segunda-feira, janeiro 30, 2006

"A febre de Sábado"

A televisão tem este dom: o de proporcionar aos seus telespectadores um conjunto infindável de imagens das mais variadas proveniências e com os mais variados sentidos. Ora nos mostra imagens cobertas de uma grande emotividade, ora nos mostra imagens capazes de nos levar em longas viagens. Viagens anacrónicas, muitas vezes, onde nos vemos ou revemos como parte integrante de uma determinada situação.
Durante os anos setenta do passado século, a televisão pôs à nossa disposição séries que nos permitiram viagens alucinantes, rumo ao espaço, “fabricando” pessoas, envolvidas que estavam em verdadeiros cenários imaginativos, fazendo-se transportar em naves condizentes com essa mesma imaginação. Como era revolucionária na altura, toda aquela anacronia espacio-temporal personificada, por exemplo, na série “Espaço 1999”!
Se em relação ao futuro a criatividade e a imaginação imperaram, a televisão tem igualmente um papel preponderante na difusão de ideais, de culturas e de valores nos dias que correm. É comum, quando despertamos de manhã, após uma longa e agradável noite de sono, ficarmos a par daquilo que de mais relevante se passa em redor do planeta. São imagens de campanhas humanitárias, de acções políticas, de guerras, de discursos, de credos, de concertos, de pessoas ilustres, de cultura, enfim, a todas elas é dado ênfase, de forma a mantemo-nos informados e a partilhar muitos dos valores que nos são oferecidos.
Se o futuro e o presente são retratados, embora de forma diferente, ao passado também é dado relevo. Imagens que marcaram as sociedades actuais como os acontecimentos devastadores das duas guerras mundiais; os tratados de união entre povos, os movimentos de independência africanos, os maravilhosos testemunhos cinematográficos deixados por Charlie Chapelin, enfim, um número incontável de situações são apresentados.
Relativamente às imagens do passado, queria hoje relevar um programa difundido no passado sábado à noite, pela RTP, da autoria de Júlio Isidro, intitulado “Febre de Sábado – 25 anos”. Este extraordinário comunicador permitiu com este programa, uma maravilhosa viagem ao panorama musical do início dos anos oitenta, possibilitando o reviver de músicas há muito afastadas dos “tops” nacionais mas que, terão sido marcantes na vida dos portugueses. A tudo isto, associou-lhe uma peculiar originalidade: a de trazer ao palco alguns dos autores de então, cantando ao vivo!
Como foi lindo, lindo… recordar o “Perfume Patchouli” cantado pelo Grupo de Baile; “Chiclete”, dos Táxi; “Cavalos de Corrida”, dos UHF; “Chamem a Polícia”, dos Trabalhadores do Comércio ou “Ribeira” interpretado pelos Jafumega!
Como me deliciei ver e ouvir de novo aqueles que foram os grandes impulsionadores dos gostos musicais que percorrem o meu imaginário! Durante o programa, pensei para comigo: nos anos oitenta, cantava-se em português e não era necessária legislação especial para que as rádios passassem músicas “made in Portugal”! E porque seria? Será que, por essa altura o “bacalhau não precisava de alho”? Ou será que “elas gostavam de um abraço e de um beijinho e nós, pimba” também?
Pois é, utilizando aquela frase muito em voga na economia sobre a “boa e a má moeda”, também na música portuguesa esta máxima é aplicável. E é por isso que há músicas que perpassam de geração em geração e outras… essas, coitadas, estão destinadas ao seu eclipse! Por mim, preferia que a tal “boa moeda” continuasse em circulação por muitos e longos anos!

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Taxa ao marketing!...

