segunda-feira, março 06, 2006

As "estrelas de(cadentes)"

O mundo do futebol está a gerar fenómenos curiosos que merecem alguma reflexão. A propósito de manifestações menos prestigiantes provenientes da assistência, reacções esquisitas têm-se vindo a sentir por parte de alguns atletas intervenientes que, confesso, não deixam de se tornar caricatas e causadoras de alguma perplexidade.
Embora reconheça nunca ter passado de um voluntarioso e apaixonado praticante do “desporto rei”, dando hoje os meus pontapés na bola, apenas com o intuito de “manter a forma”, há muito que deixei de marcar presença nos palcos do futebol, para assistir a espectáculos futebolísticos que tanto apreciava. Hoje, quando quero acompanhar um qualquer desafio, sobretudo aqueles que acho mais expectantes e empolgantes, valho-me das frequentes transmissões televisivas, embora reconheça que, desta forma, a adrenalina não é com certeza a mesma!
Tudo porque me apercebi há muito que, nessas quase duas horas de “espectáculo” tudo vale. Vale insultar o antigo atleta do clube que agora “governa a vida” no clube da concorrência; vale dizer que a mãe do senhor árbitro se ocupa na “mais antiga profissão”; vale dizer ao presidente do clube opositor e rival para ir para um sítio que aqui não digo(!). Até claques se organizam, normalmente compostas por desordeiros e marginais, cujo objectivo é semear o pânico por onde passam. Tudo lhes é permitido: atirar petardos, ferindo e matando pessoas indefesas e inocentes; apedrejar, atirar garrafas, isqueiros, moedas tudo, tudo lhes é possível!
Face a tudo isto, não deixou de se afigurar totalmente disparatada a reacção de uma “estrela” de futebol, de nome Samuel Eto’o, a actuar em Espanha, no Barcelona, quando, num jogo entre o Saragoça e a sua equipa, recebeu vários insultos provenientes da bancada. A reacção imediata deste camaronês foi a recusa em prosseguir em campo, argumentando que estava a ser alvo de insultos racistas. Até podia ser verdade, não digo o contrário e, a ser verdade, aqui os repudio. Todavia, num palco onde pelos vistos tudo vale, porque será que, para este “principezinho” tudo deveria ser diferente? O que é que ele acha dos espanhóis de Madrid, quando há pouco menos de um ano, no meio dos calorosos festejos pela conquista do título espanhol de futebol, ele próprio disse, alto e num bom castelhano “Barcelona campeón, Madrid, hijos de un cabrón”, numa alusão clara ao seu lendário rival e seus aficionados?
Tomando como exemplar a atitude deste atleta africano, e se o senhor árbitro, quando conotam a sua mãe com a tal profissão que atrás referi, abandonasse igualmente o terreno de jogo? E se um qualquer atleta, quando insultam assiduamente a sua progenitora também se retirasse das “quatro linhas”? E se o tal presidente “levasse a peito” tudo o que a assistência diz e fosse “pregar a outra freguesia”? Talvez assim, não tivéssemos actores para o espectáculo e o público não teria ali à mão o alvo preferido para nele descarregar a sua fúria. Ou talvez não! Quem sabe, se este “satatus quo” se alterasse, não teríamos espectadores e actores com nível, capazes de ombrear com os de outros espectáculos a que habitualmente assistimos?
Há pessoas que têm o mérito de possuírem capacidades inatas mas, a dada altura, essas mesmas capacidades não se fazem acompanhar de comportamentos condizentes com o estatuto que lhes é exigível. A imagem de uma qualquer “estrela” exige desta, práticas exemplares e de seriedade e não atitudes meramente conflituosas, geradoras de polémicas e de interesses completamente alheios ao espectáculo para o qual são principescamente pagos.
Posiciono-me no campo de qualquer manifestação anti-racista contudo, devemos ser coerentes em toda a linha e não usar do “politicamente correcto”. O senhor Eto’o, na sua grande cruzada anti-racista, em vez de dar lições aos europeus, bem poderia ter começado no Zimbabué, falando com o senhor Robert Mugab, presidente deste país africano. Sempre lhe ficava ali mais à mão e muito mais perto! Só que lá, talvez não dispusesse da liberdade, do carinho e da admiração que em Espanha lhe dedicam. Ah, e talvez não lhe suportassem as suas criancices e algumas atitudes infantis e irresponsáveis.

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