segunda-feira, janeiro 16, 2006

A (des)penalização da escravatura

Por vezes, em pequenas tertúlias entre alguns dos meus amigos, é comum falar-se da actualidade portuguesa, com as suas vicissitudes e com as condicionantes que elas próprias geram. Embora no seio do meu grupo surjam ideias diferenciadas, é usual traçarem-se alguns paralelismos entre Portugal e outros países, sobretudo com Espanha. Há até quem afirme que veria com bons olhos, Portugal como parte integrante de Espanha, relevando assiduamente aquilo que, de positivo, os “nuestros hermanos” possuem, relegando para segundo plano as nossas imensas capacidades. Obviamente que não pactuo com semelhante visão!
Numa outra perspectiva, situam-se alguns políticos que, quando querem fazer passar uma qualquer ideia, traçam um paralelismo com aquilo que se passa em países evoluídos como Inglaterra, França ou Alemanha. Até o próprio Dr. Oliveira Salazar não se terá inibido desta mesma comparação, quando em 1949, a propósito das eleições em Portugal, dizia ele que as queria “tão livres como na livre e nobre Inglaterra”, provando, desta forma, que a liberdade imperava na nação portuguesa.
Sinto que, por vezes, há sempre a tentativa de cair em alguns ridicularismos deste tipo, onde em Portugal, o que se faz e o que se tem é quase sempre pior do que aquilo que se faz e é comummente aceite nos países evoluídos do centro da Europa. É com alguma regularidade que se vêem notícias sobre imigrantes, sobretudo provenientes das ex colónias africanas ou do leste europeu, queixarem-se das míseras condições de habitabilidade e de trabalho que Portugal oferece. Não conheço um qualquer português que seja favorável a este “status quo”!
Agora, o que me espanta mais é que, aqueles tais países exemplares, evoluídos, com democracias estáveis e seculares, com economias em franco progresso, com culturas possuidoras de um pragmatismo invulgar, também têm os seus “calcanhares de Aquiles”.
Se nos lembrarmos do estado deplorável, miserável e medievalista em que labutam dezenas de portugueses na avançada e excêntrica Holanda, apetece-me inverter a situação e dizer que, afinal, a cauda da Europa é povoada por outros países que não só Portugal! Pensava eu que a escravidão há muito que fora afastada da vida do Homem mas, afinal, ela marca presença no seio dos tais países ditos evoluídos.
Mas… no país das tulipas, com tanta pluralidade, com tanta diversidade, onde tudo é possível e tudo é aceitável, porque não aceitar também a escravatura? Nada mais natural, ora essa, dirão eles! E o que dizem os vários media, pela Europa fora, sobre este assunto? Nada! Por aqui se vê que até na Comunicação Social global temos uma Europa a diversos tempos. Como me lembro, em plena cidade de Paris, quando algum parisiense se referia aos portugueses, dizia: “ah, les petits portugais”, num tom jocoso e de superioridade!
Há uns meses, a propósito da presença de uma rede de prostituição na cidade de Bragança, a conceituada revista “Time” fez deste tema, capa de revista. Sim, porque tão eloquentes jornalistas, terão pensado que Portugal seria o “oasis” da prostituição; seria a Cuba da Europa. Mas, pelos vistos, enganaram-se!
Agora, a forma esclavagista e desumana como portugueses estão a ser tratados na Holanda, à luz de uma Europa verdadeiramente unida, era assunto para abertura de telejornais pelo “velho continente” fora e, jornais conceituados como o “Der Spiegel”, “Le Monde”, “El País”, “Herald Tribune” ou “New York Times” fariam igualmente tema de caixa alta, não com o sentido sensacionalista, como fez a “Time”, antes sim numa verdadeira missão: a da equidade na informação. Só que, como em tudo, há os grandes, os pequenos e os outros. Pelos vistos, além de fazermos parte dos pequenos, também pertencemos, com toda a certeza, aos outros. Que chatice!

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