Há muito que vem ganhando em mim, com alguma consistência, a ideia de fazer uma viagem pelo centro da Europa. Há cidades que não conheço e, como tenho ouvido contar maravilhas, estou a pensar seriamente sobre essa possibilidade. Cidades como Salzburgo, Viena, Praga, Berlim, Amesterdão, Bruxelas, Barcelona e, claro está, as bonitas cidades medievais e renascentistas italianas, são locais de visita obrigatória do meu imaginário.
Com esta ideia cada vez mais vincada, associada a um renovado desejo de voltar ao Brasil, decidi consultar diversas agências de viagens. Optando por um “giro” pela Europa, as várias agências colocam à minha disposição um infindável número de pacotes promocionais, constando em muitos deles, a viagem, a estadia e a alimentação, entre outras ofertas. Se eu optar por viajar até ao Brasil, a única coisa que pretendo é apenas a viagem, uma vez que, o alojamento já tenho garantido.
Face às consultas que entretanto fiz, em todas as agências o “modus operandi” é o mesmo, ou seja, pacotes promocionais com um forte jogo de marketing por detrás, dissimulando muitos dos valores apresentados. Vou dar como exemplo uma viagem de ida e volta ao Brasil. Chegado a uma agência, dou o meu destino e questiono sobre o valor a cobrar pela passagem. A minha interlocutora responde que, em classe económica são 864 euros. Ora começo a fazer contas e, quando me decido pela compra da passagem, a minha agente dá-me um novo detalhe: a este valor (864 euros), são acrescidas taxas de aeroporto, de combustível, de segurança e de emissão de bilhete, que perfazem 210 euros. Sendo assim, a viagem já não custaria e nunca custará 864 mas sim 1.074 euros! Então, questiono-me de novo: porque terá sido que a pessoa que me atendeu não disse logo que o total da viagem era 1.074 euros? É a isto que vulgarmente chamamos omissão. Eu chamo-lhe, com todas as letras, mentira!
Chega-se ao ponto de ver, em panfletos promocionais e em letras garrafais o seguinte: “Promoção de voos – Paris – 85 euros". Depois, em letras de tamanho minúsculo, o seguinte: “Não inclui taxas de aeroporto (aprox. 67 euros) e despesas de reserva (aprox. 20 euros)”. Fazendo as contas, a tal promoção com destino a Paris, não ficaria por 85 euros mas sim por 172 euros.
Nunca me imaginei ir a uma loja comprar uma camisa ou umas calças e me dissessem que a camisa custava, por exemplo, 70 euros, os bolsos 15, os punhos 10 e os botões 20! Se eu compro uma camisa, não a poderei usar sem botões, ou sem punhos, obviamente! Se eu compro uma viagem e ela é composta pelo voo e pelas taxas a ela inerentes, então a viagem custa o somatório de todos os seus constituintes!
Confesso que não gosto do marketing por ser omisso, induzindo as pessoas em erro! Embora deteste a mentira, prefiro esta que aquele. É que, a mentira tem “perna curta” e o marketing, quando bem feito, até dá para vender o Presidente da República aos bocadinhos, como muito bem dizia o director de televisão Emídio Rangel, a propósito de um documentário sobre televisão, exibido pelo canal francês “Arte”.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

"Habemus Presidentis"!

Feito o rescaldo da noite eleitoral presidencial e, ao olhar os resultados, devemos daí retirar algumas ilações. Por um lado, os portugueses presentearam os candidatos com uma elevada abstenção, talvez como forma de contestarem a ausência de nível destes para com os aqueles. Por outro lado, quando alguns dos candidatos foram chamados a comentar os resultados obtidos, ficou bem provado porque é que o ensino da Matemática em Portugal anda pelas “ruas da amargura”. Um candidato da esquerda, obtendo qualquer coisa como 5,3% e perdendo 1% relativamente a anteriores eleições, teve a “lata” de dizer no seu discurso que nas forças de esquerda reinou a “unidade, convergência e a vitória”. Deve ter sido a brincar, mas eu prometo que ouvi bem!
Vindo da mesma ala política, um apoiante de um outro candidato que acabava de obter pouco mais de 14%, ex Comissário europeu, teve o “condão” de dizer uma verdadeira barbaridade: “Mário Soares não foi derrotado”. Ora, se em eleições há derrotas e vitórias… quem não perde, bem ao jeito de um qualquer “lapalissiano”, ganha! Então, Soares terá sido um grande vencedor! E sou eu governado por pessoas que fazem estas leituras políticas! Será que estou mesmo na Europa ou eu não entendo português?
Com estas palavras, associadas ao atropelo que o senhor Primeiro-ministro fez a um dos grandes vencedores da noite – Manuel Alegre, quando este falava para as câmaras de televisão, se explica tão elevada abstenção. Pensando bem, ela até terá sido escassa para um nível tão baixo demonstrado por alguns desses políticos. Afinal, não me arrependo de lhes ter virado as costas!
A noite eleitoral de ontem permitiu igualmente, para além do tal “passeio na avenida”, dado por Cavaco e Alegre, perceber que alguns candidatos terão, em futuras eleições, de disputar a liga dos últimos, uma vez que os resultados obtidos não corresponderam em nada ao enorme alarido que por aí fizeram. Só falta virem agora dizer que afinal, são os mais de 50% de portugueses que estão errados! Por outro lado, talvez a candidatura de Soares tenha que disputar a antiga “liguilha” para ver se se manterá entre os grandes. Esta candidatura fez-me lembrar aqueles clubes que lutam para serem campeões e acabam despromovidos!
O governo, esse é que terá de arrepiar caminho. A partir de hoje, terá que pensar melhor em ajudar os pacientes, comparticipando mais activamente em determinados medicamentos, como o “prozac”, o “bromalex” ou outros ansiolíticos. É que, pelos vistos, cerca de 14% dos portugueses vão deixar de “dormir descansados”. Coitados, e agora? Já não chegavam os problemas do dia a dia como o deficit, os aumentos dos produtos, vem agora aí o desassossego!
Finalmente, o que fica para a História é que Portugal tem um novo Presidente da República. A “jarra” do Palácio de Belém ficou novamente decorada e à primeira. Os problemas, esses, irão com toda a certeza continuar: os aumentos dos bens e impostos, os atropelos, os discursos inflamados, o “show off” e as tricas políticas continuarão a fazer parte do nosso quotidiano. Ah… e a fantochada também. Só espero que um dia permitam que eu vote, finalmente! Como escreveu um poeta brasileiro, aquando da sua estadia no exílio em Portugal, “essa terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”! Afinal, quem serão as tais aves?

