terça-feira, novembro 22, 2005

"A ver navios"

A forte industrialização, ocorrida na Europa no início do século XIX, trouxe consigo, para além dos muitos inventos, novas necessidades para satisfação de uma renovada sociedade. As tarefas, até aqui produzidas directamente pela mão do Homem, são agora substituídas pelo frenesim da maquinaria. Homens e máquinas “lutam” arduamente, lado a lado, nas longas linhas de produção. Quem não se lembra do filme “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin, bem elucidativo destas ocorrências? É nesta época que germina um fenómeno importante: a “manufactura” dá lugar à “maquinofactura” no fabrico dos diversos produtos.
Mas, para que fossem postos em marcha todos estes enormes engenhos, foi necessário a procura de energia, capaz de movimentar toda esta engrenagem. Inicialmente, é o carvão e a sua indústria que respondem a esta necessidade. Esta energia é produzida em grande escala, levando à transformação de vastas paisagens e regiões. Como se tornava demasiado dispendiosa, sobretudo pelo seu transporte, o Homem socorreu-se de uma outra alternativa – o petróleo.
Esta energia, confinada a zonas muito específicas do planeta, sobretudo em países constituintes da antiga Mesopotâmia e da região do Crescente Fértil, tornou-se vital para as sociedades de hoje. Há mesmo países cuja economia depende da produção desta energia e, outros há, que fazem depender grande parte do seu tecido produtivo dessa mesma energia. Um exemplo paradigmático é Portugal.
Nos anos cinquenta do século XX, o Dr. Oliveira Salazar ainda tentou minimizar esta dependência, construindo diversas barragens hidroeléctricas, aproveitando os caudais dos principais rios. As barragens de Castelo de Bode, no rio Zêzere, junto a Tomar; de Bagaúste, no rio Douro, na Régua e outros projectos montados em plena serra do Gerês, nos rios Homem e Cávado, são disso verdadeiros exemplos. Todavia, com o avolumar da procura e a diversificação das necessidades, esta tentativa mostrou-se ineficaz e hoje, continuamos a ser um país altamente dependente, em termos energéticos.
Já muito ouvi falar de parques eólicos mas, até ao momento, esta energia pouco ou nada se reflecte na nossa economia. Como é possível que, um país como o nosso, com tantas serras, com um clima, em várias regiões bastante ventoso e agreste, não tem capacidade para um aproveitamento devido desta “dádiva”? O que faltará para uma maior incrementação desta indústria?
Por outro lado, é igualmente difícil encontrar um país, com a dimensão do nosso, que possua uma extensão de costa marítima como Portugal. Há muito que ouço falar na ideia da utilização da energia obtida através das ondas do mar. Temos uma vasta costa, capaz de satisfazer essa procura. Porque não se desenvolvem estudos aprofundados sobre este assunto a fim de provar e aprovar a viabilidade desta alternativa?
Mas, não nos podemos esquecer e alhear da ideia de que o petróleo e os impostos que ele gera são o maior “mealheiro” do Estado e, como está bom de ver, os sucessivos governos não quererão abrir mão deste chorudo fundo.
Afinal, pelo que me apercebo, neste país, o difícil não é ter ideias, o mais complicado, ao que parece, é aplicá-las! Em vez do “choque tecnológico” ou a par dele, o país precisa urgentemente de um “choque energético” para que não nos mantenhamos, impávida e serenamente “a ver passar os navios”!

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