quarta-feira, novembro 28, 2007

"Dois pesos, duas medidas"!...

Na década de noventa, talvez porque se afigurava muito na moda, desenvolveu-se uma caça desenfreada àquilo a que chamavam o “trabalho infantil”. Muitos órgãos de comunicação social apelidavam então Portugal de país de terceiro mundo, onde não se respeitavam os direitos das indefesas crianças, sentindo-se estas ofendidas pela ausência dos elementares deveres paternais exigidos aos seus progenitores.
Diariamente, os vários media plantavam-se à porta de fábricas (têxteis, de calçado e outras de índole mais familiar), interpelando crianças com ar assustado e rosto sujo da labuta diária, transportando o farnel a tiracolo, a caminho do seu local de trabalho, imagine-se! O mais caricato de tudo isto é que, a pobreza atinge por vezes determinados limites, onde há lares em que a opção não passa pela escola. Tudo se joga na dicotomia entre o passar fome ou o trabalho.
Sem quaisquer sombra de dúvidas que gostaria que situações destas fossem irradiadas da sociedade onde me insiro. Nunca fui a favor da emancipação laboral precoce e, sempre que isto acontece, devemos ecoar bem alto, apontando o dedo aos prevaricadores e aproveitadores.
Uma coisa nunca percebi. Porque será que os tais media nunca foram para a porta de produtoras cinematográficas, casas de espectáculos ou de actuações similares, onde diariamente crianças, a troco de auspiciosas carreiras de actores são constantemente exploradas? Afinal, não haverá aqui também trabalho infantil?
Quando Portugal sorria e saltava ao som do “bacalhau quer alho”, entoado pelo minúsculo e popular Saúl, num misto de infantilidade e de brejeirismo pimba, quem levantou o dedo, chamando a atenção para a exploração que aquele miúdo sofria face ao evidente aproveitamento dos pais?
Passados alguns anos, os muitos “Saúis” ainda andam por aí, se passeiam e permanecem activos, prontos para a exploração. Há bem pouco tempo, pensando na “galinha dos ovos de ouro”, em Braga, um pai deslocou-se até Lisboa, com um filho de oito anos, repito, oito anos! Na qualidade de “dono” do seu filho, assinou-lhe um contrato como futebolista com um famoso clube da capital. Tirou fotos trajado a rigor, pavoneou-se pelo estádio e, pelo comportamento, deve ter-se sentido um verdadeiro “rei da Prússia”!
Pouco tempo depois, quando confrontado com o desejo de um outro clube querer o filho nas suas fileiras, embrenhado numa frenética ânsia pelo dinheiro, não olha a meios e acha-se no direito de querer assinar um outro contrato com o segundo clube.
Feliz pelo seu comportamento, chama a comunicação social dizendo que o primeiro clube o induziu em erro, o iludiu e não sei mais quantas mentiras e que o filho estava impedido de fazer o que mais gostava: jogar futebol! Ora que eu saiba, um miúdo com oito anos quer ir à escola, brincar com os colegas, jogar o que lhe apetecer no recreio e disso o filho não está impedido! Estará impedido é de ter um pai aproveitador, explorador e manipulador de opiniões.
Aqui está um belo exemplo de trabalho infantil, entre muitos outros que grassam por esse país fora. Pelos vistos, trabalhar numa fábrica, angariando precocemente algum sustento para um agregado a viver em situação calamitosa e de miséria é exploração infantil. Todavia, pais esconderem-se por detrás de uma pretensiosa carreira para dela retirarem os seus dividendos não será exploração? Querem melhor evidência para os tais “dois pesos e duas medidas”?

segunda-feira, novembro 19, 2007

Contra os mandriões, assobiar, assobiar!...