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Os "narcisos" e as Marias

Ontem, tive uma visita inesperada. O carteiro decidiu deixar na minha caixa de correio um cartão envolvido num envelope. Inicialmente até pensei que fosse de Boas Festas mas, interroguei-me acerca desta ideia, se a quadra natalícia há muito que tinha passado?
Quando abri o envelope, ao olhar para o cartão, deparei-me com dois rostos, muito arranjadinhos, com operações de cosmética a preceito, transbordando felicidade, com gestos de grande harmonia. Ele, num primeiro plano, com ar bem disposto e confiante; ela, num plano lateral, ligeiramente atrás, com o braço esquerdo sobre o ombro dele, sugerindo tratar-se de uma família feliz, ordeira e realizada. Ora, família com tantos e tamanhos predicados só me poderia fazer lembrar uma: a “Sagrada Família”!
Pensei, reflecti e, confesso que era mesmo esta família que eu pensava ver! Mas, interrogava-me eu novamente: onde estarão afinal, os restantes elementos? O que seria feito do “menino” (Joãozinho) e do burro!
Desisti desta ideia. Achei que poderia ser outra coisa. Por momentos, terei pensado que me encontrava na Idade Média. É que, ultimamente, tenho ouvido falar tanto no papel do “ouvidor” que me imaginei novamente perante a corte e a família real, mostrando-me o cartão, o rosto do nosso rei “lavrador”, D. Dinis, ladeado pela sua esposa, a rainha Santa Isabel! Mas… afinal o nosso rei não tinha coroa! E a nossa rainha não trazia flores no regaço! Pensei de novo: Será que não se trata antes de el-rei D. João I, a quem a pátria portuguesa tanto deve, pelos feitos históricos conseguidos na Batalha de Aljubarrota? A minha ideia tomava cada vez mais consistência, ao ver uma mulher de semblante sorridente, com traços faciais de felicidade! A associar a tudo isto, nova ideia me surgiu entretanto! Como o nosso rei viajava muito pelo estrangeiro, esta é, com certeza, a sua esposa: a bonita rainha de origem britânica, D. Filipa de Lencastre!
Depois de todas estas visões que por momentos tive, uma luz me levou a pensar: se a imprensa foi inventada por Gutemberg em 1455, como pode este documento comprovadamente impresso, ser anterior a esta data?
Foi a partir desta altura de maior lucidez que me apercebi que, afinal, estava no século XXI, em Portugal, em plena campanha para as presidenciais, onde tudo vale. Neste "certame", o homo sapiens dá lugar ao homo “aparencis” ou “ilusonis”, em que republicanos se confundem com monárquicos, agnósticos se confundem com católicos, nomes como Soares se confundem com Narcisos. No final, restam-me duas consolações: a confusão não chegará a todos, felizmente e o carteiro não voltará. Se voltar, que me traga tulipas porque não gosto de narcisos!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

As "damas de companhia"

