quarta-feira, janeiro 18, 2006

As "cru(eldades)" da cozinha

Já muito se escreveu acerca das mudanças sociais que Portugal sofreu com a revolução de Abril de 1974. Mudanças estruturais, mudanças de hábitos e costumes, mudanças de mentalidades, enfim, elas fizeram-se sentir nos mais variados quadrantes da sociedade. Entre muitas outras coisas, os portugueses passaram a dispor de uma diversidade de ofertas capazes de responderem aos seus anseios, bem à semelhança daquilo que outros países haviam sentido alguns anos antes.
A Portugal, começavam a aportar produtos de grandes marcas multinacionais como a Coca Cola, deliciando os portugueses com sensações bem americanas. Esta bebida é bem aceite pelas classes etárias mais jovens da população portuguesa. Mas, esta “americanização” não se fez sentir apenas nas bebidas, ela sentiu-se igualmente na restauração, através da forte e incisiva entrada da cadeia de restaurantes McDonad’s, proporcionando o saborear de todos aqueles “plasticizantes” sabores. Como em tudo: há quem goste; adore e há os indiferentes ou mesmo os que não apreciam. Confesso que me dou bem melhor a saborear uma boa “feijoada” bem portuguesa ou um belo “cozido” da mesma nacionalidade.
Embora não me considere um daqueles “comedores profissionais”, longe disso, gosto, de vez em quando, de dar uma voltinha por sabores de outras nacionalidades. Afinal, a globalização também a isso nos leva, ora essa!
Muitos de nós, já terão com certeza, experimentado os sabores bem orientais da cozinha chinesa. Estes espaços multiplicaram-se, fazendo lembrar o célebre “milagre dos pães”, com uma oferta muito diversificada, quer em géneros, quer em espaços existentes. A meu ver, são espaços com alguma originalidade mas apenas para frequentar de vez em quando.
Quem marca igualmente presença, embora em número mais reduzido, é a cozinha indiana, sempre muito bem condimentada, com o típico pimentão a marcar presença assídua; aromática e com uma oferta de paladares muito apreciável. Aqui, as tais especiarias que tanto esforço deram aos nossos navegadores durante a expansão portuguesa, chegam-nos agora à mesa de forma descontraída e com originalidade.
Cozinhas há que vão ganhando igualmente o seu espaço. A russa e a ucraniana encontram-se numa fase de franca ascensão, tentando responder à procura de um número crescente de frequentadores, sobretudo com a chegada de imigrantes provenientes dessas paragens.
A italiana também tem alguma projecção, sobretudo com as suas famosas pastas e onde os queijos de forte sabor aqui deixam a sua marca.
Também a cozinha brasileira vai ganhando o seu espaço, sendo aquela que, a meu ver, mais se assemelha com a nossa. Muito rica, diversificada, aromática, onde o feijão é rei à mesa.
Com visitas que tive a oportunidade de fazer, a todas elas me "aculturei", com maior ou menor dificuldade. Todavia, há uma que me deixou verdadeiramente de “olhos em bico”: a cozinha japonesa! Uma das grandes invenções do Homem ao longo do seu processo evolutivo, foi o fogo, para com ele, poder cozinhar os seus próprios alimentos. Mas, pelo que vi, esta invenção, aos olhos dos japoneses, terá sido tempo perdido pois a comida serve-se crua, imagine-se! É uma sensação esquisita saborear e tentar comer salmão, sardinha, lulas ou qualquer outro peixe crus. Atenção, eu disse crus!
Mas, lá fiz o meu esforço, pensando em outras coisas enquanto tentava comer. Felizmente, passados alguns instantes, tive o meu momento alto de lucidez: não comer mais! Pensei para comigo: uff, desta já me safei! No final do jantar, a única coisa que verdadeiramente apreciei foi uma cerveja que pedi, de nome “Carlsberg”. Afinal, terá sido esta, a verdadeira “cereja” do meu repasto! No futuro, enquanto a tal invenção do Homem não se aplicar na cozinha japonesa, prometo não condenar ninguém a lavar o meu prato!

2 comentários:

Anónimo disse...

Também não sou um "comedor profissional", mas, sempre que posso, faço algumas incursões culinárias por gostos e sabores de outras latitudes. Já tive boas surpresas e monumentais "barretes"; todavia poucas vezes me ri com tanta vontade como ao imaginar a "cara" do autor, nesta incursão pela cozinha japonesa!
Reconforte-se! Não é o único. Já houve "ansiados" banquetes que terminaram em patéticas corridas ao WC do restaurante!

Anónimo disse...

Meu caro "Anónimo":
Concordo em pleno com aquilo que diz e com a argumentação usada mas... sabe como são estas coisas da curiosidade!
Enfim...
Fernando