sexta-feira, junho 08, 2007

"Vendedores de ilusões"!...

Quem se reconhece como “aprendiz de historiador” ou dedica parte do seu tempo ao conhecimento da História, sabe da importância que as “balizas históricas” têm, facilitando-nos assim, uma compreensão mais acertada sobre um manancial vasto e diversificado de práticas sociais, de usos e costumes muito próprios e típicos das diferentes épocas e regiões que pretendemos conhecer.
Embora a História seja composta e muitas vezes entendida à luz de uma datação exacta, a evolução historiográfica nem sempre se rege sob este indicador. Existem diversificadas interpretações para os períodos que a compõem mas, convencionou-se que o estudo da História Europeia contém quatro grandes ciclos civilizacionais a saber: a Época Clássica que se estende sensivelmente desde a formação da Civilização Grega, por volta de 2.000 a.C., à formação da Civilização Romana, (fundação de Roma) em 753 a.C., terminando este período com a queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476.
Seguidamente, temos a Idade Média ou Idade Medieval que se inicia com as invasões Bárbaras e a consequente queda do Império Romano do Ocidente e se estende até à queda do Império Romano do Oriente, com a ascensão do Império Bizantino, em 1453.
Dá-se aqui início a um novo ciclo na História, designado de Idade Moderna, materializada no gigantesco expansionismo europeu, levando à formação de grandes impérios, culminando na Revolução Francesa, no ano de 1789.
Finalmente o quarto ciclo conhecido por Idade Contemporânea que se inicia com a Revolução Francesa e se estende até aos nossos dias.
Isto é, por assim dizer, uma simples viagem ao longo da História para, através das suas épocas a podermos interpretar e entender melhor, embora as “balizas” traçadas sejam sempre meros acontecimentos passíveis de interpretações variadas.
Para promover muitos dos locais ricos em História que o nosso país tem, é comum algumas edilidades promoverem iniciativas que nos remetam a viagens ao passado longínquo, numa tentativa clara de promoção daquilo que se fazia antigamente, com o contacto directo entre comerciantes e mercadores, com a reabilitação de usos gastronómicos, mostrando alguns dos hábitos sociais da época; enfim, um sem número de actividades que, quando bem enquadradas, são sempre de louvar. Falo, claro está, das feiras.
Há dias, num passeio feito a uma das vilas mais antigas de Portugal – Ponte de Lima, assisti a uma Feira Medieval que por lá acontecia. Muitos trajes medievos, muitos artesãos, muito comércio mas… não deixou de me despertar um certo amargo de boca quando senti que aqueles comerciantes, quase todos tinham um sotaque espanhol. Interroguei-me: mas será que os medievais eram todos espanhóis? Olhando bem, para além das vestes, de medievo nada tinham! Trajes adornados com óculos “Armani”, promovendo nas bancas “recuerdos” da loja dos chineses. Ao lado, podiam degustar-se belos crepes de chocolate, embebidos numa refrescante sangria ou numa “portuguesíssima” caipirinha! Tudo medieval, supunha eu?...
Mas, como se todo este meu espanto já não bastasse, na semana seguinte assisto a uma outra feira, numa outra cidade (Braga) mas, desta feita, tratava-se de uma feira Romana. O que aqui me surpreendeu fortemente foi que, os comerciantes, os produtos, os trajes, os adereços e o sotaque dos vendedores eram em todo iguais aos de Ponte de Lima.
Afinal, a ser verdade (e eu acredito!) que Época Clássica e Época Medieval existiram em tempos díspares e se manifestaram igualmente de formas tão distintas como é possível que o “cenário” das duas feiras seja em todo semelhante? É que, nem sempre os fins se compadecem com os meios e, assim sendo, não devia valer tudo nestas iniciativas. Caso contrário, estamos a promover os “genuínos” vendedores de ilusões!...

2 comentários:

Anónimo disse...

Bem, grandes lições de história se aprendem neste blog :)!
Em relação a estas feiras medievais/romanas que começam a proliferar por aí, é bem visivel que os valores comerciais acabam por se sobrepor e se misturar com os factos históricos em si, que acabam por ser menos fidedignos. De qualquer maneira, penso que o saldo é positivo pois trazem alegria e movimento a locais normalmente com poucas actividades culturais.

Muitos beijinhos ;)

Anónimo disse...

Pois é Sofia, mas estas lições são, como se costuma dizer "de borla". No entanto eu, para as ter, tive de desembolsar aquele chorudo valor das propinas. Essa é que é essa!
Mas, enfim, o meu espírito de solidariedade vem sempre ao de cima!:)
De facto, o saldo destas inciativas é positivo, pela alegria e pelo movimento que geram. Mas, devemos evitar as certas ilusões.
Beijinhos