguezagueantes em direcção às profundezas do nosso futebol e à forma e arreganho como aqui ele é sentido e vivido pelas populações.
Eu diria que é um programa único, coberto de peripécias, cujo realce assenta de imediato no tipo de reportagem, nos entrevistados e nos castiços comportamentos das pessoas interpeladas. São verdadeiros momentos de televisão que caricaturam na plenitude a conduta das pessoas que assistem a um jogo de futebol e o interesse que cada um deposita durante aquele tempo de entretenimento.
Atrever-me-ia a dizer que se trata de um verdadeiro espectáculo dentro de outro espectáculo! Para ter acesso a um destes maravilhosos exemplares, basta aceder ao “link” em baixo e disponibilizar de cerca de oito minutos. No final, sentirá certamente que acabou de viver um dos momentos mais bem dispostos e hilariantes por que alguma vez passou! O convite fica feito; é só entrar na viagem!...

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O referendo da modernidade!...

Na ressaca dos resultados da consulta popular obtidos no referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, no essencial, muita coisa terá sido ocultada. Diria até que o mais importante foi encoberto da opinião pública.
Depois de ver alguns festejos, sobretudo orquestrados por grupos partidários, muitos deles extremistas, politizando-se assim este assunto, ninguém me conseguiu fazer ver aquilo que afinal era o mais importante: quantas pessoas decidiram a favor do “sim”?
Aquilo que matemática e estatisticamente é verdade é o seguinte: num universo de 8.832.628 eleitores, 4.981.015 abstiveram-se e, dos 3.851.613 votantes, 2.238.053 votaram “sim” e 1.539.075 votaram “não”.
Daqui se conclui que cerca de 56% do eleitorado voltou as costas ao referendo e não votou; cerca de 26% votou “sim” e cerca de 18% votou “não”. Perante estes dados, não entendo o porquê de tamanho alarido vitorioso. Afinal, foi apenas ¼ do eleitorado a legitimar e a decidir sobre um referendo de tamanha importância!
Se pertencesse à classe política e me tivesse empenhado tão profundamente na defesa da causa, o único sentimento que me poderia invadir perante os dados apresentados era uma profunda desilusão face a tão grande descalabro. A fraca afluência é sinal de que a importância da mensagem não atraiu os eleitores e, afinal, o tal “flagelo” com que tanto se badalou durante estes dias, serviu apenas para exorcizar alguns fantasmas, utilizando para tal, os tempos de antena que a lei consente.
Por outro lado, não entendo como é que o Serviço Nacional de Saúde vai ter dinheiro para financiar os abortos que aí vêm “às resmas” (sim porque com tantas condenações e julgamentos, está-se mesmo a ver!) e não tem dinheiro para comparticipar a vacina contra o cancro do colo do útero, avaliada em cerca 480 euros e que atinge anualmente perto de 400 potenciais mães! Em média, este tormento mata uma mulher por dia no tal século XXI da modernidade, aquele em que os pseudo vencedores de ontem tanto veneravam!
Por outro lado, o tal Serviço Nacional de Saúde, o mesmo que vai financiar os abortos, não tem dinheiro para contratar médicos de família, disponibilizando assim, a assistência médica necessária a quem “alimenta” mensalmente este sistema com os seus impostos.
É uma vergonha nacional quando em Portugal se discute o direito ao aborto e não se referenda o direito à saúde! Há mais de treze anos, repito, treze anos que espero por um médico de família. Não ouvi dizer isto ao vizinho, não; isto acontece comigo! Até já pensei para comigo se ao tal “médico de família” apenas teria direito quem tivesse filhos e como os não tenho!…
Como me impedem do meu direito à saúde, gostava, ainda assim, que não me impedissem de exercer o meu dever de cidadania e não me transformassem num cidadão de segunda. Mas, para isso, teriam de falar verdade debatendo as causas que são verdadeiramente abrangentes e estruturais e não andar ao sabor de ideias populistas e trotskistas.
Ah, já agora, esclareçam os eleitores de uma vez por todas, sobre o que é ser “vinculativo”. É que estou na eminência de ter de comprar outro dicionário!...

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

As palmas do Caetano!...

