terça-feira, fevereiro 19, 2008

No país das maravilhas!...

Nunca achei possível existirem dois países com o mesmo nome, situados no mesmo espaço geográfico, com as mesmas gentes, com a mesma cultura e, consequentemente, com o mesmo passado histórico. Todavia, estes dois países têm uma grande diferença: um, o Portugal real é um país onde os salários são baixos; o desemprego sobe em catadupa; os cidadãos morrem por falta de eficácia na assistência médica primária; os partos são feitos por bombeiros no interior de ambulâncias a caminho de um longínquo hospital; onde no ensino se instruem os estudantes sobre como obter um certificado de capacitação sem nada terem feito para o conseguir; onde os professores são avaliados em função da taxa de aprovação dos seus alunos; onde alguns funcionários da administração pública são obrigados a ser excelentes e outros são impedidos de o alcançar. Um país onde o mal-estar social é por demais evidente, vivendo-se num verdadeiro clima de medo, de incerteza e, sobretudo de descrença e de desmotivação.
No contraponto a este, existe o Portugal maravilhoso – o de Sócrates, o Portugal da fantasia, da ficção e também o da mentira! Pude constatar esta realidade ontem, quando perante a televisão, assisti a uma entrevista dada pelo líder do governo que, pensava eu, ser o do meu país mas, afinal, pelo que ouvi, pareceu-me ser de um outro. Nessa longa e livre conversa, o político aproveitou a sua exímia capacidade manipuladora, presenteando os seus concidadãos com dados e com elementos absolutamente fantasiosos, invertendo totalmente o rumo que o país está a tomar.
Sócrates e Mecenas foram duas figuras marcantes nas longínquas, Grécia e Roma. Agora, Portugal tem esses dois colossos num só! O ponto máximo do ridículo daquela entrevista foi atingido com os dados sobre o desemprego. Toda a gente sabe que vivemos numa época de forte recessão, patenteada num crescente desemprego. No entanto, o “Mecenas lusitano” afirmou mais do que uma vez que em três anos criou cerca de cem mil empregos! Bom, num total de quinhentos mil, este ilusório decréscimo faria com que baixássemos dos actuais oito por cento para uma percentagem muito inferior. Para comprovar esta evidência, “é só fazer as contas”, como diria outrora um famoso político da mesma cor!
Como estou farto de viver neste maravilhoso país! Eu, que estava habituado a lutar diariamente, vivendo de algumas privações e de alguns sacrifícios normais para o dia a dia, vejo-me agora a viver nesta utopia do consolo, do refastelo e do oásis, numa nação despida de pobreza, de desemprego e sem qualquer agitação social – o país das maravilhas!
Quero de volta o meu país, aquele onde os carros e as pessoas são arrastadas e afogadas nas sarjetas entulhadas, ao mínimo sinal de catástrofe. Aquele onde os processos judiciais sobre pedofilia e corrupção se arrastam “vitaliciamente” e onde os diplomas se arranjam ao quilo e nada se faz com eles.
Ah, e onde os políticos também dizem o que querem e nada lhes acontece. Quem não se lembra da responsabilização e auto demissão de um então ministro aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios naquela fatídica e horrenda noite de Março de 2001! E hoje, vemo-lo como um assíduo comentador político, ideólogo do programa do governo e grande agitador de massas. Que bela viagem eu fiz e que bom foi este regresso! Quero o meu país de volta mas antes, fiquem com estas "Alices"!...

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