quinta-feira, outubro 12, 2006

"Os grandes portugueses"

É do domínio comum que o canal público de televisão – RTP, vai colocar na sua grelha, já a partir do próximo domingo, um programa denominado “Os grandes portugueses”.
Ao que dizem e pelo que sei, é um projecto que se pretende apelativo, capaz de ajudar os portugueses numa aturada reflexão sobre a nossa História e sobre as pessoas marcantes que ao longo dos séculos a “escreveram”.
Posto isto, o passo número um consistiu em “seleccionar” as tais grandes figuras e colocá-las numa vasta lista de cerca de duas centenas de personalidades. Como em qualquer escolha ou avaliação, a subjectividade impera na hora das opções, o que é perfeitamente admissível!
O que já não é compreensível é o esquecimento reservado à figura de Oliveira Salazar, político que dirigiu os destinos de Portugal durante 36 anos. Independentemente da ideologia, da crença, da cor política ou da maior ou menor simpatia que sintamos pela figura, é incontornável a marca que deixou no país. Podemos não concordar com aquilo que ele defendia nem com as práticas utilizadas. Todavia, o que não podemos fazer é virar as costas ao nosso passado, que é como quem diz, à nossa própria História.
É que, se considerássemos como figuras importantes apenas homens conotados com as ideologias políticas vigentes, que diriam os republicanos dos monárquicos ou em outros países, os monárquicos dos republicanos?
O facto da não “convocação” de Salazar para o rol de figuras apresentadas pela RTP revela-se de contornos estranhos. Afinal, será que aquele velho e odiado lápis azul da censura, tão usado na ditadura do Estado Novo, deu agora lugar ao novíssimo lápis vermelho da actual rejeição, num país republicano, laico e democrático?
Se uma figura que define e projecta os destinos de um país, durante mais de um terço de século, não é por si só objecto de atenção redobrada, então eu não conhecerei os critérios que pautam estas escolhas.
Era bom que não decidíssemos este tipo de opções unicamente dentro de gabinetes à mercê de pseudo intelectuais que de História pouco ou nada aparentam saber. Devíamos auscultar a sociedade civil, buscando nela personalidades várias, quer da área empresarial, quer da literatura, do cinema e da história, na busca de fontes e vozes credíveis e insuspeitas.
Caso contrário, leva-me a crer que este programa que a RTP pretende por no ar, se mostra aos portugueses como um “mortality show” bem ao estilo da ousada e muito pouco criativa concorrência.

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