No virar de século, muitas comemorações de vária ordem se fizeram sentir pelas mais diferentes latitudes. Portugal não fugiu à regra e, aquela que porventura mais terá tocado e mais terá colocado o nome do nosso país no mundo terá sido a da comemoração dos quinhentos anos do “achamento” do Brasil.
Normalmente, pretende-se com este tipo de eventos, o reconhecimento público de feitos considerados valiosos, que se verificaram em determinados quadrantes e que ajudaram a mudar a filosofia do pensamento, da cultura, da geografia, enfim, da História no seu geral.
Não deixou de me causar estranheza as palavras proferidas então por um poeta, compositor, cantor e figura proeminente da música brasileira, de nome Caetano Veloso. Em determinado momento fiquei perplexo com algumas atrocidades que enunciou, ao minorar, diminuir e menosprezar o importante papel que os portugueses então fomentaram, aquando da ocupação do Brasil.
Confesso que fiquei muito desapontado com a atitude deste “irmão” e eminente figura da cultura brasileira! Interroguei-me por diversas vezes sobre a forma como ele entendia a ocupação portuguesa! Como terá sido possível um homem com uma vasta cultura e conhecimento, que no dia a dia se cruza com tantos pensamentos e pensadores, tomar uma atitude crítica daquelas?
Mas, e como na vida dos “génios”, haverá sempre um mas, a sonoridade musical produzida por este homem acaba por ultrapassar muitas daquelas mazelas que no virar do século se geraram! Para quem não conhece ou conhece pouco sobre este “embaixador” da canção brasileira, ele é um génio! É alguém que dá gosto ouvir.
Normalmente associamos determinado cantor quando estamos na praia, no carro, no banho, a cozinhar ou a fazer uma qualquer outra actividade. Mas, com Caetano, a música soa-nos quase sempre bem. A voz é deliciosa, os acordes magníficos, a sonoridade maravilhosa e até as palmas têm outro encanto. Daí que hoje tenha pensado partilhar aqui neste blog, uma das músicas mais fascinantes que lhe conheço.
A escolha afigurou-se difícil e a conclusão foi esta. Palmas para “sozinho” e para Caetano!...

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O "mercado" do aborto!...

Há já alguns anos que não exerço o meu elementar dever de cidadania, que é como quem diz, não participo em actos eleitorais, quaisquer que eles sejam. A ausência de classe, postura e coerência da nossa desclassificada classe de políticos a isto me leva.
Por estes dias vai realizar-se uma consulta popular a propósito da interrupção voluntária da gravidez. Tanta coisa se escreve e tanta coisa se diz. Por vezes, argumentos de um verdadeiro baixo nível intelectual, para não dizer de outros.
Já me detive em frente à televisão, embora em escassas ocasiões, aqui procurando alguns conhecimentos, para saber o que é que muda no fundamental com esta aprovação. Sinceramente e para mim, o que muda são os discursos e não as práticas.
Como disse, sou daqueles que se vai abster e acho que, esta é a melhor forma de expressar a minha opinião. Todavia, sou abertamente a favor da vida e do direito a ela, como também sou a favor da responsabilização de cada um pelos actos que pratica. É certo que os apologistas do sim rebuscam logo os casos mais enigmáticos e anormais para daí partirem para a generalização do costume. Uma clara idiotice!
Pelo que conheço da lei, ela já existe para casos de má formação, de violação e de casos similares. Daí que, não entendo tanto alarido. Por outro lado, quem foi o iluminado que escolheu o “timing” das dez semanas? Porque não cinco ou porque não vinte ou até nove semanas e meia? Sempre seria mais sugestivo!
Há argumentos radicais que falam na ida de pessoas endinheiradas fazer abortos em clínicas de luxo no país vizinho e outras, aquelas mulheres cuja carteira é magra, ficam por cá, envergonhadas, desprotegidas socialmente e vulneráveis a este destino! Com maior ou menor distância, sempre houve ricos e pobres e cada um age conforme as suas capacidades. É assim nos trabalhos; é assim no acesso aos meios de informação; é assim no “modus vivendi” de cada um.
O que muda afinal com a aprovação desta lei sobre o aborto? Nada ou quase nada! Muda essencialmente uma coisa: legaliza-se um mercado – o das clínicas privadas. Aqui não vão caber, com certeza, as tais pessoas carenciadas cuja carteira se encontra agora revirada do avesso. Aqui vão aportar as tais pessoas que se deslocavam até ao país vizinho. Dito com outras palavras, vai continuar a ser o dinheiro a falar mais alto e quem tem faz, quem não tem, continuará a recorrer aos métodos praticados até aqui.
A meu ver, em vez de nos preocuparmos com esta legalização, deveríamos enfrentar realidades bem mais marcantes e de urgente solução. Falo, claro está, dos processos de adopção de crianças. Não entendo como é que em Portugal se demora uma eternidade a decidir sobre um qualquer processo de adopção. Acho, aqui sim, que se a burocracia da lei fosse mais célere e contemplativa, não falávamos em meia dúzia de mulheres que foram a julgamento. Falávamos sim em milhares de novos sorrisos, que com eles, espalhavam a felicidade em outros tantos lares!...