terça-feira, novembro 08, 2005

Os "meninos" da rádio

Quem como eu, que não teve o privilégio de nascer, crescer e “formatar” as suas ideias à sombra de programas televisivos do tipo “Rua Sésamo” ou outro, adequados à sua idade e à sua época, sentiu a necessidade de procurar, junto de outros meios de comunicação, a satisfação dessa lacuna.
Face a uma escassa e ineficaz cobertura televisiva nacional, nos anos setenta, a rádio constituía-se como um meio de comunicação por excelência, tornando-se mais vulgar, mais acessível e mais difundido junto da generalidade das populações.
Foi desta forma que, desde muito jovem, aprendi a “dialogar” com algo que não perpassava o meu imaginário e, através do qual, me distraía e me divertia com alguns dos programas então oferecidos. Já aí, a interactividade “povoava” o meu pensamento, embora de uma forma inconsciente.
Programas como os “Parodiantes de Lisboa”, “Bola Branca”, “Alvo Desportivo”, “Oceano Pacifico” e “Lugar ao Sul” ajudaram-me em muito a crescer, a construir ideias e pensamentos, a imaginar formas e conteúdos, a criar ambientes e personagens, enfim, um sem número de conceitos que acabariam por moldar o meu pensamento.
Gostaria de destacar o programa “Lugar ao Sul” que ainda hoje vai para o ar, na Antena 1, entre a meia-noite e a uma da madrugada. É um espaço radiofónico onde o seu autor, Rafael Correia, dedica e difunde um “pouco de tudo” relativo à cultura dos locais por onde passa, que é como quem diz, retrata o Alentejo “profundo” e outros lugares espalhados pelo Algarve, lugares esses que não constam de um qualquer roteiro turístico.
Este programa é composto por um misto de música típica e popular, por sons vários, por entrevistas recortadas a pessoas simples que, ao longo da sua vida, se habituaram a “carregar” a sua experiência e o seu pragmatismo. São pessoas comuns, que vivem escondidas atrás de silêncios, longe da azáfama da modernidade, dispostas a partilhar connosco a sua mestria, a sua arte do cultivo e do amanho da terra; a “engenhosa” forma como passam de “mão em mão” as ancestrais práticas e técnicas, proporcionando ao espectador uma deliciosa viagem bem ao coração da ruralidade portuguesa. A estes, à rádio e ao Rafael Correia o meu “muito obrigado”!

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