quarta-feira, dezembro 21, 2005

"E tudo o fogo levou!..."

Anualmente, Portugal e os portugueses são fustigados por um número interminável de incêndios que, para além de consumirem uma parte importante da nossa floresta, provocando grandes mossas na nossa economia, causam igualmente, danos irreparáveis no quotidiano das gentes que habitam as regiões mais afectadas e mais vulneráreis a esta mesma devastação.
Ainda no último Verão, tive oportunidade de ver “in loco” o sofrimento dessas pessoas, a forma árdua e épica com que se dedicavam à protecção dos seus haveres; muitas vezes, o único sustento que possuíam. Animais pereceram queimados perante tão abrasador inferno! Pessoas, envolvidas na defesa das suas próprias habitações morrem queimadas, envolvidas nessa titânica luta.
À época, os telejornais das várias televisões abriam e "deleitavam-se" durante minutos a fio, relatando, como se de um qualquer jogo se tratasse, o evoluir da trágica situação, expressa nos rostos de dor, de sofrimento, de abandono e de desânimo das gentes afectadas. Paralisava-se o país com esta ocorrência. O mais importante para os canais televisivos era o relato, era o registo do melhor plano de imagem, era o apanhar a chama mais alta e o choro mais comovente! Repetiam-se imagens até à exaustão.
Entretanto, o clima amenizou, as tradicionais chuvas de Inverno marcaram a sua aparição e, com elas, o frio, a neve, o Pai Natal… e as suas historietas. E o que se fez para amenizar o sofrimento da maioria dessas pessoas, que pouco mais tinham do que uns míseros punhados de cinza nas mãos? Será que se fez alguma coisa? Será que se disponibilizaram todos os recursos?
Pois é, já nos habituámos a que o Verão seja entendível como a época dos banhos, das férias, dos incêndios e o Inverno como a época da neve, das prendinhas, das renas, dos trenós e dos pais Natal; só que, todas estas fantasias não conseguem esconder a realidade de muita gente que não dispõe de argumentos para fantasiar o seu sofrimento. Estou convencido que, nem que o Pai Natal mude de cor o conseguem!
Nesta época festiva para alguns, seria bom que o fosse para muitos. Para todos, diria eu! Seria bom que as pessoas que vivem afastadas das grandes decisões, escondidas e esquecidas no seu anonimato se fizessem ouvir e fossem ouvidas; lhes fosse dada a atenção que merecem e o apoio que lhes foi prometido. Dói saber que existe gente a viver sem o seu lar que ardeu, a viver ao frio, sem qualquer auxílio, envergonhadas pelo fado que a vida lhes reservou. Onde está afinal, o tal Estado Providência? Que é feito dele?
A quadra festiva em que vivemos será sempre um momento que, pelas suas fortes tradições, nos deveria remeter para uma maior solidariedade, uma maior partilha e uma grande entreajuda. Afinal, pegando nas palavras de Ary dos Santos, se o Natal é sempre que um Homem, uma criança ou um qualquer Pai Natal quiserem, que haja então essa vontade! Que o fogo leve os haveres mas que deixe uma réstia de esperança!

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