quinta-feira, maio 04, 2006

O "Abramovich lusitano"

Há dias, quando me preparava para descansar em mais uma recatada noite de sono, liguei a rádio e detive-me, por momentos, com as primeiras notícias do dia, ouvindo o bloco informativo da meia-noite. A primeira notícia que constava do seu alinhamento dizia respeito à energia nuclear e à possibilidade da sua exploração no nosso país.
Nesta notícia, tornou-se notório o posicionamento de um conjunto muito restrito de vozes, encabeçado pelo magnata da indústria petrolífera portuguesa, Patrick Monteiro de Barros, manifestando-se favoravelmente à construção e instalação no nosso país de centrais nucleares, como forma de responder às crescentes exigências energéticas em que a sociedade contemporânea portuguesa se sente cada vez mais carenciada.
Para este tipo de “negócio da China”, torna-se muito fácil aos seus promotores acenar com as vantagens do costume para esta perigosa indústria. À cabeça vem logo a bandeira dos postos de trabalho que se vão gerar.
Por outro lado, para legitimar tudo aquilo que estes magnatas anseiam, são pomposamente criadas as tão célebres “comissões científicas”, que nunca se sabe muito bem de onde vêm nem para onde vão. O vento encarrega-se de lhes dar um rumo, bem ao jeito da “navegação à bolina” usada há muito pelos navegadores portugueses.
Para calar as populações envolvidas, as “armas” costumam ser quase sempre as mesmas: este tipo de indústrias é seguro; não causa quaisquer danos ao Homem; é um tipo de indústria amiga do ambiente, enfim, este tipo de “tretas” há muito gastas mas que, ciclicamente são revitalizadas.
Se é assim tudo tão bom senhor Patrick, instale lá essa maravilhosa indústria no interior da sua mansão ou na periferia da sua quinta! Assim, sempre poupava alguns cobres em deslocações e não aterrorizava a vida às pessoas que nada têm a ver com a sua megalomania!
Não deixou de me causar perplexidade, ouvir da boca do dito investidor, que veria com bons olhos a instalação de centrais nucleares no nosso país e, sem pestanejar, este (ir)responsável apontou logo o interior norte do país como o local ideal para tamanho “empreendimento”.
Se o interior norte português é constantemente esquecido e abandonado; sem médicos especialistas; onde não querem que haja escolas primárias; as linhas-férreas parece que por mais que se prolonguem nunca se vão encontrar, porquê então esta ideia?
Se para a instalação de grandes industrias é necessário um forte incremento de redes viárias, onde é que elas estão afinal? As estradas não chegam e se chegam é a conta gotas e já não respondem às actuais solicitações. Como pode a tutela dar ouvidos à colocação de verdadeiros baris de pólvora à porta destas pessoas indefesas e há muito atiradas ao ostracismo?
Onde estava este “Abramovich lusitano”, quando há cerca de vinte anos despoletou em Chernobyl, aquela gigantesca catástrofe nuclear, em pleno coração da indústria ucraniana e que tantas vidas ceifou? Será que daí retirou algumas ilações?
Terá ele assistido a uma reportagem passada pela estação de televisão SIC sobre as consequências da catástrofe nuclear ucraniana? Com certeza que não! Apetece-me então dizer, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!... Nem o que dizem!...

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