quarta-feira, abril 19, 2006

O "choque deontológico"!...

A primeira vez que ouvi falar na palavra “choque” já lá vão muitos anos. Ou melhor, os primeiros choques, eu nem sequer os ouvi, senti-os e já não me lembro muito bem deles. Refiro-me aos choques que eu dei quando, enquanto criancinha, na tentativa de imitar o “Homo Erectus”, orquestrando os meus primeiros passos, chocava com tudo aquilo que se esbarrava no meu caminho.
Estes choques depressa foram substituídos por outros: os choques eléctricos. Por essa altura, a curiosidade dominava a minha racionalidade e, lá vai mais um esticão! Como é bom de ver, a nossa evolução faz-se e é composta também de e por choques!
Sem pretender aqui enumerar uma lista imensa deles, apetece-me pegar hoje numa das bandeiras de propaganda do actual governo – o “choque tecnológico” e tentar traçar uma certa analogia entre este e um outro - o “choque deontológico”.
Apresento-me como um defensor arreigado das novas tecnologias. Dito assim, parece-me que não haverá necessidade de dizer muito mais. As sociedades contemporâneas calcorreiam há muito e a passos largos o caminho da tecnologia. Disso já não restam quaisquer dúvidas!
Mas, um choque que eu aconselhava ao governo e que urge pôr em prática, era outro – “o choque deontológico”! Antes de aplicarmos uma qualquer tecnologia, devemos ter a capacidade intelectual e gozarmos de uma profunda e honesta seriedade humana, sobretudo quando exercemos cargos de elevada responsabilidade e nobreza, onde a postura se requer de excelência e exemplar. Vem tudo isto a propósito da falta massiva que os nossos deputados fizeram há dias nas votações parlamentares, alheando-se do nobre dever de representatividade para o qual haviam sido há bem pouco tempo eleitos.
Na passada quarta feira, um conjunto de deputados de todas as cadeiras parlamentares (para alguns serão sofás!) decidiu apresentar-se pela manhã, assinando o livro de presenças respectivo e, de seguida “pôr-se a andar” de fim-de-semana prolongado, rumo a um lugar bem mais apetecido e atractivo, menorizando o seu dever de deputado. Chegada a hora das votações dos assuntos em apreciação e, embora o livro lá tivesse estampadas as suas assinaturas, as tais “alminhas” já se tinham eclipsado há muito, na procura do tão desejado bronze!
Isto fez-me logo lembrar um dia, quando me preparava para assistir a uma aula do meu curso e a professora ao passar a folha de presenças, reparou que nela constavam cerca de trinta assinaturas e no interior da sala apenas estavam uns nove ou dez alunos! Eloquente esta atitude, no entender de alguns!
Voltando às faltas parlamentares, o Presidente do Parlamento fez aquilo que lhe competia, aplicando os preceitos lavrados no respectivo regulamento. Como se toda aquela “pouca-vergonha” não fosse já suficiente, lá vieram os indecorosos faltosos, querendo justificar o injustificável. É preciso ter lata! Pela voz de alguns líderes parlamentares, até foi dito que, uns iriam invocar “licença de paternidade”; outros mesmo, iriam argumentar que estavam ao final da tarde no seu gabinete do hemiciclo em tarefas de comissões. Que eu saiba, o hemiciclo não tem pólos no Algarve e a tal licença só a ela tem direito quem é pai! Dá para rir!
Depois disto interrogo-me: será que o emagrecimento da Função Pública não deveria começar pela redução drástica do número e de benesses dos deputados? Será que vale a pena votar nestes “cavalheiros”? O que é ser deputado afinal?
Aconselho o governo, em vez de tanto badalar com o tal “choque tecnológico”, que comece por dinamizar uns “workshops” de sensibilização sobre deontologia, ética, seriedade, honestidade e elevação no seio dos parlamentares. A Comunidade Europeia deve financiá-los!
Talvez, com esta medida, conseguíssemos um verdadeiro “choque deontológico” capaz de propiciar no futuro, outros “choques”, sem o recurso a cheques chorudos e dotando o “Curriculum Vitae” destes “cavalheiros” com valores mais elevados, responsáveis e sérios!...

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