quarta-feira, janeiro 03, 2007

As sonhadas euforias

Rei morto, rei posto. O velho ano foi a enterrar e, com ele, emerge um novo, carregado de simbolismo e de euforia. Passada que está esta quadra festiva, haverá com certeza algumas inferências a daí retirar.
Eu, como muitas outras pessoas, costumo nesta quadra, enviar mensagens às pessoas que me são mais chegadas, desejando-lhes um Ano Novo cheio de esperança, coberta com um inabalável manto de fé e pleno de sucessos. Ora, ao que parece, são manifestações de pura retórica, embora os meus propósitos estejam desprovidos desses contornos.
Se bem repararmos, tudo ou quase tudo continuará como dantes. Mudou o sete em vez do seis; para mim e se tudo correr bem, o três cambiará para o quatro; o colorido ou a distribuição do cabelo talvez mudem de tom ou fiquem mais ralos mas, no essencial, o que altera para tamanho entusiasmo?
Às primeiras horas do dia do início do novo ano, plantado em frente da televisão, lá me foi mostrado o que de mais belo se terá passado pelo mundo na pretérita noite festiva. Por momentos sonhei-me eufórico no calçadão de Copacabana, de coco na mão à espera das doze badaladas. Imaginei-me ainda, plantado ao frio, diante do “Big-Ben” londrino, a venerar o aparecimento do novo ano. Mas, acordado destes admiráveis sonhos, eis-me de volta ao meu sofá e às vicissitudes do meu dia a dia.
Volvidos alguns momentos, lá vem a notícia que mais se temia: a gasolina aumentou e, consequentemente, os transportes, o pão, a electricidade e outros bens necessários. Regressado à pureza do meu racionalismo, pensei para comigo: afinal, para quê tanta euforia e tanto festejo? Porque me acordaram deste maravilhoso sonho?
Despertado desta “viagem”, aos poucos, vão surgindo as habituais caras enfadonhas e os problemas do dia a dia. Vê-se o Primeiro-ministro a dizer que vivemos num país “oasiático” onde tudo é maravilhoso e rola sobre rodas; o Presidente da República a apelar à responsabilidade e ao empenho dos portugueses; os debates televisivos a discutirem se Saddam deveria morrer enforcado ou fuzilado; os automobilistas a auto mutilarem-se nas estradas, desrespeitando as mais elementares regras da condução. Ah, claro que o primeiro bebé do ano não podia ser esquecido! Uma coisa não ficámos a saber: com quem dormiu Floribela?

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