terça-feira, janeiro 06, 2009

Ai se fosse a coser sapatos!...

Na noite da passagem de ano, a estação de televisão TVI presenteou muitos dos telespectadores portugueses com um espectáculo musical insólito, onde o grupo de protagonistas intervenientes nesse mesmo programa era composto por crianças, cuja idade rondava a dezena de anos.
Todos nós sabemos que o objectivo principal daquela gala não se prendia unicamente com a ajuda material ou pecuniária a quem quer que fosse, muito menos, descobrir novos talentos na arte de cantar. Ali, lutava-se arduamente pela ditadura diária das audiências televisivas, desvalorizando ou pouco se interessando com a hora tardia a que aquelas jovens criaturas deveriam repousar para uma boa noite de sono. Afinal de contas, a meia-noite há muito que ficara para trás!
Fui detido, por momentos, a fazer exercícios de imaginação e não consegui vislumbrar uma justificação plausível para tamanho silêncio da generalidade das diferentes instituições sociais e da imensa lista de órgãos de comunicação social portugueses. Questiono-me então: e se, em vez de ser a dita estação de televisão a ocupar àquela hora e a explorar daquela forma aquele grupo de crianças, estas fossem descobertas a laborar numa qualquer fábrica de calçado ou de têxtil, situada preferencialmente no Vale do Ave, à mesma hora e nos mesmo moldes?
O que diriam agora os órgãos de comunicação sobre esta descoberta? Exploração infantil; pais exploram crianças; crianças vítimas de maus-tratos; crianças sem direito a ir à escola e ao descanso!... Estas seriam porventura as parangonas mais escritas, lidas e ouvidas por esta altura! No local, faziam-se directos e mais directos, bem ao “estilo TVI”, envolviam-se inúmeras individualidades ligadas à psicologia e à protecção social. Chamavam-se os mediáticos Hernâni Carvalho ou Moita Flores, procurando-se no imediato, mover processos-crime aos pais e pensar logo na forma como retirar os filhos da sua guarda. Afinal de contas, estas crianças “apenas” estavam a tentar contribuir e a ajudar para o melhoramento da vida do seu agregado familiar!
Não entendo então o porquê de dois pesos e de duas medidas. Se é aproveitamento e exploração infantil o trabalho efectuado em fábricas e em outros locais similares, não será igualmente exploração infantil a forma como alguns pais e alguns órgãos de comunicação se servem das indefesas criancinhas e as lançam na ribalta, sem qualquer tipo de protecção? Será que o tal “share” ou um qualquer capricho paternal não obedecem a regras, tal como existem em outras áreas da nossa sociedade?
Tanto que ouvimos falar em pedo-psiquiatras, em psicologia infantil e comportamental e, afinal, por onde é que estes especialistas andam? Para quando a entrada em acção dos responsáveis deste país, ajudando a por cobro a esta exploração simulada e encapuzada? Quando é que este “trabalho exploratório” marca de vez a agenda diária informativa? Ou apenas interessa falar dos desgraçados, dos desprotegidos e carenciados a quem a vida não bafejou e que são os mais vulneráveis. Não interessa mexer com os poderosos, pelos vistos!
Era interessante saber, daqui a alguns anos, quantas pessoas se lembrarão daquelas crianças exibidas como troféus ao longo da noite ou mesmo, se alguma delas terá pisado mais alguma vez um qualquer palco, ganhando a vida com a arte de “musicar”. Disso ninguém se vai interessar!...

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