No passado mês de Agosto celebrou-se o centenário do nascimento do médico Adolfo Correia da Rocha que, fruto de uma vasta e excepcional obra poética e literária, conhecido pelo pseudónimo de Miguel Torga, acabou por deixar marcas bem esculpidas na cultura portuguesa.
Começa a ser familiar e é com alguma naturalidade, que estes eventos são acompanhados e presenciados por destacados membros do Governo, sobretudo por aqueles que se encontram mais ligados às áreas da Cultura e/ou da Educação. Muitas das vezes até marcam a sua presença sem que o evento o mereça mas, não seria certamente este o caso, dado tratar-se de uma ímpar e incontornável figura da nossa literatura.
Mas, afinal o que se passou no pretérito mês de Agosto? Os membros do Governo, talvez mobilizados para banhos no Algarve; distraídos num qualquer safari pelo Quénia ou numa outra qualquer paragem, alhearam-se por completo desta efeméride, não se fazendo representar por qualquer individualidade, cujo peso e importância fossem condizentes com aquele relevante momento.
Pensei: que terá feiro o saudoso Torga para tamanho ostracismo? Terá a ver com ideais políticos? Não me parece pois, pela conversa que mantive com algumas pessoas próximas do escritor, percebi que a sua ideologia política até pendia para o flanco esquerdo!
Volvido cerca de um mês, o tal Governo que tinha acabado de ostracizar Torga, desenvolve uma engalanada e bem montada cerimónia, trasladando para o Panteão Nacional o corpo do escritor Aquilino Ribeiro, como forma de perpetuar a sua memória, enaltecendo a excepcionalidade da sua obra e o seu aguerrido carácter.
O Governo marcou presença em peso para nesta cerimónia, não se coibindo de arranjar mil e um argumentos para tamanha distinção. A meu ver, escusavam de ter ido tão longe, ou melhor, escusavam de ter ficado “tão perto” com o esquecimento dado a Torga.
Teceram-se mil e um argumentos, rasgaram-se múltiplos elogios a Aquilino e à sua obra só que, o melhor tributo que as entidades governativas poderiam ter feito era acordar os livros da sua autoria que se encontram adormecidos nas velhas e poeirentas estantes e difundi-los pelas escolas. Esta era uma velha prática na década de setenta, onde a qualquer estudante do ensino secundário se pedia como tarefa de carácter opcional a leitura da obra “O romance da raposa”, uso que com os sucessivos governos democráticos saiu da “ementa” escolar.
Mas, voltando ao dualismo comportamental do Governo perante estas duas cerimónias, parece-me óbvio que não terá sido apenas a invulgar capacidade na escrita de cada um. A avaliar pela presença e distinção, pareceu-me de grande importância o facto de Aquilino ter sido terrorista, ter participado no regicídio e ter sido anti fascista.
Com duas certezas concluo esta minha reflexão: o Governo nunca perderá tempo comigo numa qualquer cerimónia pois não tenho quaisquer dotes poéticos. Por outro lado, jamais terei assento no Panteão Nacional pois sempre renunciei ao terrorismo; o país já não tem monarca para assassinar e já não vou a tempo de ser anti fascista!
Será que ser anti populista também dá pontos? É que se assim for, ainda acalento alguma esperança!
Valha-me Santa Engrácia!...
Começa a ser familiar e é com alguma naturalidade, que estes eventos são acompanhados e presenciados por destacados membros do Governo, sobretudo por aqueles que se encontram mais ligados às áreas da Cultura e/ou da Educação. Muitas das vezes até marcam a sua presença sem que o evento o mereça mas, não seria certamente este o caso, dado tratar-se de uma ímpar e incontornável figura da nossa literatura.
Mas, afinal o que se passou no pretérito mês de Agosto? Os membros do Governo, talvez mobilizados para banhos no Algarve; distraídos num qualquer safari pelo Quénia ou numa outra qualquer paragem, alhearam-se por completo desta efeméride, não se fazendo representar por qualquer individualidade, cujo peso e importância fossem condizentes com aquele relevante momento.
Pensei: que terá feiro o saudoso Torga para tamanho ostracismo? Terá a ver com ideais políticos? Não me parece pois, pela conversa que mantive com algumas pessoas próximas do escritor, percebi que a sua ideologia política até pendia para o flanco esquerdo!
Volvido cerca de um mês, o tal Governo que tinha acabado de ostracizar Torga, desenvolve uma engalanada e bem montada cerimónia, trasladando para o Panteão Nacional o corpo do escritor Aquilino Ribeiro, como forma de perpetuar a sua memória, enaltecendo a excepcionalidade da sua obra e o seu aguerrido carácter.
O Governo marcou presença em peso para nesta cerimónia, não se coibindo de arranjar mil e um argumentos para tamanha distinção. A meu ver, escusavam de ter ido tão longe, ou melhor, escusavam de ter ficado “tão perto” com o esquecimento dado a Torga.
Teceram-se mil e um argumentos, rasgaram-se múltiplos elogios a Aquilino e à sua obra só que, o melhor tributo que as entidades governativas poderiam ter feito era acordar os livros da sua autoria que se encontram adormecidos nas velhas e poeirentas estantes e difundi-los pelas escolas. Esta era uma velha prática na década de setenta, onde a qualquer estudante do ensino secundário se pedia como tarefa de carácter opcional a leitura da obra “O romance da raposa”, uso que com os sucessivos governos democráticos saiu da “ementa” escolar.
Mas, voltando ao dualismo comportamental do Governo perante estas duas cerimónias, parece-me óbvio que não terá sido apenas a invulgar capacidade na escrita de cada um. A avaliar pela presença e distinção, pareceu-me de grande importância o facto de Aquilino ter sido terrorista, ter participado no regicídio e ter sido anti fascista.
Com duas certezas concluo esta minha reflexão: o Governo nunca perderá tempo comigo numa qualquer cerimónia pois não tenho quaisquer dotes poéticos. Por outro lado, jamais terei assento no Panteão Nacional pois sempre renunciei ao terrorismo; o país já não tem monarca para assassinar e já não vou a tempo de ser anti fascista!
Será que ser anti populista também dá pontos? É que se assim for, ainda acalento alguma esperança!
Valha-me Santa Engrácia!...
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