quinta-feira, março 02, 2006

"Trás-os-Montes continua lindo!..."

Já por diversas vezes aqui aflorei o problema da interioridade e o esquecimento que é reservado a esses lugares, todavia, mesmo com este desinteresse por parte do poder político, ele continua lindo!
Durante a época carnavalesca tive a oportunidade de fazer um curto périplo pelo planalto mirandês, onde tive a oportunidade de contacto com paisagens, com pessoas, com hábitos, com práticas… tanta coisa! Não é que tivesse visto coisas completamente novas, longe disso, mas o trato recebido e a forma simpática com que fui abordado pelas pessoas aí residentes, é sempre um motivo de registo e de grande orgulho!
A neve começou por dar as primeiras pinceladas num imenso “quadro naturalista”, cobrindo os vários lugares por onde passei com aquele manto branco que perpassa tantas vezes o nosso imaginário quotidiano! Mogadouro era um lugar frio mas belo! Ao longe, as chaminés que se perfilavam no horizonte, tentavam em vão, pincelar todo aquele infindável manto com outros tons, tarefa titânica para tamanha beleza!
A caminho de Miranda o horizonte empolgava-se, agora num misto contrastante de sol e de neve, mais parecendo um “quente e frio” servido numa qualquer geladaria. O cuidado na estrada era muito, não fosse o meu transporte abalroar toda aquela beleza que me foi servida, ali, sem custos nem gastos; gratuitamente!
Mais à frente, uma curta passagem pela barragem do Picote com um primeiro contacto com a natureza selvagem. As aves que sobrevoavam a paisagem ajudavam agora a formar um quadro diferente: sem neve mas com o Parque Natural do Douro Internacional ali deitado a meus pés! À medida que a minha viagem avançava, os quadros sucediam-se, mais parecendo um verdadeiro museu ao ar livre.
Chegado a Miranda do Douro, vem a procura dos locais normalmente mais conhecidos e apetecidos: solta-se então um “olha ali a Sé!”; “que linda a rua da Costanilha!”. E lá vou eu, calçada abaixo em direcção ao centro histórico, onde me espera o lindíssimo e muito bem conseguido “Museu da Terra”. Parabéns Miranda pela espantosa promoção da terra e da vossa gente que aqui fazem! São trajes; são alfaias agrícolas; são práticas retratadas por imagens e corpos ali recriados; é o interior das casas com toda a sua envolvente: os quartos com os antigos lavatórios, as camas, a cozinha, a sala… tudo, tudo ali cabe!
Ali ao lado, um restaurante chamava por mim. Sem saber, acabava de entrar numa autêntica “feira gastronómica”. A alheira e outros enchidos, o borrego, o cabrito e a inevitável “posta lá da terra” que é como quem diz, à mirandesa, marcaram presença no meu repasto!
Conquistado pela paisagem, conquistado pela comida, eis-me novamente à procura de mais motivos de interesse. E que tal uma viagem de barco, Douro acima, em pleno Parque Natural do Douro Internacional? Vamos a isso, pensei logo! Se no início eu conseguia adjectivar a beleza que a neve me conseguia transmitir, aqui afigura-se-me uma tarefa mais difícil. A beleza é tanta que eu não serei capaz de a retratar por palavras. E, há falta delas, socorro-me de imagens fotográficas que fiz, as quais, melhor do que eu, poderão atestar na perfeição, essa mesma beleza.
Afinal, mesmo que Miranda esteja a trezentos quilómetros do Porto, servida por estradas que mais parecem magras e infindáveis serpentes; mesmo que a desertificação se “sente à mesa” do mais abnegado mirandês, por lá não faltam muitos e diversificados motivos de interesse. Adaptando um verso de Vinicius de Moraes, apetece-me dizer que “Trás-os-Montes continua lindo, lindo; lindo de morrer; lindo de viver; lindo, lindo!...”.

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