quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O "monge virtual"

Para quem segue a informação televisiva diária e vai fazendo os seus “zappings” frequentes, deparou-se, com certeza, na passada segunda feira, com uma nova “cara informativa” que a estação de televisão SIC apresentou aos seus telespectadores. Bonita, atractiva e apelativa, dirão os autores deste arrojado projecto!
Neste novo “plateau” parece nada faltar: existe um forte contraste nas cores utilizadas, constituídas por tonalidades muito fortes e muito bem definidas. Paralelamente, o ambiente informativo faz-se “passear” no estúdio por cenários virtuais muito pensados, que emprestam à “encenação jornalística”, uma forte e vincada influência britânica, bem ao jeito da mítica “Sky News”, gerando neles, um verdadeiro ambiente “hollywoodesco”, onde tudo parece circular e colocado ali, à nossa mercê!
Mas…, nestas coisas da informação e da sua veracidade, haverá sempre quem se interrogue, sobre o que se passará por detrás daquela grande “virtualidade jornalística”? Se direccionarmos a nossa reflexão sob um ponto de vista meramente formal, este novo visual apresenta-se-nos irrepreensível e apelativo. Todavia, ao telespectador é-lhe sugerido também, um outro olhar adicional, mais completo, abrangente e, sobretudo, acompanhado de uma visão crítica também, afim de compreender o porquê da mudança verificada.
Há já algum tempo que os blocos informativos dos diversos canais televisivos foram sendo cada vez mais extensos e maçadores. Penso que será comummente aceite esta afirmação! Ora, isto acaba por provocar perdas de audiência, e é aqui que entra o tal “zapping”. Os canais televisivos, para se precaverem deste desinteresse instalado, acabam por reconhecer a necessidade do recurso a “artimanhas” para cativarem e combaterem esse mesmo desinteresse do público.
Felizmente, com alguns conhecimentos que possuo sobre o “modus faciendi” de alguns destes recursos, isto não deixa de me provocar um certo vazio e alguma desacreditação ao saber que, no lugar de um globo terrestre que “circula” nas costas de um “pivot”, está uma redacção como tantas outras, composta por computadores, jornalistas e material acessório! Depois, não sou apreciador do recurso frequente a planos demasiado abertos, colocando o jornalista desamparado, num fundo virtual e à mercê do seu desempenho. Não me agrada igualmente o aparecimento de tantos “oráculos”; de tanta informação em rodapé e em simultâneo, ao estilo do canal de negócios “Bloomberg”. Com tudo isto, a atenção acaba por se dispersar por pontos ou motivos que talvez não sejam os mais importantes. Acho tudo demasiado virtual, redondo e de grandes dimensões, embora irreais, claro!
É nestas confusões do real e do virtual que nos mexemos e para onde direccionamos o nosso futuro. Muitos, os mais distraídos até acreditam nesta “nova realidade”. Outros, os mais precavidos acabam por se ir “aculturando” com esta “nova cara”. Quem sabe, daqui por alguns meses, com o hábito diário, o meu olhar fique “melhor educado” para estas sucessivas virtualidades e eu possa, sobre ele, dizer maravilhas. Afinal, segundo reza a História, foi o “hábito que fez o monge”!

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