segunda-feira, janeiro 08, 2007

As pequenas e as grandes causas

“Abortar em Badajoz” ou “Parir em Barcelos” eram algumas parangonas que há alguns dias se passeavam pelas primeiras páginas da generalidade dos tablóides nacionais. Tudo a propósito do despropósito tomado pelo governo português de encerrar algumas maternidades, sobretudo aquelas que não apresentavam as condições adequadas. Convincente esta medida governativa!
Se este exemplo fosse tomado, encerrando-se tudo o que funciona menos bem ou que não tivesse condições, eu questiono quais as instituições que permaneceriam abertas? A meu ver, seria bem mais justo, digno e consensual dotar estes espaços com o mínimo exigido às tarefas para que estão destinados.
É sabido do envelhecimento da sociedade europeia em geral. Todavia, não é com leis anti ou pró aborto; não é encerrando ou dificultando as coisas que se conseguem melhorias significativas em prol deste fenómeno que começa a preocupar o Velho Continente!
As pessoas que dirigem os destinos do país, que tanto se socorrem dos exemplos estrangeiros para justificar uma tomada de posição, por regra alicerçadas numa temporalidade anacrónica, deveriam a este propósito, olhar para uma medida enérgica e de forte impacto social, seguida pela chanceler alemã, Angela Merkl. Esta governante acabou de tomar uma deliberação inédita, subsidiando com vinte e cinco mil euros cada nascimento verificado em solo alemão. Aqui está uma medida exemplar, com contornos e propósitos sérios, enérgica, envolvendo a sociedade alemã pelo seu todo.
Um dia, estudava eu História Europeia do século XIX, espaço onde emergia uma forte industrialização, renascendo no seu seio uma promissora sociedade capitalista, dirigida por economias em franco crescimento. E, por essa altura, o que se passava em Portugal? Guerras intestinas entre liberais e miguelistas que nada de positivo trouxeram ao país, arruinando-o, provocando-lhe um forte endividamento do qual a nação jamais se terá libertado, lançando-a num irreparável atraso.
Hoje tal como ontem, em vez de nos preocuparmos com a realidade e com as estruturais e excepcionais causas, estas sim, verdadeiros motores de uma sociedade, gastamos o nosso interesse, a nossa energia e o nosso dinheiro em coisas menores, interesse de meia dúzia que em nada transformam o panorama social nacional. Vivemos governados por uma maioria que norteia a sua governação por meros e ineficazes populismos, obstáculos para uma reforma social séria e valorosa.
Quantas pessoas irão beneficiar com a aprovação da lei sobre a “Interrupção Voluntária da Gravidez”? Quanto se irá gastar com o referendo popular? Quantos dias paralisará o país esta campanha de sensibilização que aí vem? E se a maioria das pessoas decidir não votar, como parece ser o mais provável? Vamos brincar de novo aos referendos?
Enquanto a nossa inquietação se dispersar pelas pequenas coisas, jamais conseguiremos chegar às grandes e são precisamente esses, os verdadeiros veículos do desenvolvimento que se pretende ver implantado.

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