Hoje, à semelhança daquilo que os nossos candidatos presidenciais nos vão oferecendo diariamente, apetece-me imitá-los, brincando um pouquinho com os números. Brincar não diria, diria sim, apelar à imaginação sobre o que nos é fornecido pelo dia a dia das várias “máquinas” de campanha.
Através das estatísticas que ciclicamente nos são apresentadas e pelos vários censos que ocorrem no nosso país, Portugal terá, cerca de dez milhões de habitantes. Bom, até aqui, penso que haverá um consenso generalizado! Todavia, com o decorrer da campanha e a avaliar pelos números que nos são fornecidos, estes elementos devem estar errados.
Num dia, comenta-se que Cavaco Silva, num determinado jantar no distrito de Aveiro, terá tido nesse repasto cerca de quatro mil comensais. Olhando o candidato do lado e segundo a sua campanha, Mário Soares congrega numa sua acção em Viana do Castelo, a maior manifestação de apoio prestada ao longo desta jornada. Por seu turno, o “staff” de Manuel Alegre, sem querer ficar atrás, refere que conta com largos milhares de apoiantes em Évora, terra de gente de trabalho e de esperança. Ora, Jerónimo de Sousa, por si só, consegue juntar no pavilhão Atlântico, em Lisboa, mais de vinte mil fervorosos simpatizantes. Não se querendo ficar na cauda, Francisco Louça diz em Setúbal, que a sua candidatura excede claramente as expectativas mais optimistas sobre a adesão popular.
Ora, se em todos os lugares por onde as várias caravanas passaram a adesão foi e é assim tão grande, com tantos milhares de pessoas na rua, então, estaremos na presença de um verdadeiro fenómeno populacional! Ou os tais censos ou estatísticas estão definitivamente errados e urge corrigi-los de imediato, ou então, Portugal não terá dez milhões mas sim uns vinte ou trinta milhões! É que, se a segunda hipótese for a verdadeira, corremos o risco de estas eleições não se revestirem de um carácter vinculativo uma vez que, muito menos de 50% dos tais milhões de eleitores, votarão!
Afinal, já valeu a pena. Esta campanha já me trouxe uma grande alegria: já não estamos na cauda da Europa! Pelo menos em eleitores! E eu que pensava que o interior português estava a ficar desertificado! Puro engano! Que felicidade me invade ao ver por lá tantas "damas de companhia"!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

As "cru(eldades)" da cozinha

Já muito se escreveu acerca das mudanças sociais que Portugal sofreu com a revolução de Abril de 1974. Mudanças estruturais, mudanças de hábitos e costumes, mudanças de mentalidades, enfim, elas fizeram-se sentir nos mais variados quadrantes da sociedade. Entre muitas outras coisas, os portugueses passaram a dispor de uma diversidade de ofertas capazes de responderem aos seus anseios, bem à semelhança daquilo que outros países haviam sentido alguns anos antes.
A Portugal, começavam a aportar produtos de grandes marcas multinacionais como a Coca Cola, deliciando os portugueses com sensações bem americanas. Esta bebida é bem aceite pelas classes etárias mais jovens da população portuguesa. Mas, esta “americanização” não se fez sentir apenas nas bebidas, ela sentiu-se igualmente na restauração, através da forte e incisiva entrada da cadeia de restaurantes McDonad’s, proporcionando o saborear de todos aqueles “plasticizantes” sabores. Como em tudo: há quem goste; adore e há os indiferentes ou mesmo os que não apreciam. Confesso que me dou bem melhor a saborear uma boa “feijoada” bem portuguesa ou um belo “cozido” da mesma nacionalidade.
Embora não me considere um daqueles “comedores profissionais”, longe disso, gosto, de vez em quando, de dar uma voltinha por sabores de outras nacionalidades. Afinal, a globalização também a isso nos leva, ora essa!
Muitos de nós, já terão com certeza, experimentado os sabores bem orientais da cozinha chinesa. Estes espaços multiplicaram-se, fazendo lembrar o célebre “milagre dos pães”, com uma oferta muito diversificada, quer em géneros, quer em espaços existentes. A meu ver, são espaços com alguma originalidade mas apenas para frequentar de vez em quando.
Quem marca igualmente presença, embora em número mais reduzido, é a cozinha indiana, sempre muito bem condimentada, com o típico pimentão a marcar presença assídua; aromática e com uma oferta de paladares muito apreciável. Aqui, as tais especiarias que tanto esforço deram aos nossos navegadores durante a expansão portuguesa, chegam-nos agora à mesa de forma descontraída e com originalidade.
Cozinhas há que vão ganhando igualmente o seu espaço. A russa e a ucraniana encontram-se numa fase de franca ascensão, tentando responder à procura de um número crescente de frequentadores, sobretudo com a chegada de imigrantes provenientes dessas paragens.
A italiana também tem alguma projecção, sobretudo com as suas famosas pastas e onde os queijos de forte sabor aqui deixam a sua marca.
Também a cozinha brasileira vai ganhando o seu espaço, sendo aquela que, a meu ver, mais se assemelha com a nossa. Muito rica, diversificada, aromática, onde o feijão é rei à mesa.
Com visitas que tive a oportunidade de fazer, a todas elas me "aculturei", com maior ou menor dificuldade. Todavia, há uma que me deixou verdadeiramente de “olhos em bico”: a cozinha japonesa! Uma das grandes invenções do Homem ao longo do seu processo evolutivo, foi o fogo, para com ele, poder cozinhar os seus próprios alimentos. Mas, pelo que vi, esta invenção, aos olhos dos japoneses, terá sido tempo perdido pois a comida serve-se crua, imagine-se! É uma sensação esquisita saborear e tentar comer salmão, sardinha, lulas ou qualquer outro peixe crus. Atenção, eu disse crus!
Mas, lá fiz o meu esforço, pensando em outras coisas enquanto tentava comer. Felizmente, passados alguns instantes, tive o meu momento alto de lucidez: não comer mais! Pensei para comigo: uff, desta já me safei! No final do jantar, a única coisa que verdadeiramente apreciei foi uma cerveja que pedi, de nome “Carlsberg”. Afinal, terá sido esta, a verdadeira “cereja” do meu repasto! No futuro, enquanto a tal invenção do Homem não se aplicar na cozinha japonesa, prometo não condenar ninguém a lavar o meu prato!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

