O primeiro-ministro italiano, Sílvio Berlusconi abandonou ontem, a meio e em directo, uma entrevista que estava a dar a um programa televisivo, emitido pela estação pública italiana RAI3, à jornalista Luzia Annunziata; numa atitude bem ao estilo das protagonizadas pelo caricato ultra nacionalista russo, Vladimir Jirinovski. Contudo, realce-se uma distinção: enquanto o controverso político russo, quando participava em programas televisivos, usava de alguma violência, arremessando com tudo aquilo que conseguisse ali à mão, o polémico magnata italiano usou de uma prática mais subtil e matreira: abandonou o estúdio com um cínico aperto de mão à jornalista, atirando na direcção dela um coro de protestos relativos à forma como estava a ser conduzida a entrevista.
O papel do profissional da comunicação é colocar questões e, difíceis ou embaraçosas, o entrevistado terá de se debruçar e reflectir sobre elas, tentado objectivamente, dar-lhes o devido esclarecimento, não se refugiando em discursos ocos, evasivos e pré-concebidos.
Hoje em dia, com o anseio desenfreado de protagonismo e com a grande capacidade retórica evidenciada por muitos políticos, estes afastam usualmente do seu horizonte, os esclarecimentos que são verdadeiramente importantes. Muitos deles tornam-se em autênticas “campânulas falantes” dizendo tudo aquilo que querem e não aquilo para o qual são convidados a pronunciarem-se.
E se de repente esta moda pegasse em Portugal? E se por cá se desse o inverso onde, sempre que o jornalista questionasse o entrevistado e este fugisse à resposta, o profissional da comunicação abandonasse o “plateau” deixando o “papagaio” a falar sozinho?
Se isto acontecesse, talvez fenómenos políticos como Paulo Portas ou Francisco Louçã tivessem de dar rumos diferentes às suas habituais divagações ou então, quem sabe, lá teríamos nós enfadonhos monólogos, bem ao estilo das longínquas “conversas em família”, evidenciadas em Portugal pelo regime fascista!
O papel do profissional da comunicação é colocar questões e, difíceis ou embaraçosas, o entrevistado terá de se debruçar e reflectir sobre elas, tentado objectivamente, dar-lhes o devido esclarecimento, não se refugiando em discursos ocos, evasivos e pré-concebidos.
Hoje em dia, com o anseio desenfreado de protagonismo e com a grande capacidade retórica evidenciada por muitos políticos, estes afastam usualmente do seu horizonte, os esclarecimentos que são verdadeiramente importantes. Muitos deles tornam-se em autênticas “campânulas falantes” dizendo tudo aquilo que querem e não aquilo para o qual são convidados a pronunciarem-se.
E se de repente esta moda pegasse em Portugal? E se por cá se desse o inverso onde, sempre que o jornalista questionasse o entrevistado e este fugisse à resposta, o profissional da comunicação abandonasse o “plateau” deixando o “papagaio” a falar sozinho?
Se isto acontecesse, talvez fenómenos políticos como Paulo Portas ou Francisco Louçã tivessem de dar rumos diferentes às suas habituais divagações ou então, quem sabe, lá teríamos nós enfadonhos monólogos, bem ao estilo das longínquas “conversas em família”, evidenciadas em Portugal pelo regime fascista!
4 comentários:
Confesso que ao ver a “notícia” num canal português, fiquei cheio de curiosidade em conhecer a totalidade da gravação. De facto, apresentada só daquela forma tanto é possível tirar a conclusão que vi na referida “notícia”, (que este blog confirma), como o seu contrário. Assim sendo, faço um pedido: será possível colocar aqui a versão em texto de toda a gravação? É evidente que o ideal seria a versão vídeo, mas compreendo que talvez seja bastante mais difícil, pelo que a versão em texto poderia ajudar a uma maior pluralidade de opiniões. Não que eu desconfie da honestidade intelectual do jornalista que fez a peça para a televisão portuguesa ou do animador deste blog, mas houve uma coisa que aprendi ao longo dos anos: o ponto de vista do observador contamina o resultado da observação.
Aceita o desafio?
Permita-me tratá-lo por "anónimo" face ao desconhecimento de um nome que o identifique.
Por acaso eu vi, com os meus olhos, grande parte da entrevista que colocaram no ar posteriormente como se fosse em directo, na RAI1 e o que constatei foram duas coisas importantes: de um lado, uma jornalista a espaços muito interventiva, talvez impedindo muitas vezes o raciocínio do entrevistado e, do outro, um homem interessado em dizer simplesmente aquilo que queria, bem ao jeito dos tais personagens portugueses que mencionei.
Isto foi aquilo que eu vi, independentemente das peças jornalísticas que tive oportunidade de ver passar nos vários canais portugueses.
Todavia, deixe-me dizer-lhe que foi feito eco por outros canais como a BBC, CNN, TV5, TF1, TVE deste assunto, onde pelos vistos, quem terá saído pela porta pequena com esta atitude, terá sido o político.
Mas, apenas relato a impressão com que eu fiquei.
Se clarifiquei alguma coisa, fico contente, caso contrário, também não disponho de mais elementos para lhe ser útil.
Agradecendo as informações complementares, reafirmo a minha confiança na honestidade intelectual do animador deste blog.
Agradeço também as suas palavras e retribuo os predicados que me dirigiu.
Só gostava de deixar mais uma pequena nota: perante uma notícia, somos todos observadores e potenciais "contaminadores" daquilo que observamos. Concordo consigo!
É a tal subjectividade mas, quando muitas entidades vêem uma mesma coisa tal como nós a vemos, é sinal que o nosso ponto de vista tem algum fundamento.
Gestalt, na sua teoria, explica muito bem como a mesma imagem vista por duas pessoas diferentes provoca observações e percepções igualmente diferentes.
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