quarta-feira, abril 02, 2008

"Calem-se os chinos, cantem os monges!..."

Nunca me considerei um fervoroso partidário dos separatismos territoriais, sobretudo quando em causa estão pequenos enclaves cujas áreas se afiguram muito pouco expressivas, com elevada escassez de recursos naturais, gerando economias débeis, provocando vulnerabilidade nas suas populações, mal estar social, miséria e uma enorme dependência externa.
Apesar de tudo isto, existem muitas vezes engenhosas e poderosíssimas acções de marketing convidando o cidadão comum a aderir a causas que, em condições normais não fariam nem teriam qualquer sentido. A este propósito, lembro-me da recente independência de Timor-leste e dos problemas posteriores vividos pelas suas populações. A ausência de organização, de estruturas e a inexistência de um verdadeiro sentido de Estado levaram a escaramuças, chacinas e a uma forte instabilidade político-social.
Poderíamos pensar que estas ocorrências apenas teriam lugar lá longe, na Ásia, lugares sem tradições democráticas mas, afinal, tal não é verdade. Ainda há bem pouco tempo, a Europa e muitos europeus acabaram por dar um tiro no seu “umbigo” ao reconhecerem o Kosovo, antiga província Sérvia, como país independente.
Não percebo como isto terá sido possível sobretudo se pensarmos que este território é composto apenas por cerca de onze mil quilómetros quadrados e com uma população estimada em dois milhões e meio de habitantes. Dito assim, até nem soa muito mal se compararmos este território com outros da sua dimensão. O pior é quando nos apercebemos que a subsistência da generalidade destas populações depende da omnipresente ajuda externa e da generosidade internacional.
Nunca entendi como terá sido possível gerar tamanha mobilização internacional em torno destes dois “minúsculos países”. Será que a tal comunidade internacional desejava para estes dois territórios apenas e só o direito à sua autodeterminação, convertendo-os em países autónomos e livres? Não creio, senão vejamos: Porque viraram as costas estes arautos da liberdade e da autodeterminação à emergente repressão vivida no Tibete, território que o regime comunista chinês invadiu e anexou há mais de meio século, oprimindo brutalmente as suas populações, promovendo bárbaras chacinas, num claro desrespeito pelos direitos humanos?
Perante esta área geográfica (semelhante à da Inglaterra); a densidade populacional e o forte desejo de autodeterminação, parece-me que o Tibete em nada fica atrás dos casos anteriores, bem pelo contrário. Aquilo que me parece evidente é que a vida de um monge vale menos do que a próspera economia chinesa, tão importante no Ocidente; do que o petróleo de Timor-leste ou do que o interesse estratégico americano no tal “umbigo” da Europa.
Por onde andam os lençóis brancos suspensos nas janelas das casas ou pendurados nos carros. Onde estão as longas vigílias à porta das embaixadas? Para quando um minuto de silêncio como forma de despertar para este problema? Porque não tivemos coragem de receber o Dalai Lama, aquando da sua recente visita, na Assembleia da República, “sala de visitas” da nossa liberdade? Porque não se encontrou o Presidente da República Portuguesa com o máximo representante do povo tibetano? Porque não fizeram todo aquele alarido como o haviam feito com Ramos Horta e Xanana Gusmão? Porque não se boicotam os Jogos Olímpicos de Pequim? Talvez porque os monges e a sua cultura não marquem a agenda internacional. Só desejo que um dia se possa cantar bem alto: “Ai Tibete, calem-se os chinos, cantem os monges!...”

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