A (des)penalização da escravatura

Por vezes, em pequenas tertúlias entre alguns dos meus amigos, é comum falar-se da actualidade portuguesa, com as suas vicissitudes e com as condicionantes que elas próprias geram. Embora no seio do meu grupo surjam ideias diferenciadas, é usual traçarem-se alguns paralelismos entre Portugal e outros países, sobretudo com Espanha. Há até quem afirme que veria com bons olhos, Portugal como parte integrante de Espanha, relevando assiduamente aquilo que, de positivo, os “nuestros hermanos” possuem, relegando para segundo plano as nossas imensas capacidades. Obviamente que não pactuo com semelhante visão!
Numa outra perspectiva, situam-se alguns políticos que, quando querem fazer passar uma qualquer ideia, traçam um paralelismo com aquilo que se passa em países evoluídos como Inglaterra, França ou Alemanha. Até o próprio Dr. Oliveira Salazar não se terá inibido desta mesma comparação, quando em 1949, a propósito das eleições em Portugal, dizia ele que as queria “tão livres como na livre e nobre Inglaterra”, provando, desta forma, que a liberdade imperava na nação portuguesa.
Sinto que, por vezes, há sempre a tentativa de cair em alguns ridicularismos deste tipo, onde em Portugal, o que se faz e o que se tem é quase sempre pior do que aquilo que se faz e é comummente aceite nos países evoluídos do centro da Europa. É com alguma regularidade que se vêem notícias sobre imigrantes, sobretudo provenientes das ex colónias africanas ou do leste europeu, queixarem-se das míseras condições de habitabilidade e de trabalho que Portugal oferece. Não conheço um qualquer português que seja favorável a este “status quo”!
Agora, o que me espanta mais é que, aqueles tais países exemplares, evoluídos, com democracias estáveis e seculares, com economias em franco progresso, com culturas possuidoras de um pragmatismo invulgar, também têm os seus “calcanhares de Aquiles”.
Se nos lembrarmos do estado deplorável, miserável e medievalista em que labutam dezenas de portugueses na avançada e excêntrica Holanda, apetece-me inverter a situação e dizer que, afinal, a cauda da Europa é povoada por outros países que não só Portugal! Pensava eu que a escravidão há muito que fora afastada da vida do Homem mas, afinal, ela marca presença no seio dos tais países ditos evoluídos.
Mas… no país das tulipas, com tanta pluralidade, com tanta diversidade, onde tudo é possível e tudo é aceitável, porque não aceitar também a escravatura? Nada mais natural, ora essa, dirão eles! E o que dizem os vários media, pela Europa fora, sobre este assunto? Nada! Por aqui se vê que até na Comunicação Social global temos uma Europa a diversos tempos. Como me lembro, em plena cidade de Paris, quando algum parisiense se referia aos portugueses, dizia: “ah, les petits portugais”, num tom jocoso e de superioridade!
Há uns meses, a propósito da presença de uma rede de prostituição na cidade de Bragança, a conceituada revista “Time” fez deste tema, capa de revista. Sim, porque tão eloquentes jornalistas, terão pensado que Portugal seria o “oasis” da prostituição; seria a Cuba da Europa. Mas, pelos vistos, enganaram-se!
Agora, a forma esclavagista e desumana como portugueses estão a ser tratados na Holanda, à luz de uma Europa verdadeiramente unida, era assunto para abertura de telejornais pelo “velho continente” fora e, jornais conceituados como o “Der Spiegel”, “Le Monde”, “El País”, “Herald Tribune” ou “New York Times” fariam igualmente tema de caixa alta, não com o sentido sensacionalista, como fez a “Time”, antes sim numa verdadeira missão: a da equidade na informação. Só que, como em tudo, há os grandes, os pequenos e os outros. Pelos vistos, além de fazermos parte dos pequenos, também pertencemos, com toda a certeza, aos outros. Que chatice!

