sexta-feira, janeiro 13, 2006

Beba "Candidato Presidencial": um néctar de confiança!

No início da década de oitenta do século que há pouco terminou, o ensino Secundário em Portugal começava a incluir em algumas das suas áreas temáticas, o ensino de matérias relacionadas com a comunicação interpessoal e os seus agentes. A publicidade, a propaganda e as relações públicas davam assim os primeiros passos, tornando-se em grandes vectores de estudo, fazendo jus às renovadas exigências de um país livre e democrático.
Num primeiro vector, face à “invasão” de produtos de renome mundial de que Portugal foi alvo, como a Coca-Cola, a Pepsi-Cola, a Sony e outras, foi imperioso desenvolver diversas e bem pensadas campanhas publicitárias para promover a sua compra, junto dos vários públicos alvo, ávidos de novas possibilidades e de novas sensações.
Por outro lado, como segundo vector, Portugal como país livre e democrático, sente a necessidade de organizar ciclicamente actos eleitorais, a fim de poder permitir aos seus cidadãos a escolha da sua representatividade, junto dos órgãos de soberania do Estado. Para isso, foi igualmente necessário promover fortes campanhas ideológicas com discursos propagandísticos incisivos, capazes de arrebatarem a adesão do maior número de cidadãos. Quem não se lembra da célebre tirada “olhe que não, olhe que não”, proferida por Álvaro Cunhal, num debate televisivo, esgrimindo ideias entre ele próprio e Mário Soares?
Finalmente, num terceiro vector, com o declínio de algumas empresas emblemáticas associadas ao “Estado Novo” como a Companhia União Fabril (CUF), a Companhia Nacional de Navegação (CNN) e a Lisnave, emergem outras empresas, de teor mais mercantilista, cujo sucesso dependia em muito, da sua organização, capacidade, eficácia e competitividade internas. Era então importante, que possuíssem nos seus quadros, um bom serviço de relações públicas, capaz de fazer passar para o exterior uma boa imagem, condizente com os desejos dessas mesmas empresas ou serviços.
Centrando o meu raciocino apenas na publicidade e na propaganda, a grande diferença entre ambos situa-se nos objectivos propostos e na forma como as respectivas campanhas são desenvolvidas. No essencial, a publicidade visa promover a venda de um produto, sendo vedada a possibilidade de afirmar explicitamente que este produto seja melhor do que aquele. A propaganda, por outro lado, visa promover a adesão a uma determinada ideologia, onde aqui, já são possíveis termos de comparação entre ideologias.
Visto de uma forma mais distraída, estas técnicas de comunicação até parecem parecidas. Aliás, elas são frequentemente confundidas e atropeladas por alguma da nossa classe política. Se atentarmos nos discursos dos actuais candidatos à Presidência da República, temos o seguinte: Cavaco Silva não diz nada; o que diz são tiradas feitas, com conteúdos ocos, não se vislumbrando, no essencial, quaisquer projectos futuros. Visa apenas a adesão dos populares a uma imagem pré-concebida pelos “media” e não a adesão às suas ideias. Afinal, onde é que elas estão?
Por outro lado, todos os outros, em vez de tentarem afirmar junto dos seus diversos públicos a adesão aos seus próprios projectos, apresentando-os e discutindo-os, não; os seus únicos objectivos são denegrir a imagem do candidato melhor posicionado, segundo as várias sondagens. Pelo que se vê então, aquilo que estes pretendem é a despromoção de alguém e não a valorização das suas próprias ideias.
Mesmo que estes candidatos, por inoportunidade ou pela sua idade, não tenham tido a possibilidade de estudar as temáticas a que outras pessoas tiveram acesso, eles deveriam, com toda a certeza, saber distinguir o essencial e o óbvio, daquilo que é superficial, acessório e ridículo. Não estou mesmo a ver, de repente, no “pequeno ecrã”, aparecerem slogans do tipo: “Brandy Mário Soares, a fama que vem de longe!” ou então, “Vota Coca-Cola, de olhos nos olhos!”.

2 comentários:

Anónimo disse...

O “Mutatis Mutandis” é uma das minhas paragens obrigatórios neste viajar quotidiano pela blogosfera. Textos bem escritos e plenos de actualidade, tornaram-me um leitor atento. A par destas qualidades, junta-se aquela que porventura será a sua principal “mais-valia”: o constante ignorar dos conceitos politicamente correctos, rompendo o unanimismo doentio da sociedade portuguesa. Todavia, este texto não conseguiu afastar a contaminação da mais forte frase de propaganda desta campanha eleitoral: «Cavaco Silva não diz nada; o que diz são tiradas feitas, com conteúdos ocos, não se vislumbrando, no essencial, quaisquer projectos futuros»!
Na verdade, e não curando de reproduzir o programa de candidatura, as diferentes declarações do candidato, ou o muito que se tem escrito sobre esta propaganda, resulta claro que se estivéssemos em presença de um candidato acéfalo, um mero reprodutor de vulgaridades, as suas palavras não teriam provocado tanta prosa inflamada, tantos comentários propagandísticos.
O espaço é curto e um “comentário” para blog deverá primar pela poupança discursiva. Aqui fica o desafio para que se evitem os ínvios caminhos da propaganda, declarando-se a vontade de continuar a visita diária ao “Mutatis Mutandis”.
P.S.- Faça-se a pública declaração de interesses: sou monárquico e em todos os actos eleitorais para Presidente da República, sempre invalidei o meu voto.

Anónimo disse...

Meu caro Magalhães:
A palavras escritas com a mestria, com a linearidade e, sobretudo, usando de uma adjectivação tão amável e simpática, só poderei dizer: OBRIGADO! Reconheço que haverá nelas alguma dose de exagero mas… confesso que o seu teor é muito gratificante. Afinal, os “trabalhinhos” em alguma coisa terão resultado. “Sabes do que estou a falar”!
Como bem sabes, não tenho cor política e é por isso que estou muito à vontade quando escrevo. Já passei há muito pela fase do Louçã; também do Cavaco e do Guterres. Neste momento encontro-me “desfasado”!
Relativamente aos programas de candidatura, há muito também que deixei de os ler, caso contrário, se os aceitasse como documentos verídicos e a seguir, com toda a certeza que os impostos não tinham aumentado, entre muitas outras coisas. Prefiro ler “os Lusíadas”; sempre relata feitos históricos e épicos do “peito ilustre lusitano” e não vulgaridades de um qualquer esquiador!:)
A propósito da validação ou invalidação do voto, não o costumo fazer quando as coisas são demasiado óbvias ou então, quando a oferta não corresponde à minha procura. Gostava que fosse permitido votar contra. Esta continua a ser uma das falhas da democracia. Ainda não é um sistema perfeito.
Obrigado pelo teu testemunho, sempre “pincelado” com todo aquele requinte há muito em ti reconhecido.
Um abraço
Fernando