quinta-feira, outubro 13, 2005

O "autocarro" da lusofonia

Na passada semana assisti a uma conferência internacional intitulada “Comunicação e Lusofonia”, onde se debateram, nos diversos painéis existentes, a lusofonia e as políticas da língua e da identidade.
Neste encontro, para além das entidades organizadoras nacionais, havia também representações de diversos países como Angola, Brasil, Moçambique e Timor-Lorosae.
Ora, tal conferência não poderia ter sido mais oportuna. No dia seguinte, sábado, as selecções nacionais de futebol de Portugal e de Angola conseguiram, nos respectivos grupos, o acesso à fase final do Campeonato do Mundo de Futebol, a disputar em meados de 2006, na Alemanha. A selecção brasileira, uma “habituée” nestas lides, há muito que tinha conseguido o seu apuramento.
Pois é, como é bonito ver que, num certame realizado a nível mundial, quase 10% dos países participantes são parte integrante do tal “mundo lusófono”!
Mas voltando à minha conferência, como é tão contrastante algumas coisas que aí ouvi, relativamente à realidade sócio-cultural da tal “lusofonia” que nos une a alguns dos países aí representados!
Entre diversas intervenções, aquela que mais me chamou à atenção, foi a do representante de Moçambique, um alto responsável na área da Comunicação de uma conceituada universidade moçambicana. Dizia ele que, somente 10% dos moçambicanos falava o português! Eu repito, 10% num universo de cerca de 16 milhões de habitantes, pasme-se!
Depois de há já alguns anos, pomposamente, terem sido criadas a comunidade de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e, posteriormente, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), nomenclaturas tão sugestivas para a difusão, o ensino e a aprendizagem da essência da “lusofonia” – a língua de Camões – como é possível que nos dias que correm, apenas uma ínfima percentagem de moçambicanos a falem?
Obviamente, sem me questionar sobre os dados lançados e sobre a veracidade das palavras deste alto responsável africano, pergunto como isto é possível? Será que há um verdadeiro e efectivo empenho dos responsáveis locais? Será que não haverá uma sobreposição relativamente a outros interesses instalados?
É certo e sabido que Moçambique viveu um longo período de conturbação social, com guerras internas e com uma forte ingerência externa sobre as suas políticas. Todavia, o dever dos seus responsáveis políticos é o de dar argumentos às populações para inverterem esta situação e, a avaliar pelos números atrás mencionados, tal não terá sido feito!
Valendo-me desta analogia, afinal, a lusofonia é como um autocarro que apanhamos para um determinado destino. Cabe a cada “passageiro” sentar-se nele como muito bem desejar! É por tudo isto que, para mim, a lusofonia tem uma visibilidade maior se entendida não como um espaço sócio-cultural, antes sim, como um espaço geográfico que congrega no seu seio interesses vários e de oportunidade!

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