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Beba "Candidato Presidencial": um néctar de confiança!

No início da década de oitenta do século que há pouco terminou, o ensino Secundário em Portugal começava a incluir em algumas das suas áreas temáticas, o ensino de matérias relacionadas com a comunicação interpessoal e os seus agentes. A publicidade, a propaganda e as relações públicas davam assim os primeiros passos, tornando-se em grandes vectores de estudo, fazendo jus às renovadas exigências de um país livre e democrático.
Num primeiro vector, face à “invasão” de produtos de renome mundial de que Portugal foi alvo, como a Coca-Cola, a Pepsi-Cola, a Sony e outras, foi imperioso desenvolver diversas e bem pensadas campanhas publicitárias para promover a sua compra, junto dos vários públicos alvo, ávidos de novas possibilidades e de novas sensações.
Por outro lado, como segundo vector, Portugal como país livre e democrático, sente a necessidade de organizar ciclicamente actos eleitorais, a fim de poder permitir aos seus cidadãos a escolha da sua representatividade, junto dos órgãos de soberania do Estado. Para isso, foi igualmente necessário promover fortes campanhas ideológicas com discursos propagandísticos incisivos, capazes de arrebatarem a adesão do maior número de cidadãos. Quem não se lembra da célebre tirada “olhe que não, olhe que não”, proferida por Álvaro Cunhal, num debate televisivo, esgrimindo ideias entre ele próprio e Mário Soares?
Finalmente, num terceiro vector, com o declínio de algumas empresas emblemáticas associadas ao “Estado Novo” como a Companhia União Fabril (CUF), a Companhia Nacional de Navegação (CNN) e a Lisnave, emergem outras empresas, de teor mais mercantilista, cujo sucesso dependia em muito, da sua organização, capacidade, eficácia e competitividade internas. Era então importante, que possuíssem nos seus quadros, um bom serviço de relações públicas, capaz de fazer passar para o exterior uma boa imagem, condizente com os desejos dessas mesmas empresas ou serviços.
Centrando o meu raciocino apenas na publicidade e na propaganda, a grande diferença entre ambos situa-se nos objectivos propostos e na forma como as respectivas campanhas são desenvolvidas. No essencial, a publicidade visa promover a venda de um produto, sendo vedada a possibilidade de afirmar explicitamente que este produto seja melhor do que aquele. A propaganda, por outro lado, visa promover a adesão a uma determinada ideologia, onde aqui, já são possíveis termos de comparação entre ideologias.
Visto de uma forma mais distraída, estas técnicas de comunicação até parecem parecidas. Aliás, elas são frequentemente confundidas e atropeladas por alguma da nossa classe política. Se atentarmos nos discursos dos actuais candidatos à Presidência da República, temos o seguinte: Cavaco Silva não diz nada; o que diz são tiradas feitas, com conteúdos ocos, não se vislumbrando, no essencial, quaisquer projectos futuros. Visa apenas a adesão dos populares a uma imagem pré-concebida pelos “media” e não a adesão às suas ideias. Afinal, onde é que elas estão?
Por outro lado, todos os outros, em vez de tentarem afirmar junto dos seus diversos públicos a adesão aos seus próprios projectos, apresentando-os e discutindo-os, não; os seus únicos objectivos são denegrir a imagem do candidato melhor posicionado, segundo as várias sondagens. Pelo que se vê então, aquilo que estes pretendem é a despromoção de alguém e não a valorização das suas próprias ideias.
Mesmo que estes candidatos, por inoportunidade ou pela sua idade, não tenham tido a possibilidade de estudar as temáticas a que outras pessoas tiveram acesso, eles deveriam, com toda a certeza, saber distinguir o essencial e o óbvio, daquilo que é superficial, acessório e ridículo. Não estou mesmo a ver, de repente, no “pequeno ecrã”, aparecerem slogans do tipo: “Brandy Mário Soares, a fama que vem de longe!” ou então, “Vota Coca-Cola, de olhos nos olhos!”.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

"Lapsus mentalis"