Já passou mais de um século desde a invenção do futebol. No início, um qualquer confronto desportivo tinha como fundamento aquela premissa muito célebre em que “ganhar ou perder era desporto”.
Por norma, o adepto apoiava o clube da sua terra, do seu bairro, da sua proximidade ou mesmo do seu país. Foi assim que, em anos sucessivos, cresceram massas de simpatizantes, ávidos de espectáculo, de bom futebol e, consequentemente, de resultados positivos. Por estas alturas, o dinheiro não era quem mais ordenava e, assim sendo, conjugava-se um misto harmónico entre adepto e equipa de futebol.
Por mais que o queiramos encobrir, os tempos mudaram e hoje, os interesses que regem a actuação dos atletas é outro. Há uma grande conveniência em representar a selecção nacional pelos dividendos económicos que daí se retiram. Não vejo nos dias que correm e estampado nessa representação, o orgulho, o esforço e a dedicação de outrora.
Os jogadores, pomposa e gigantescamente bem pagos, limitam-se a cumprir com os mínimos, coisa que nem sempre conseguem. Derrotas, empates e espectáculos deprimentes, sem brio e sem brilho perante equipas cujo ranking mais se assemelha a um “terceiromundismo do futebol”, são hoje mais do que comuns.
Não compreendo então que, para assistirmos a tamanhos e tão deprimentes espectáculos, se exija aos torcedores um bolso cheio de dinheiro, sobretudo quando se trata do tal “clube do coração”.
Quando vou a uma ópera, a um bailado, ou a um qualquer concerto, depois de pagar o meu ingresso, a única coisa que peço ou de que estou à espera, é de um espectáculo que me encha o olho e não, esperar ansiosamente pelo insubstituível “the end”. Aqui, não me importa que seja o meu vizinho, o meu conhecido ou alguém que mora nos antípodas. Importa que, enquanto actores e artistas me brindem com um espectáculo condizente com a quantia que voluntariamente despendi e com o prestígio que evidenciam junto da sociedade.
Por estes dias, um número elevado de espectadores premiou a selecção nacional de futebol com um estrondoso coro de assobios perante tão paupérrima exibição diante da sua congénere Arménia. Vieram logo a terreiro muitas gargantas argumentar que eles, os jogadores, andavam lá a fazer o seu melhor e a cumprir com os seus objectivos que era vencer! Como se vencer pela margem mínima, alguém que se encontra na cauda da tabela fosse algo de extraordinário!
Não penso assim. Quando se trata de representar e, quando para tal somos pagos e bem pagos para o fazer, acho que temos o direito e o dever de colocar “toda a carne no assador”, sobretudo, por respeito a quem paga exorbitantes quantias e aos acérrimos seguidores do tal clube do coração.
Já terá passado pela cabeça algum dia, quando contratamos um picheleiro para nos consertar o autoclismo do WC e, findo o trabalho com sucesso, batermos palmas ao bem sucedido descarregar da água? Já alguém imaginou eu plantar-me perante a minha impressora e, depois de seleccionar “print” a impressora começar a imprimir um determinado ficheiro e eu ovacioná-la efusivamente? Se assim fosse, no final de cada viagem que faço, o meu “petit Jaguar”, leia-se Opel Corsa, passava a corar com tantas ovações que merece!
Pois é, enquanto houver um conjunto de “prima donas” em determinados sectores do nosso mundo – político, social, cultural ou outro – não deixaremos nunca de olhar apenas e só para a biqueira das nossas botas, impedindo-nos de uma visão um pouco mais além e bem mais abrangente.

quarta-feira, novembro 07, 2007

O "negócio" da China!...

É sabido que a Europa viveu um apogeu económico ao longo de todo o século XIX, fruto essencialmente de uma gigantesca “Revolução Industrial” que resultou em economias fortes e prósperas. Esta industrialização cruzou a quase totalidade dos países do “velho continente”.
Enquanto isto, Portugal entretinha-se com lutas intestinas entre absolutistas e liberais, arrasando o país num caos social e financeiro, sem estruturas e sem meios de produção, capazes de ombrear e concorrer com as demais economias europeias.
Foi assim que Portugal cavou e deu início a um fosso profundo de desenvolvimento para com os seus pares, posicionando-se na cauda do progresso europeu. Em vez de aproveitarmos um conjunto de inovações técnicas capazes de catapultar a nossa economia para patamares elevados, entretivemo-nos com brigas pelo poder e com lutas políticas sem qualquer sentido.
Com a ascensão dos países ricos e com a cada vez maior necessidade em falar a mesma língua, Portugal demorou a compreender o quão importante era a obrigatoriedade do ensino de uma língua transversalmente falada. Preocupávamo-nos, pura e simplesmente, em saber ler, escrever e contar, premissas dignas de um Estado arcaico e baseadas na altivez do “orgulhosamente sós”.
Hoje, há muito que a língua inglesa se encontra enraizada no quotidiano das pessoas e há muito que ela se pôs em prática. Contudo, a obrigatoriedade do ensino dessa mesma língua, apenas recentemente surgiu como uma grande bandeira, como um verdadeiro acto heróico governativo!
A mim, soa-me de forma diferente. Acho que com esta medida voltámos ao século XIX a correr atrás do último do pelotão da frente. Hoje, com economias orientais prósperas, com crescimentos nunca dantes vistos, não será fácil de perceber que dentro de uma década, colossos asiáticos como a China são os que dominam os mercados mundiais.
A ser assim, para além da tecla já gasta e envelhecida do inglês nas nossas escolas porque é que o governo, numa atitude inteligente, racional e inovadora, não aproveita o contacto já estabelecido no século XVII, nas relações comerciais entre portugueses e chineses e promove o ensino do “mandarim” nas nossas escolas? Pegando no estilo “Professor Marcelo”, é uma medida arrojada? É! É uma medida possível? É! Traz benefícios futuros? Traz! Dá projecção ao governo? Muita!
Se outrora, em vez da industrialização, optámos pelas lutas internas e fomos mal sucedidos, porque não aprender hoje com os erros do passado e criamos condições e estruturas prontas para responder a desafios futuros, capazes de nos proporcionar um assento privilegiado no pelotão da frente? É que, é sempre preferível ser o último dos primeiros do que o primeiríssimo dos últimos!...