terça-feira, junho 06, 2006

O "Ouro" de excepção!...

Portugal e a cultura lusófona estão mais pobres. No passado domingo os portugueses tiveram conhecimento da morte de Raul Indipwo, membro ainda sobrevivente de um dos seus maiores e mais carismáticos grupos musicais – os “Duo Ouro Negro”, pondo desta forma , um ponto final a décadas de glória e de sucesso.
Este duo angolano, formado em finais da década de cinquenta por Raul Indipwo e Milo MacMahon, começou por centrar todo o seu repertório no folclore angolano, abarcando desta forma várias etnias.
Um memorável espectáculo dado em Luanda dá-lhes o “passaporte” rumo à metrópole para actuarem no cinema Roma, em Lisboa e no Casino do Estoril. Estes bem sucedidos espectáculos catapulta-os para uma auspiciosa internacionalização, levando-os a actuar em países como Suíça, França, Finlândia, Suécia e Dinamarca, entre outros, dando música a muita gente.
Na capital francesa chegam a actuar no mítico Olímpia e no Alhambra, durante semanas, sempre ovacionados por uma numerosa plateia. Chegam a tocar também para os príncipies do Mónaco na Ópera de Monte Carlo.
Mais tarde, procuram novos destinos actuando na América do Sul e América do Norte, constituindo-se como um verdadeiro grupo cosmopolita. Na Argentina, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Japão, as salas vibravam com as suas actuações. Foi assim que tornaram populares muitas das suas músicas: “Muxima”, “Maria Rita”, “Amanhã”, “Muamba, banana e cola” e “Vou Levar-te Comigo”.
Tocam em espectáculos, actuam em programas televisivos e, num momento único, fazem parte nas comemorações do 20º aniversário da UNICEF, num espectáculo transmitido de Paris para mais de 200 milhões de telespectadores, espalhados pelo mundo. Aqui atingem a sua verdadeira consagração.
Radicado definitivamente em Portugal, após a revolução de Abril de 1974, o “Duo Ouro Negro” apadrinhou com a sua música o regresso de muitos desalojados portugueses e africanos provenientes das antigas possessões portuguesas em África.
Por esta altura, com a reputação já granjeada, Raul Indipwo manifestava o seu desagrado com a realidade portuguesa. Dizia ele que “a verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para cantarmos. A televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num plano inferior a nós”, num claro apelo ao reconhecimento do grupo no panorama musical português.
Com a morte de Milo no final da década de oitenta, o duo termina, continuando Raul Indipwo com uma carreira musical a solo, intervalada com a pintura, organizando inúmeras exposições no seio da comunidade lusófona.
Recentemente, ao saber da morte de Raul Indipwo, o cantor Luis Represas adjectivou o emblemático grupo, portador de "…uma identidade musical fascinante e foi todo esse trabalho fascinante ao longo do tempo que eles fizeram e de trazer a cultura africana e angolana para Portugal, numa altura extremamente difícil, que os fizeram ficar na primeira fila", explicou.
Já o jornalista Baptista-Bastos recordou a pintura “nostálgica” de Raul Indipwo. “Era uma pintura da memória que simultaneamente tem a ver com a própria cultura africana, onde as coisas não surgem manicaísticamente”.
Com o desaparecimento desta incontornável figura, a lusofonia perde uma das suas mais conceituadas vozes e um dos seus grandes embaixadores. Ao Raul, o meu agradecimento!...

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