O efeito galopante que a globalização provoca nas sociedades contemporâneas oferece-nos um conhecimento diversificado de acontecimentos e de pessoas, à escala mundial. Este fenómeno, iniciado em finais do século passado, causado sobretudo pela introdução de novas técnicas e tecnologias, postas ao serviço da comunicação humana, nomeadamente com a inclusão da internet, permitem hoje, tal como afirmava MacLuhan, que estejamos perante uma verdadeira “aldeia global”, onde nos sintamos, não como cidadãos de um qualquer país, antes sim, como cidadãos do mundo.
É comum, quando assistimos a um qualquer programa televisivo à escala planetária, sobretudo aqueles de carácter informativo, identificar determinadas pessoas que neles aparecem. Quem não consegue reconhecer pessoas como Nelson Mandela, Bill Clinton ou Fidel Castro? Contudo, nem sempre identificamos e conhecemos o nosso próprio vizinho que, diariamente, entra na mesma porta do prédio que habitamos.
Se à escala mundial, reconhecemos pessoas com as quais nunca privámos nem nunca nos foram apresentadas, como é possível ao político e candidato Mário Soares desconhecer o nome do candidato seu opositor, Cavaco Silva? Dizia ele há dias, vociferando num discurso inflamado, após horas antes ter despromovido o major Valentim Loureiro a capitão, que “…esse candidato, cujo nome não me recordo…”. Bem sei que esse desconhecimento foi um jogo meramente retórico; todavia, atrever-me-ia a considerá-lo antes, como um jogo de muito baixo nível político! Se o “combate político” é isto, prefiro que não haja combates!
Um homem que convida outro para a festa do seu aniversário, um homem que se intitula pai da liberdade e da democracia, um homem que apregoa por aí possuir um humanismo fora do comum, como pôde ter semelhante tirada? Este senhor, ao que parece, deve pensar que ainda vivemos à luz de uma qualquer monarquia constitucional, onde ele, o iluminado, tudo sabe, tudo fez e tudo pode e a quem o país tudo deve.
Como é possível, um político com o nome que Mário Soares diz ter, descer o nível da sua linguagem e dos seus (não) argumentos? Pelos vistos, na sua análise, nos seus propósitos e nas suas promessas, tudo vale! Se calhar, é por comportamentos destes que a abstenção se situa nos valores que todos conhecemos.
Se os agentes políticos servissem o país em vez de se servirem dele, com toda a certeza que não discutiam o que estava mal mas sim, enumeravam tudo aquilo que de bom tinham feito. Nesse dia, eu votava. Assim, com esta “bipolarização”, com apenas dois candidatos (Cavaco e os anti Cavaco), guardo-me para outras batalhas. Quem sabe, com a evolução da democracia, um dia possamos votar contra este ou aquele candidato. Nessa altura, com toda a certeza que a taxa de abstenção descerá e eu redimir-me-ei, votando em todos eles!...

quarta-feira, janeiro 11, 2006

"É uma casa portuguesa, com certeza"!

Há muito que venho reflectindo sobre a delapidação, emergente em alguns espaços ou áreas culturais do nosso país e que ocorre sob o olhar conivente dos vários órgãos que tutelam a cultura em Portugal. Urge fazer alguma coisa.
Em 1993, o país acompanhou de perto, através dos vários órgãos de Comunicação Social, toda a “novela” à volta da interrupção da construção da barragem hidroeléctrica sobre o Rio Côa, a propósito das gravuras paleolíticas aí existentes.
Embora a construção desta infra-estrutura energética gerasse alguma riqueza junto das populações envolventes e criasse alguns postos de trabalho tão necessários nos dias que correm, o Estado, e muito bem, não se alheou das suas responsabilidades e acabou mesmo por inviabilizar o projecto.
É certo que, como em qualquer outra causa, há sempre os apoiantes desta ou daquela posição. Uns, por questões meramente éticas e culturais, outros, por questões que estão quase sempre presentes em qualquer decisão. Falo, claro está, do jogo de interesses que muitas vezes estas decisões envolvem.
Obviamente, sem ter qualquer intuito de comparação ou de aqui traçar um qualquer paralelismo, gostaria de aqui trazer a grande perplexidade que causou a notícia sobre a demolição da casa onde o escritor Almeida Garrett viveu os últimos anos da sua vida, em pleno coração da cidade de Lisboa, com a total conivência da tutela e do edil lisboeta. O autarca argumenta que a demolição se justifica, face à “inviabilidade financeira da autarquia para adquirir o imóvel, reabilitá-lo e manter uma casa museu”.
Ora, toda a gente que mantém interesse sobre este assunto sabe qual o destino traçado para o espaço em causa. Pelos vistos, os interesses imobiliários especulativos sobrepõem-se aos interesses culturais. A associar a tudo isto, o dono do imóvel é ministro, pasme-se! Afinal, o que será a cultura e quem são os seus agentes?
Sou livre de imaginar que, se esta casa fosse o último abrigo de um qualquer cidadão, situada numa dessas distantes paragens do Portugal interior profundo, do tipo Alcoutim, Amareleja, Mogadouro ou Freixo de Numão, com certeza que já teria sido há muito expropriada! Sendo assim, por que esperam?
Num país onde há dinheiro para ajudar a manter e alimentar fundações particulares como a Fundação Mário Soares; para se fazerem projectos megalómanos a longo prazo, sem se saber ao certo as contrapartidas que daí advêm; num país onde se gastam (e bem) “rios” de dinheiro no ensino do inglês às crianças; será que esse mesmo país não tem recursos para mostrar igualmente a essas crianças a proveniência de muita da nossa riqueza linguística? Será que a tal “Cultura” de Estado não dispõe de uns míseros cêntimos para a reabilitação da casa de tão importante, distinto e ilustre escritor? Pelos vistos, até aparece que o “verde, verde dos olhos de Joaninha”, como dizia Garrett nas suas "Viagens", se transformou num “negro, negro”, aos olhos dos governantes!
Quem nada faz por tudo isto, será que algum dia terá tido a vontade e o privilégio de ler as deliciosas “Viagens na minha terra”? Será que saberão a importância que o seu ilustre autor e esta maravilhosa obra tiveram na formação, divulgação e difusão da nossa “portugalidade”? Pois é, se nunca leram, não atirem então com a primeira pedra!

