quarta-feira, maio 16, 2007

Haja paciência!...

Reflecti muito sobre se deveria comentar este assunto que tanto tem invadido a paciência e a consciência de cada um mas, com tantos e tamanhos bombardeamentos diários, não me contive em o fazer.
Embora na sociedade portuguesa se sintam ainda marcados vestígios de analfabetismo, por estes dias, pelo mais ignorantes e distraídos que possamos ser, penso que não haverá nenhuma alma, que não saiba do desaparecimento de uma criança inglesa que se encontrava no Algarve a passar uns dias de férias. As televisões, os jornais e até as caixas de email encarregaram-se de nos relembrar este episódio.
Não quero aqui evidenciar uma qualquer insensibilidade para com este hediondo caso que se abateu sobre aquela família. Todavia, entendo que o exagero continuado de informação sobre este assunto, acaba muitas das vezes por provocar o chamado “efeito de boomerang” ou seja, deturpa os propósitos esperados inicialmente, invertendo os intentos previstos.
Logo que foi público este acontecimento, homens e meios, que é como quem diz, repórteres de imagem, jornalistas e uma imensa logística ligada ao mundo da comunicação social ali aportou para fazer a cobertura do “evento”. À cabeça, a imprensa inglesa alimentou logo ali “álibis” para o sucedido, tratando de culpabilizar a polícia portuguesa pela falta de empenho e de informação que transparecia para o exterior. Sentia-se uma desmesurada vontade em tudo relatar quando praticamente nada se sabia ou nada se acrescentava.
O sensacionalismo inglês empenhou-se logo de mundializar o caso transformando-o num facto diário relevante para a vida britânica e, quiçá, para o mundo. Por momentos pensei que o quotidiano inglês não tinha destes problemas, onde não desapareciam crianças e onde a polícia tudo tornava público. Mas, depois de fazer um ligeiro “rewind” apercebi-me que têm no seu próprio país um vasto campo, onde podem alimentar este tipo de sensacionalismo mediático sem incomodarem a pacatez e tranquilidade portuguesas.
Analisando bem, pergunto-me a mim próprio: onde estavam estes tablóides britânicos quando o seu país ajudou a invadir o Iraque levando ao desaparecimento de milhares de crianças? Será que estas crianças indefesas e inocentes não deveriam ter a mesma cobertura mediática, com fotografias, com parangonas e com primeiras páginas iguais aquelas que estão a ser dispensadas no Algarve? Onde estão os donativos para as suas buscas?
Será que no Crescente Fértil os tablóides “Dailly Mirror”, o “The Sun” ou a estação de televisão “Sky News” se prontificam a oferecer importantes pistas sobre os “vândalos” invasores às polícias locais ou se investigaram o paradeiro das crianças aí desaparecidas? À semelhança da britânica, aquelas também tinham rosto, brinquedos, família...
Pelo mais que lutemos, o mundo acaba por ser demasiado desigual. Os números nem sempre são aquilo que são; antes sim, aquilo que queremos que sejam. Haja paciência! Já não suporto mais este folclore diário.

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