segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O referendo da modernidade!...

Na ressaca dos resultados da consulta popular obtidos no referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, no essencial, muita coisa terá sido ocultada. Diria até que o mais importante foi encoberto da opinião pública.
Depois de ver alguns festejos, sobretudo orquestrados por grupos partidários, muitos deles extremistas, politizando-se assim este assunto, ninguém me conseguiu fazer ver aquilo que afinal era o mais importante: quantas pessoas decidiram a favor do “sim”?
Aquilo que matemática e estatisticamente é verdade é o seguinte: num universo de 8.832.628 eleitores, 4.981.015 abstiveram-se e, dos 3.851.613 votantes, 2.238.053 votaram “sim” e 1.539.075 votaram “não”.
Daqui se conclui que cerca de 56% do eleitorado voltou as costas ao referendo e não votou; cerca de 26% votou “sim” e cerca de 18% votou “não”. Perante estes dados, não entendo o porquê de tamanho alarido vitorioso. Afinal, foi apenas ¼ do eleitorado a legitimar e a decidir sobre um referendo de tamanha importância!
Se pertencesse à classe política e me tivesse empenhado tão profundamente na defesa da causa, o único sentimento que me poderia invadir perante os dados apresentados era uma profunda desilusão face a tão grande descalabro. A fraca afluência é sinal de que a importância da mensagem não atraiu os eleitores e, afinal, o tal “flagelo” com que tanto se badalou durante estes dias, serviu apenas para exorcizar alguns fantasmas, utilizando para tal, os tempos de antena que a lei consente.
Por outro lado, não entendo como é que o Serviço Nacional de Saúde vai ter dinheiro para financiar os abortos que aí vêm “às resmas” (sim porque com tantas condenações e julgamentos, está-se mesmo a ver!) e não tem dinheiro para comparticipar a vacina contra o cancro do colo do útero, avaliada em cerca 480 euros e que atinge anualmente perto de 400 potenciais mães! Em média, este tormento mata uma mulher por dia no tal século XXI da modernidade, aquele em que os pseudo vencedores de ontem tanto veneravam!
Por outro lado, o tal Serviço Nacional de Saúde, o mesmo que vai financiar os abortos, não tem dinheiro para contratar médicos de família, disponibilizando assim, a assistência médica necessária a quem “alimenta” mensalmente este sistema com os seus impostos.
É uma vergonha nacional quando em Portugal se discute o direito ao aborto e não se referenda o direito à saúde! Há mais de treze anos, repito, treze anos que espero por um médico de família. Não ouvi dizer isto ao vizinho, não; isto acontece comigo! Até já pensei para comigo se ao tal “médico de família” apenas teria direito quem tivesse filhos e como os não tenho!…
Como me impedem do meu direito à saúde, gostava, ainda assim, que não me impedissem de exercer o meu dever de cidadania e não me transformassem num cidadão de segunda. Mas, para isso, teriam de falar verdade debatendo as causas que são verdadeiramente abrangentes e estruturais e não andar ao sabor de ideias populistas e trotskistas.
Ah, já agora, esclareçam os eleitores de uma vez por todas, sobre o que é ser “vinculativo”. É que estou na eminência de ter de comprar outro dicionário!...

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