quarta-feira, janeiro 11, 2006

"É uma casa portuguesa, com certeza"!

Há muito que venho reflectindo sobre a delapidação, emergente em alguns espaços ou áreas culturais do nosso país e que ocorre sob o olhar conivente dos vários órgãos que tutelam a cultura em Portugal. Urge fazer alguma coisa.
Em 1993, o país acompanhou de perto, através dos vários órgãos de Comunicação Social, toda a “novela” à volta da interrupção da construção da barragem hidroeléctrica sobre o Rio Côa, a propósito das gravuras paleolíticas aí existentes.
Embora a construção desta infra-estrutura energética gerasse alguma riqueza junto das populações envolventes e criasse alguns postos de trabalho tão necessários nos dias que correm, o Estado, e muito bem, não se alheou das suas responsabilidades e acabou mesmo por inviabilizar o projecto.
É certo que, como em qualquer outra causa, há sempre os apoiantes desta ou daquela posição. Uns, por questões meramente éticas e culturais, outros, por questões que estão quase sempre presentes em qualquer decisão. Falo, claro está, do jogo de interesses que muitas vezes estas decisões envolvem.
Obviamente, sem ter qualquer intuito de comparação ou de aqui traçar um qualquer paralelismo, gostaria de aqui trazer a grande perplexidade que causou a notícia sobre a demolição da casa onde o escritor Almeida Garrett viveu os últimos anos da sua vida, em pleno coração da cidade de Lisboa, com a total conivência da tutela e do edil lisboeta. O autarca argumenta que a demolição se justifica, face à “inviabilidade financeira da autarquia para adquirir o imóvel, reabilitá-lo e manter uma casa museu”.
Ora, toda a gente que mantém interesse sobre este assunto sabe qual o destino traçado para o espaço em causa. Pelos vistos, os interesses imobiliários especulativos sobrepõem-se aos interesses culturais. A associar a tudo isto, o dono do imóvel é ministro, pasme-se! Afinal, o que será a cultura e quem são os seus agentes?
Sou livre de imaginar que, se esta casa fosse o último abrigo de um qualquer cidadão, situada numa dessas distantes paragens do Portugal interior profundo, do tipo Alcoutim, Amareleja, Mogadouro ou Freixo de Numão, com certeza que já teria sido há muito expropriada! Sendo assim, por que esperam?
Num país onde há dinheiro para ajudar a manter e alimentar fundações particulares como a Fundação Mário Soares; para se fazerem projectos megalómanos a longo prazo, sem se saber ao certo as contrapartidas que daí advêm; num país onde se gastam (e bem) “rios” de dinheiro no ensino do inglês às crianças; será que esse mesmo país não tem recursos para mostrar igualmente a essas crianças a proveniência de muita da nossa riqueza linguística? Será que a tal “Cultura” de Estado não dispõe de uns míseros cêntimos para a reabilitação da casa de tão importante, distinto e ilustre escritor? Pelos vistos, até aparece que o “verde, verde dos olhos de Joaninha”, como dizia Garrett nas suas "Viagens", se transformou num “negro, negro”, aos olhos dos governantes!
Quem nada faz por tudo isto, será que algum dia terá tido a vontade e o privilégio de ler as deliciosas “Viagens na minha terra”? Será que saberão a importância que o seu ilustre autor e esta maravilhosa obra tiveram na formação, divulgação e difusão da nossa “portugalidade”? Pois é, se nunca leram, não atirem então com a primeira pedra!

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