quinta-feira, janeiro 05, 2006

"Ontem, hoje e amanhã"

Lá diz o “povão” que Ano Novo, vida nova! Pois é, assim o queremos e, anualmente, assim desejamos que seja, só que, falta saber o que é que é entendível para cada um a tal vida nova. Mal tinham soado as doze badaladas, na noite do último dia do ano, já alguns populares festejavam efusivamente a passagem para o novo ano, envolvidos num grande frenesim de euforia, deliciando-se com o momento por que passavam.
Outros, os profissionais da informação, entravam pelas nossas casas dentro dando-nos uma “boa nova” em primeira mão: os preços da generalidade dos produtos essenciais iam aumentar. Confesso que não quis acreditar que, aquelas almas efusivas festejavam a subida dos preços; festejavam a continuidade das mentiras transmitidas pela classe política que dirige este país. No fundo, acho que nessa noite entendi perfeitamente aquela máxima: pobres mas felizes!
Sem que nada o justificasse, a gasolina subia quatro cêntimos; os passes sociais, o tabaco, os bens essenciais como o leite e o pão acompanhavam os aumentos e qual foi a reacção popular? Festejos e mais festejos. No primeiro dia do ano, estatelados no sofá, o “pequeno ecrã”, agora convertido em muitas casas no “grande plasma”, percorria o mundo, mostrando-nos e deliciando-nos com imagens alusivas à passagem do ano nos vários pontos do universo.
Assim é, após ter passado esta “monção” sazonal, o país voltou ao seu leito e, com este regresso, voltam os comentadores e os economistas, impondo-nos um verdadeiro estado depressivo com as suas leituras sobre as percentagens, sobre os números sempre dúbios, que eu pensava serem exactos mas, afinal, há sempre uma subjectividade latente na sua leitura. A palavra deficit está gasta e é coisa do passado. Confundem-se os portugueses com palavras que ninguém entende e que interessam apenas a meia dúzia. A macroeconomia, os monopólios, as acções em bolsa, o PSI 20… enfim, tudo vale!
É urgente e prioritário falar-se em crescimento ou em retoma, mesmo que ambos sejam uma miragem ou ficção. Dá-se ênfase aos erros cometidos por executivos anteriores, mas ninguém tem coragem de dizer a todos os portugueses, o que representa, no bolso de cada um, a realidade dos tais aumentos verificados.
O Senhor Governador do Banco de Portugal vem dizer afinal, que se enganou nos cálculos elaborados minuciosamente em Maio passado, sobre as taxas de crescimento e de retoma nacionais e nada lhe acontece.
O Senhor Primeiro-ministro, talvez apressado em resolver os problemas do país, acabou por tropeçar num qualquer dossier e lesionar-se numa estância Suiça! Coitado, escusava muito bem de ter levado trabalho para fazer em férias! À falta de melhores muletas políticas, socorreu-se das que tinha mais à mão! O que nos vale é que, atravessamos uma época de “abertura de mercado” e, quem sabe, não possamos adquirir um substituto à altura, tal como acontece usualmente no futebol?
No Palácio de Belém, a “jarra” apenas espera pelo novo inquilino. Talvez com ele, fique melhor decorada e o país possa finalmente progredir, como todos fazem questão de dizer. A ânsia pelo poder é o que mais sobeja em qualquer candidato. Todos tão cultos e tão humanistas! Cada vez que me lembro daquela do Dr. Soares quando disse “…ó senhor guarda saia daí, desapareça, vá mas é embora” dá para rir. E se o tal guarda fosse mesmo embora e os convidasse a todos a seguirem-lhe as pisadas? Eu queria ver: perdia-se o nosso humanismo!...