quarta-feira, outubro 08, 2008

O "Magalhães" gamou o "Gama"!...

Durante uma vida de adolescente, sempre ouvi dizer pelas salas de aula por onde passei que o acto de copiar, para além de falacioso, era uma acção de grande injustiça perante quem se esforça, se dedica e investe muito do seu tempo ao estudo, à descoberta e à criatividade intelectual.
Mais tarde, já adulto, agora nos bancos da Universidade, via com os meus próprios olhos essa reprovada conduta fraudulenta, censurável e nada recomendada a uma sociedade que se pretende competitiva, justa e igualitária, onde a “meritocracia” se deve sobrepor à mediocridade de uns quantos que tentam ludibriar o sistema instituído.
Na minha visão crente, pensava eu que isto se confinava às escolas e à juventude daquelas crianças, algumas delas já adultas, cujo único objectivo era, usando de um esforço reduzido, ir passando de ano, mostrando ao mundo que a sua esperteza se sobrepunha “saloiamente”, à intelectualidade esforçada de outros!
Mas, depressa esta minha esfera da escola perpassou cá para fora, que é como quem diz, se esticou à dita “sociedade civil”. Sempre ouvi dizer que era feio copiar. Todavia, plagiar seria duplamente feio porque, para além da miserável cópia da criatividade de outrem, definirmo-nos como seus autores soa-me a um verdadeiro roubo; a algo deplorável numa sociedade do conhecimento. Quem não se lembra das ideias e dos artigos publicados em seu nome de uma “académica” (imagine-se!), de nome… qualquer coisa “Pinto Correia” (recuso-me a pronunciar o nome próprio). Afinal, o que andei eu a aprender na Universidade se era tão fácil enganar?
Ao mesmo tempo, tem sido voz corrente que um “intelectual” da nossa canção, dono de um inigualável sucesso no seio da massa popular; figura omnipresente na televisão pública portuguesa e nas comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo, tinha roubado a autoria de algumas das suas canções de sucesso a cantores oriundos da longínqua e pouco divulgada América Latina e Central.
Perante isto, o que hei-de eu pensar sobre a “nossa” mais recente e superiormente famosa invenção – o “Magalhães”? Pelo que alguns órgãos de comunicação social vêm divulgando, o projecto não teve origem em Portugal. Ele já existe desde 2006 e é da responsabilidade da Intel que lhe deu o nome de “Classmate PC”. Apresenta-se como um “laptop” de baixo custo que era destinado ao terceiro mundo e que já é vendido há muito tempo!
A ser visto verdade, tudo terá sido pomposa e cuidadosamente noticiado, numa verdadeira acção de campanha governativa, de forma a dar ideia de que o “Magalhães” é algo de completamente novo e com origem em Portugal. Que governantes tão criativos nós temos!
Nada me move contra o navegador ou contra quem se identifica com este nome, bem pelo contrário! Afinal, aquele Magalhães, “por obras valerosas”, como dizia Camões, mostrou Portugal ao mundo e trouxe o mundo aos Portugueses.
E porque não chamar-lhe “Gama”? Não em homenagem ao eloquente descobridor da Índia, mas sim, como forma de enaltecer os que usurpam a autoria, o pioneirismo e a criatividade deste projecto. Pelo andar da carruagem, temos de estar preparados para a descoberta que aí vem. É algo de verdadeiramente insólito: a roda. Dirão uns: mas ela há muito que foi descoberta! Respondem os promotores: mas a nossa é diferente; é circular; é bonita e é “absolutamente indispensável”!...

Sem comentários: