quinta-feira, agosto 30, 2007

Férias a quanto obrigas!...

As férias são, por assim dizer, momentos em que nos decidimos a cortar com algumas das nossas habituais práticas do quotidiano, escolhendo usualmente passá-las fora do nosso habitat natural.
É nesta ilusão que procuramos enganar o nosso corpo e é nela que tentamos buscar um “doping” adequado para que nos possibilite enfrentar mais um árduo ano de canseiras e de preocupações inerentes à actividade diária que cada um desenvolve.
Como tantos outros, todos nós temos os nossos vícios diários em trabalho. Refiro-me à rotineira hora da “alvorada”; à viagem até ao nosso local de trabalho; às companhias que juntamos às refeições; aos nossos espaços de trabalho; aos programas de televisão preferidos; às leituras diárias que costumamos fazer; enfim, um sem número de coisas que impensadamente nos habituámos a fazer ao longo do ano.
Assim, se as férias são momentos para cortar com esta mesma rotina, porque não vivê-las? Este ano experimentei algumas sensações diferentes do habitual. Comecei por abandonar o relógio em casa. Não que já não goste dele ou que não funcione direito. Somente porque nestes refastelantes momentos é um acessório que não me oferece qualquer utilidade.
O horário das refeições foi igualmente alterado, agora já sem aquela rigidez que o dia a dia recomenda. À leitura da generalidade dos jornais informativos diários sucede-lhe a presença constante dos diários desportivos, das revistas generalistas e até dos tablóides cor-de-rosa. Sim, eu disse cor-de-rosa, algum problema? É a cor da moda!
Outra coisa que se modificou foi os canais e os hábitos televisivos diários. Dei por mim a engrossar o “share” de audiências das “tertúlias” da manhã, “zapeando” de canal em canal, sem perder pitada sobre as tricas ou os romances deste com aquela e/ou vice-versa, permitindo a invasão do meu “admirável mundo” por pessoas cuja sanidade intelectual se me prenunciava duvidosa. Pensei para mim: deixa lá, estou de férias!
Como se tudo isto já não fosse suficiente, eis-me de olhos esbugalhados, assistindo diariamente a uma brasileiríssima e “tropical” novela, onde personagens bonitas contracenam com outras de aspecto menos exuberante; onde ricos e pobres se tramam mutuamente; as personagens más buscam enredos para prejudicar as boas, chegando ao ponto de a mesma actriz contracenar consigo própria em distintos desempenhos. Bom, com todas estas peripécias e graças à minha cúmplice e inusitada passividade, aos poucos lá me fui convertendo num desses típicos espectadores.
Com tantas alterações e como não podia deixar de ser, a melancolia da minha rua dava também lugar a uma outra que ostentava como pano de fundo um deslumbrante horizonte de tonalidade celeste, num prenúncio claro da proximidade marítima, cenário convidativo a uns belos e prazeirentos banhos de sol e água.
Esticada a toalha, as “bolas de Berlim” logo se passeiam pelo vasto areal, num frenético e deslumbrante desfile, tornando-se perigosas de tão tentadoras e apetecidas! Os gelados não se ficam atrás: nesta minha “novela alimentar”, os “Magnum”, carregados de chocolate e amêndoas, contracenam na perfeição com as minhas “bolinhas”, candidatando-se este duo ao mais alto e distintíssimo Óscar.
Pois é, depois de contemplarmos este admirável e ilusório filme, há que dele retirar ilações. As férias terminaram e urge regressar às velhas rotinas de leitura e de televisão. A minha rua volta a ser a mais bela e depois… há que evitar este filme. Apesar de a acção central desta minha “novela” ser muito atractiva e de os Óscares serem indiscutivelmente merecidos, os “Magnum” e as apetitosas bolinhas acabaram saborosamente por provocar alguns malefícios. É pois, uma “novela” a evitar.
Maldito colesterol!... Cenas dos próximos episódios!...